O Dever de Desobedecer

Recentemente vi dois filmes que se debruçam sobre o tema da autoridade e em como esta acaba por ser uma espécie de social flaw onde os indivíduos para se sujeitarem à autoridade abandonam o seu código moral.
Os filmes são ambos do ano passado (2015) e baseados em experimentos psicológicos que aconteceram na década de 60 e 70.
Stanford Prison Experiment é sobre o experimento que o professor Philip Zimbrado realizou na universidade de Stanford onde foi atribuído aos estudantes participantes deste estudo, sem qualquer critério, o papel de guardas prisionais ou de prisioneiros.
O outro filme apresenta as experiências do professor Stanley Milgram. A mais popular, conhecida como The Milgram Experiment, contra todas as expectativas, revela que dois terços da amostra estava disposta a, eventualmente, matar com choques elétricos um outro participante do estudo apenas porque errava questões. Era autoritariamente pedido que se seguisse o protocolo e aquando de reservas a respeito da progressão do experimento um indivíduo de bata apelava para uma abstracta entidade: A experiência requer que você continue.
Um outro filme e um outro experimento dentro mesma temática é Die Welle. Este filme apresenta uma versão contemporânea do professor alemão que perguntou à sua turma se achavam possível que se caísse de novo num regime totalitário. A turma respondeu negativamente de forma categórica, porém, após o professor em jeito de experimento começar a usar estratégias de mobilização usadas pelo regime nazi o surpreendente começa a acontecer.
As maiores atrocidades da história não foram cometidas por rebeldes mas por obedientes.

Penso que foi o Banksy que disse (ou pintou): As maiores atrocidades da história não foram cometidas por rebeldes mas por obedientes.
O que é que Mao Tse-Tung, Estaline ou Hitler seriam se não tivessem tido a obediência dos militares, da polícia ou de qualquer outra pessoa for that matter? Jamais matariam o número de pessoas que mataram. Esta amostra dos três maiores assassinos da história (que por sinal eram todos políticos) prova a ideia do Banksy e corrobora as impressões de Milgram e Zimbardo.
Mas será esta coisa da obediência estar hard-wired em nós intrinsecamente má? Estou convencido que não. Por exemplo, as pessoas que rejeitaram continuar o experimento de Milgram apelaram para a obediência do seu código moral. Portanto para desobedecer é preciso obedecer a uma causa maior e é esta obediência que legitima a minha desobediência. Por exemplo: Aquando do boicote de autocarros de Montegomery a população negra sentou-se nas filas da frente e não cedeu o seu lugar à população branca. Fizeram isto não por uma rebeldia adolescente mas porque era imperativo que uma lei maior fosse obedecida, a igualdade de direitos.
Também é possível desobedecer sem critério, dirão. Mas isso é disparar em todas as direcções, posso acertar o alvo mas também posso matar alguém. E a verdade é que no fundo há sempre um critério, que não tendo cuidado, é sempre o bem estar da minha própria pessoa em detrimento da dos outros.
Temos o dever moral de desobedecer toda e qualquer lei injusta.
É neste sentido que creio que em última análise devemos ser todos anárquicos. Porque nenhum sistema político pode ditar, em última análise, o que faço. Não me sujeitarei a nenhuma lei que vá contra a minha consciência. A Lei não é a Justiça. A Lei é a tentativa de aplicar a Justiça. A Justiça é o espírito da Lei. A Justiça é absoluta, a lei é relativa. É por isso que alteramos as leis, para que o mundo fique mais justo.
Esta posição de não sujeição absoluta era a posição de Ghandi e Martin Luther King Jr., que levou depois à famosa desobediência civil.
Tal como eles temos o dever moral de desobedecer toda e qualquer lei injusta. É imperativo que cultivemos um senso moral, qual espinha dorsal de todo o cidadão, para que tenhamos a ousadia e a coragem de não sermos coniventes com leis ímpias que destroem o nosso mundo.