Como o capitalismo está matando nossas crianças

Primeiramente (fora Temer), gostaria de informar que este texto não se baseia em nenhuma referência bibliográfica, artigo científico ou qualquer coisa do gênero. Se baseia nas minhas humildes experiências pessoais, olhares atentos e empatia por crianças e adolescentes. E é como diz o ditado: viver não cabe no Lattes. O problema todo é a educação ser um negócio. As crianças não são vistas como seres humanos em toda sua subjetividade, mas sim recursos humanos, treinados e adestrados para executarem tarefas que continuem perpetuando o consumo irrefreável dessa nossa sociedade ocidental. As escolas disputam entre si para obter aprovações nos vestibulares porque nosso mundo precisa de mais engenheiros, mais advogados, mais médicos, mais empresários. Pessoas que apenas mantenham a ideologia de consumo, de egoísmo, da materialidade, de ver a natureza como um recurso, de hábitos destrutivos. A gente aprende tudo, menos a amar os outros, a ajudar, a parar. Apenas parar. As nossas crianças murcham, morrem e pedem socorro. Porque tá tudo anotado na agenda. Aulas de matemática, português, história, ciências, mais aulas de matemática, geografia, educação física, inglês, espanhol, arte, sociologia, filosofia, mais aulas de matemática e pra finalizar mais uma aulinha extra de matemática. A única coisa que não tá anotada é a hora de ser criança de verdade. O recreio só tem trinta minutos, não é a toa que o barulho é ensurdecedor nesse pequeno intervalo de tempo. Tempo de comer qualquer coisa muito gordurosa e calórica, bebendo um suco de caixa ou refrigerante venenoso, e correr pra fazer alguma coisa que goste (talvez a única no dia). E mais: quando chegar em casa da escola, corra para se arrumar para o ballet, karatê, escolinha de futebol, aula de inglês, kumon e ainda fazer as 15 páginas de dever de casa e aquela pesquisa que a pró passou sobre um assunto que você não suporta. Parece uma rotina louca, não é mesmo? E você achando que era o único que andava com a mente apertada. Esse dia a dia quase maratonístico vai sempre acompanhado por perguntas que nunca serão respondidas, eternizadas em nossa mente até a morte: e bháskara, vou usar quando? As crianças são estimuladas a estar em constante movimento. Cinquenta minutos de aula, sai um professor e entra outro. Mais cinquenta, sai esse professor e entra outro. Quebra de raciocínio, perguntas que ficam ‘’para a próxima aula’’ porque tem algo mais importante para ser feito do que debater ideias interessantes e que despertam a curiosidade dos estudantes. As crianças são estimuladas a serem responsivas ‘’vamos ver quem termina primeiro?’’, assim elas vão aprendendo a não pensarem muito antes de agir, o que importa é ser rápido. Quarenta crianças, quarenta universos, sentadas em fileiras, com as roupas todas iguais, fingindo olhar para uma pessoa lá na frente que passa dever de casa ‘’para o bem de vocês’’. O problema da escola é uniformizar. É comparar laranjas com maçãs. É exigir que quarenta cabeças encontrem dentre cinco alternativas a única correta. Nunca vai haver uma única resposta correta. E se eles marcam é porque foram insistentemente ADESTRADOS para isso. Somos ímpares, únicos, temos paisagens de mente diferentes, tivemos experiências diferentes, crescemos em famílias diferentes, em lugares diferentes. Quem inventou que haveríamos de pensar da mesma forma? O problema da escola é exigir que você tenha memória. Aquela memória. Aquele único tipo de memória considerada por um método jurássico que persiste. O mundo mudou e as escolas continuaram as mesmas. Até mesmo os pais não sabem como educar seus filhos fora do modo rígido e exaustivo em que foram criados, “Como assim não tem dever hoje? Um absurdo essa escola, vou ligar amanhã para eles”, mas provavelmente nunca trocaram duas palavras com os professores que convivem com seus filhos diariamente. Mas o novo precisa vir. Onde nossos pais chegaram? Será que é onde queremos chegar? O aprendizado saudável e construtivo está ligado diretamente ao interesse. Por favor, não pense que professores e diretores sabem mais que a criança sempre. Hoje em dia as informações estão todas aí, o que move o ser humano para obtê-las é apenas a vontade. A criança precisa ser ouvida, precisa ser considerada como, veja só, um ser humano. A mudança de hábitos é o caminho para a saúde e felicidade nessa vida louca que vivemos, o mundo precisa de gente feliz, que ama, que cuida e que para fazer isso com os outros precisa inicialmente se cuidar e se amar. E fica muito difícil se amar quando todo mundo lhe cobra a todo tempo que saiba, que gere resultados (para quem?), que tire 10 em todas as provas que ocorrem todas as semanas. E depois de 10 anos nessa jornada, ainda tem o ensino médio. E aí vêm os comentários super amorosos: como assim não passou no vestibular? Ou ainda: como assim vai fazer faculdade de música? Onde já se viu? Quer passar fome? O capitalismo exige que a gente consuma cada vez mais e para isso não dá para sermos ‘’humanos demais’’, sonhadores. Não dá tempo de confiar, de olhar para o outro com cuidado e ver o que ele precisa, em que podemos ajudar. A gente não tem tempo nem de olhar pra ninguém. A escola precisa parar de ser um negócio onde a moeda é a nota. Precisa parar de ser um local de competição e status, de qualidade por aprovação no vestibular, por pontos no Enem. Precisa parar de ser uma prisão. Um local de restrições. A escola precisa entender que não educa para a vida, a escola É PARTE da vida. Não tem como isolar a vida das horas vividas na escola, é tudo parte da experiência de viver. As crianças são curiosas, criativas, emotivas e barulhentas por natureza. Elas precisam se expressar, a escola precisa acompanhar seus movimentos, precisa lhe ouvir, precisa entender que aquele ser tem tudo o que ele precisa e que a escola só vai ajudá-lo a realizar seus sonhos. A escola precisa confiar no potencial mágico que as crianças têm de imaginar, criar e realizar. E seria muito bom também se não fosse toda pintada de branco, toda clean. Não, por favor. Grama, flores, árvores. Cores. Se sujar é um processo lindo, educativo, gostoso de se viver, faz parte da infância. A escola precisa ter o toque e o cheiro das crianças em casa tijolo, precisa ser inicial e finalmente para elas. Precisa ser curtida. E o principal: as crianças precisam se reconhecer nessa campo vasto de luminosidade. Eu faço um apelo às escolas: apenas deixem as crianças serem elas mesmas. Respeitem a individualidade de cada uma delas, não as façam sentirem-se aberrações. Elas são naturalmente extraordinárias. Não percam a chance de fazer cada estrelinha que nasce ser o melhor que possam ser: elas mesmas.

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