ASSISTINDO O FILME “ELA” ATRAVÉS DOS OLHOS DE PIERRE LEVY

Natanael Fonseca de Jesus[1]

A história de aproximação entre o homem e a máquina é remota. Talvez remonte à pré-história. Desde que uma pedra resolveu um problema do homem, o homem achou interessante relacionar-se com um objeto que não fosse a extensão do seu corpo nem se assemelhasse a algo nele. Entretanto, até chegar ao diálogo, não ao mero contato com a máquina, foi uma longa viagem no tempo e no espaço (ciberespaço). É, portanto, no ciberespaço que se constrói a cibercultura.

Nesse contexto, comprar um novo sistema operacional para seu computador pode determinar a vida amorosa de uma pessoa solitária. E embora a psicologia tradicional diga que talvez o homem seja mais atraído pelo que vê do que propriamente ouve, a voz feminina de um sistema operacional pode fazer um homem se apaixonar. Em suma, esta é a história de Theodore (Joaquin Phoenix), um escritor solitário, que compra um novo sistema operacional para seu computador e, enquanto vive o processo de divórcio de seu casamento, estabelece uma relação de amor com um programa de computador. Quando fez a configuração seu novo SO, Theodore interconecta-se com Samantha (Scarlett Johansson), Ela, uma apaixonante voz advinda daquela máquina. A voz tão feminina que chega respirar bits e compor canções de ninar homens.

Se pretendesse ser meramente uma história de amor incomum que explora a relação entre o homem contemporâneo e a tecnologia, talvez o filme já se mostrasse inovador, mas ele parece revelar uma tendência, não uma novidade. O momento em que a máquina se volta para o homem e diz que ele a ajudou desenvolver a sua habilidade de querer, mostra que a tecnologia caminha não simplesmente para fazer o que o homem quer, mas também o que a máquina deseja. Isso seria possível? Talvez sim, se se considerar que toda atividade humana perpassa por três entidades: técnica, cultura e sociedade. Pierre Levy (1999, p. 22) responderia que: “Mesmo supondo que realmente existam três entidades, em vez de enfatizar o impacto da tecnologia, poderíamos igualmente pensar que as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura.” Desta perspectiva, depreende-se que o que Theodore vive enquanto contracena com sua máquina não é meramente imaginação que não encontra lugar em lugar e tempo algum, não é só utopia. Tem um que de “aqui e agora” nesta sociedade pós-moderna.

Da perspectiva do sociólogo Nelson Dacio Tomazi (2013, p.262): “os produtos culturais aparecem como invólucros cada vez mais esplendorosos, pois a cada dia são maiores as exigências para prender a atenção dos indivíduos.” Esses produtos são produzidos para atenderem às necessidades das pessoas que querem apenas entretenimento e diversão. Enquanto as empresas propagam-se preocupadas com o caráter educativo ou cultural de quem consome, na verdade esses produtos são oferecidos tendo em vista as necessidades das próprias empresas, cujo objetivo é unicamente o lucro. Por meio de propaganda intensa em cores, melodia, harmonia e ritmo, elas imprimem no consumidor o desejo e a necessidade de consumir determinadas mercadorias.

Pierre Levy, entretanto, questiona se essa análise é justa. Concordando apenas com a parte em que o autor supracitado coloca o interesse econômico por trás das relações de consumo, o pensador diz que não é só isso, nem pode ser. Compreende ademais que as técnicas não são coisas de outro planeta, do mundo das máquinas, frio, sem emoção estranho a toda significação e qualquer valor humano, mas vinda do próprio ser humano. Nas palavras de Levy (1999), talvez se pudesse dizer que o filme Ela parece denunciar que não somente as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas durante seu uso pelos homens, como também é o próprio uso intensivo de ferramentas que constitui a humanidade enquanto tal. E somando isso à linguagem e às instituições sociais complexas, para análise, pode se notar que o ser humano foi, é e será o mesmo de sempre: É o mesmo homem que fala, enterra seus mortos e talha o sílex, acende o fogo, cozinha os alimentos, endurece a argila, funde os metais, alimenta a máquina a vapor, corre nos cabos de alta tensão, queima nas centrais nucleares, explode com as armas os engenhos causando destruição de toda sorte. Depois usa a arquitetura para construir e abrigar os atingidos, reúne para assinar tratado de paz enquanto planeja guerra. Com a roda e a navegação que abriram seus horizontes para avançarem no espaço; com a escrita que registra esse progresso de formas a registrarem no tempo; com o telefone e o cinema que o infiltram de signos para romperem a barreira da distância; com o texto e o têxtil que, entretecendo a variedade das matérias, das cores e dos sentidos, desenrolam ao infinito as superfícies onduladas, luxuosamente redobradas, de suas intrigas, seus tecidos e seus véus, o mundo humano é, ao mesmo tempo, técnico e sentimental. Isso tudo aplicado permite uma personagem virtual como Samantha do filme Ela sendo amada por alguém de carne, osso, sangue e suor como Theodore.

