Quando eu parei e vi tudo se mover normal

Naquela sexta-feira que o mundo seguiu adiante de novo, toda transmutação começou pelo telefone. Ao finalizar a chamada ficou aquele mudo, seco, vazio. Levantei, peguei minhas coisas e desci com meu irmão que já me aguardava terminar a ligação para irmos embora. A rua, as pessoas, o movimento na pequena cidade, incrivelmente tudo continuava no mesmo lugar. Aquele horário de fim de tarde em que tudo se move para finalizar um ciclo e fazer as coisas que fazemos quando a noite está para chegar: crianças saindo da escola, comprar o pão, movimentos em todas as direções. Eu com o computador no colo dentro do carro esperando Lucas ir comprar o pão. Tudo. Se. Movia. Do. Mesmíssimo. Jeito. Nem uma formiga se quer mudou de trajeto porque você tomou aquela decisão. Meu mundo interno estava cheio de questionamentos e de uma pequeníssima tristeza aguda, mas nada lá fora mudou. Não seria assim sempre? O mundo continua seu embalo independente do que a gente viva, o mundo é muito grande e mágico. Ver as coisas em seus devidos lugares me confortou, me mostrou que o movimento é a constante da vida, tudo precisa mudar, é assim que todos os acontecimentos são feitos. E que apesar de tantas coisas saindo de um lugar e indo para outro, nós podemos repousar nisso, ver de fora e não reagir. Naquele momento eu pude não reagir a nada porque meu interior pedia quietude. O mundo interno de algum modo é que nos guia, eu entendo isso agora de uma forma diferente, eu experienciei essa capacidade de ver tudo permanecer igual, enquanto algo que devia ser importante acontecia. Talvez dessa vez eu não precise renascer tanto. É inverno de novo, mas dessa vez sobraram flores para eu admirar…e seguir feliz apesar de triste.

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    Natalie Melquíades

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    “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. 26, Salvador, Bahia, Brasil.