A esfera da predestinação

Natan Belarmino
Sep 5, 2018 · 3 min read

A predestinação é um assunto que através dos séculos continua sendo motivo de incansáveis debates.

Ocorre que dentro desse “calor teológico”, principalmente se considerarmos que sua etimologia veio de um contexto que ocorreu há milênios, é possível, e até provável, que a ideia original embaladora do termo tenha perdido força ou até mesmo sofrido algumas variações de entendimento e tradução.

Assim, a presente resenha crítica pretende expor o tema com clareza e objetividade, sem, no entanto, desrespeitar os argumentos até então utilizados nessas discussões soteriológicas.

A proposta é apresentar uma breve análise da palavra Predestinação, bem como dos termos preordenação e eleição, sob a ótica de um conjunto de esferas dimensionais de entendimento dos seus significados e significantes, e não de uma linha que aborda cada vocábulo de forma sequencial, interdependente, mas apenas tangencial.

Em regra, a escola reformada vem apresentando essa doutrina nos termos como exposto por Millard Erickson em sua teologia sistemática: “O sentido de ‘predestinação’ se encontra, especificamente, entre os termos ‘preordenação’ e ‘eleição’.”

Nesse caso, coloca-se a preordenação em um extremo linear e a eleição em outro, deixando, no meio exato dessa linha, a predestinação que, embora tangenciadora de ambos os conceitos, também é a responsável por se interpor entre os dois contrapontos.

Sob essa ótica, a eleição, embora limítrofe da predestinação, cujo lado positivo representa, não está inserida no conceito da preordenação.

Ocorre que a interpretação proposta nesta resenha é a de um panorama em que, a eleição está contida na predestinação, e a preordenação contém a ambos.

Literalmente uma visão de um conjunto de esferas dimensionais em que a preordenação é o elemento externo que circunda a predestinação que, por sua vez, circunda a eleição.

“Haja luz”! Em Gênesis 1:3, encontramos o primeiro relato de ordenança divina que, assim como todos os demais fatos que denotam a vontade de Deus em relação a todo os eventos, consubstanciam-se, juntos, o conceito de preordenação.

Quando essa vontade divina se restringe à vida ou à morte eterna, temos a esfera da predestinação.

Romanos 8.29–30 nos diz: Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou. Efésios 1.5 e 11 diz: E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (…) Nele, digo, em quem também fomos feitos herança, havendo sido predestinados, conforme o propósito daquele que faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade.

As palavras traduzidas como “predestinou” e “predestinados”, nas Escrituras citadas acima, vêm da palavra grega proōrisen — προώρισεν, que carrega justamente o significado de “anteriormente determinado”, “predestinar”, “decidir de antemão”.

Por fim, quando essa determinação divina a acerca da eternidade se limita a escolha de Deus sobre quais indivíduos serão salvos, temos a esfera mais interna do conjunto apresentado, a eleição.

Dessa forma podemos concluir que toda interpretação que alinha os conceitos acima expostos, corre o risco de ser eivada de vício no que tange a distanciar a eleição da preordenação, ao excluir aquela, do conceito desta, pois a assertiva se encontra justamente na vinculação harmônica dos três termos.

Natan Belarmino

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Dentre todos, eu sou o pior.