Como escrever melhor — com Chuck Palahniuk

O que o escritor de Clube da Luta pode nos ensinar sobre escrever melhor?

Quando voltei a escrever ficção, lá em 2016, acabei esbarrando em um problema que, mais cedo ou mais tarde, brota diante da tela de qualquer autor:

Como deixar isso tudo melhor?

Acontece que não há fórmula mágica e absoluta para se escrever fantasticamente bem. Claro, existem algumas regras básicas que podem ser seguidas e que você encontrará em muitos cursos de escrita criativa. Você pode aprimorar seu vocabulário, por exemplo, aprender regrinhas básicas de gramática, ler bastante, óbvio, e também pode (deve) treinar sua escrita. Isso tudo você, escritor, já deve saber, mas hoje trago uma regrinha mágica que Chuck Palahniuk, o autor de Clube da Luta, Sobrevivente e diversos outros best-sellers entregou de presente para todos nós.

Preparados?

Corte os verbos de pensamento.

Isso mesmo. A dica não tem nada sobre motivação, frequência de escrita ou inspiração. A dica do Chuck é uma porrada na cara, como tudo o que ele faz. Corte a porra dos verbos de pensamento das suas frases. Como ele mesmo diz, isso é um atalho sem graça, que deixa qualquer texto raso como piscina de criança. Mas o que ele quer nos mostrar com isso? Deixa o cara falar por ele mesmo:

Em seis segundos, você vai me odiar. Mas em seis meses, será um escritor melhor.
De agora em diante — pelo menos pelo próximo meio ano — você não poderá usar “verbos de pensamento”, incluindo: pensar, saber, entender, perceber, acreditar, querer, lembrar, imaginar, desejar e centenas de outros que você ama.
Essa lista também deve incluir: amar e odiar. E pode se estender a ser e ter, mas nós vamos chegar nesse mais tarde.
Pensar é abstrato. Saber e acreditar são intangíveis. Sua história sempre vai ser mais forte se você mostrar apenas as ações físicas e os detalhes dos seus personagens e permitir que seu leitor pense e saiba. E ame e odeie.

Esses verbos de pensamento tiram o brilho da coisa toda, deixam todo parágrafo com cara de "afirmação de tese". Ao invés disso, experimente focar nas sensações, nas ações físicas.

Por exemplo: "Tiago levava chocolates, mas sabia que Vanessa não queria mais ficar com ele e odiava isso."

Vamos destrinchar isso? Vamos pegar o caminho mais difícil e deixar o atalho para trás?

"Tiago comprou chocolates. Cada um dos bombons naquela caixinha podia definir se ele e Vanessa ainda ficariam juntos algum dia. O garoto pega o celular. Cinco horas sem resposta dela. Ele então para. Começa a juntar suas mãos e destrói a caixa de bombons, amassando todo o chocolate que, como sangue, escorria pelas suas mãos. Tiago joga a caixa longe, sem olhar para trás."

Esse foi um exemplo rápido que criei, claro que há muito para ser lapidado, mas percebe a diferença? Não precisamos invadir a cabeça de Tiago e arrancar o que ele sente e pensa. Ao invés disso, deixe que a narração corra fluida, como uma câmera oculta numa grua, para nos mostrar como ele se sente através de suas atitudes. Deixe o personagem viver.

Vamos para outro exemplo?

"João avistou o brutamontes Carlos e morria de medo dele"

Se fosse um passeio de bug pelas dunas nordestinas, esse seria o "sem emoção". Vamos acelerar esse carrinho.

"O mundo parou por um instante quando João avistou o brutamonte Carlos. O menino calculou* se ainda dava tempo de voltar atrás e se esconder na rua mais próxima sem parecer ainda mais patético ou se dava ao menos para controlar a tremedeira nas pernas. Não dava."

Não diga ao leitor: “Lisa odiava Tom.”
Em vez disso, construa seu caso como um advogado na corte, detalhe por detalhe. Apresente cada evidência.

Mas isso não funciona só transformando esses verbos de pensamento em ações. Afinal, você pode estar se perguntando, como vou revelar ao meu público o que se passa na cabeça do meu personagem? Como desembrulho seus pensamentos mais apaixonados ou amedrontadores?

Chuck, aqui, nos diz algo valioso: nunca deixe seu personagem desacompanhado, sozinho em sua cabeça. Mesmo nos pensamentos mais íntimos, seu personagem parte de algum lugar, físico ou não. Mergulhe-o em memórias que mostrem seus sentimentos ao invés de descrevê-los, simplesmente.

Um personagem sozinho deve mergulhar em fantasia em memória, mas mesmo nesses casos você não pode usar “verbos de pensamento” ou qualquer um de seus parentes abstratos.
Ah, e você não pode se esquecer dos verbos lembrar e esquecer. Nada de frases como “Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar seu cabelo”.
Em vez disso, diga: “Quando estavam no segundo ano da faculdade, Nelson costumava arrumar o cabelo dela com escovadas suaves e longas”.

Não diga que "José se perguntava se conseguiria o emprego". Você está perfurando e arrancando os pensamentos da cabeça do pobre José à força. Ao invés disso, deixe que José te pegue pela mão e te guie nos seus devaneios.

Algo como:

"Ao voltar para o carro, José se viu no espelho retrovisor. A gravata estava muito folgada, desalinhada, esquisita, muito diferente da imagem do candidato perfeito da vaga para a qual ele acabara de ser entrevistado. A maldita gravata."

Por fim, Chuck Palahniuk nos dá um último aviso.

E, enquanto estiver evitando os “verbos de pensamento”, seja muito cauteloso ao utilizar os verbos ser e estar.
Por exemplo:
“Os olhos de Ann eram azuis” ou “Ana tinha olhos azuis”
versus
“Ann tossiu e sacudiu uma mão em frente seu rosto, espantando a fumaça de cigarro de seus olhos, olhos azuis, antes de sorrir…”
Em vez de usar os sem graça “ser” e “ter”, tente enterrar esses detalhes dos personagens em suas ações ou gestos. Para simplificar, isso é mostrar sua história, em vez de contar.
E daqui para frente, depois que você aprender a desmembrar seus personagens, você vai odiar os escritores preguiçosos que se contentam com: “Jim sentou-se ao lado de seu telefone, perguntando-se se Amanda não ligaria.”

O que eu amo neste ensaio do Palahniuk, como já disse, é que ele não tem nada sobre rotinas malucas de sete mil palavras por dia ou conselhos genéricos como "leia pra caralho". Chuck nos dá algo prático, nos pedindo para começar a cortar os verbos de pensamento agora.

Por fim, vale a reiterar: não há fórmula mágica. A dica de ouro desse autor pode não funcionar para um monte de outros escritores. Normal. Mas o que vale aqui é a tentativa. Aceite esse desafio e me conta depois no que deu. Combinado?

referências:

Grifo Negro | Lit Reactor

*A Mariah Lieban, do grupo Escritores ajudando outros escritores, me despertou para o fato de que a palavra "calculou", no exemplo do menino com medo do brutamontes, também seria um verbo de pensamento. É claro que a regra do Palahniuk não precisa ser seguida a risca, mas o trecho ficaria muito mais interessante se, no texto, tivesse sido apontado que o tempo para dobrar a próxima esquina ou dar meia volta seria insuficiente. Ele está calculando, mas, ao invés de usar a palavra seca, nós estamos dissecando seus pensamentos. Obrigado, Mariah!


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