Pode-se considerar Samantha uma personagem estranha (um programa de computador capaz de amar); ou pode se explorar uso da tecnologia da perspectiva maniqueista; por conseguinte, se encontra Theodore e outros personagens do filme em conflito, se achando loucos ou sendo achado loucos por estarem amando um programa de computador. Entretanto, Pierre Levy (1999) questiona se as tecnologias seriam mesmo um ator autônomo, separado da sociedade e da cultura. As tecnologias seriam apenas entidades passivas percutidas por um agente exterior? Contrariando a perspectiva maniqueista, Levy defende que a técnica é um ângulo de análise dos sistemas sócio-técnicos globais, um ponto de vista que enfatiza a parte material e artificial dos fenômenos humanos, e não uma entidade real, que existiria independentemente do resto, que teria efeitos distintos e agiria por vontade própria. Ou seja, mesmo a artificial Samantha, que parece assustadora por agir e reagir de forma viva e pensante, é criação humana e deste mundo. Assim, o pensador delineia as atividades humanas, de maneira indisolúvel, abrangendo-as nas seguites categorias de interações:

- pessoas vivas e pensante,

- entidades materiais naturais e artificiais,

- ideias e representações.

A partir dessa perspectiva de análise de Levy (1999), pode-se concluir que, mesmo num filme de enredo “inovador” como Ela, é impossível separar o humano de seu ambiente material, assim como dos signos e das imagens por meio dos quais ele atribui sentido à vida e ao mundo. E, por conseguinte e consequência, não se pode separar o mundo material — e menos ainda sua parte artificial — das ideias por meio das quais os objetos técnicos são concebidos e utilizados, nem dos humanos que inventam, produzem e utilizam. Isto porque as imagens, as palavras, as construções de linguagem entranham-se na alma humana, fornecem meios e razões de viver aos homens e suas instituições, são recicladas por grupos organizados e instrumentalizados, como também por circuitos de comunicação e memórias artificiais.

No filme Ela, uma máquina pode cooperar com o texto de um escritor (conforme normalmente se espera dela) e, surpreendentemente pode lhe proporcionar satisfação, mesmo sexual. O homem e a tecnologia sempre foi um assunto discutido no âmbito da razão, nunca da emoção ou do sentimento. Com o advento e expansão das redes sociais, entretanto, o coração humano parece balançar num click. A máquina pode expressar muitos sentimentos, mas ainda não sabe o que é perder alguém de quem se gosta. Até quando? O homem reconhece a realidade da máquina e ela agradece. O homem deseja a máquina além da relação fria e mecânica que ela naturalmente lhe proporcionaria. Mas nada de fazer dessa relação de amor e ódio, vida e morte, apego e rejeição — uma relação maniqueísta.

Olhando, portanto, o filme Ela através dos olhos de Pierre Levy (1999), é possível percerber que por trás das técnicas agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a gama dos jogos dos homens em sociedade. Sendo assim, qualquer atribuição de um sentido único à técnica só pode ser dúbia. A ambivalência ou a multiplicidade das significações e dos projetos que envolvem as técnicas são particularmente evidentes no caso do digital.

O desenvolvimento das cibertecnologias é encorajado por Estados que perceguem a potência, em geral, e a supremacia militar em particular. É tambem uma das grandes questões da competição econômica mundial entre firmas gigantes da eletrônica e do software, entre os grandes conjuntos geopolíticos. Mas também responde aos propósitos de desenvolvedores e usuários que procuram aumentar a autonomia dos indivíduos e multiplicar suas faculdades cognitivas. Encarna, por fim, o ideal de cientistas, de artistas, de gerentes ou de ativistas da rede que desejam melhorar a colaboração entre as pessoas, que exploram e dão vida a diferentes formas de inteligência coletiva e distribuída. Desta perspectiva, não se pode considerar filme Ela como mais uma ingênua celebração da tecnologia. Isto porque esta perspectiva crítica conduz a uma reflexão profunda sobre todos os aspectos que ligam os homens à máquina, e à projeção que se faz dos amores na invisibilidade do meio virtual. Esses projetos heterogêneos diversas vezes entram em conflito uns com os outros, mas com maior frequência alimentam-se e reforçam-se mutuamente.

[1] Trabalho apresentado para avaliação parcial da disciplina Comunicação e novas tecnologias (2º período), sob a orientação do Professor Ms. Cecílio Bastos e Tiago Carvalho (Mestrando).

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Referências:

LÉVY, Pierre. Cibercultura; tradução de Carlos Irineu da Costa. — São Paulo: Ed. 34, 1999.

Tomazi, Nelson Dacio. Sociologia para o ensino médio — 3 ed. — São Paulo: saraiva, 2013.

Ela (Her). Direção: Spike Jonze; Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Rooney Mara; Gêneros Drama, Romance, Ficção científica; Nacionalidade EUA, Data de lançamento 14 de fevereiro de 2014 (2h 06min).

[1] Trabalho apresentado para avaliação parcial da disciplina Comunicação e novas tecnologias (2º período), sob a orientação do Professor Ms. Cecílio Bastos e Tiago Carvalho.

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