Juntos

Será o amor capaz de sobreviver à crise política?

Quando ele finalmente apareceu no seu gabinete, sozinho e com a gravata não tão arrumada assim, os braços da sua poltrona já exibiam duas ou três marcas de unhas. Tentou sorrir daquele jeito que fazia frente às câmeras e deu um abraço no companheiro. Não soube dizer quantas vezes olhou o relógio, mas, para ela, os minutos estavam ficando cada vez maiores.

“Bom dia, companheira”

A língua presa era a mesma.

“Bom dia não sei para quem, como dizem por aí. Né.”

“Olha, quero resolver isso da maneira mais rápida. O bicho tá pegando lá em casa. O filha da puta tá nos meus calcanhar…”

“E você merece, descarado! Esqueceu daquele episódio ano passado, que você ‘não concordava’ tanto assim com as minhas escolhas? Agora entendi a metáfora da cobra!”

“Veja bem, companheira…”

“Companheira o caral…”

Uma pausa. Uma respiração profunda.

“Desculpa, olha, eu estou cansada. Faz pelo menos um ano que eu não durmo direito. Esses cinco quilos que foram embora nunca viram dieta. É cansaço, Luís. Cansaço.”

“Essa crise tá braba mesmo. Posso pedir um pilequinho?”

“Por Deus, homem, são dez da manhã!”

Ignorando a advertência dela, ele foi a estante e pegou uma garrafa da Anísio Santiago que, poucos sabiam, mas estava guardada ali desde 2007. Serviu-se de generoso gole, direto da garrafa.

“Você sabe o que eu preciso. O que você precisa. São dois coelhos numa cajadada só, mulher!”

“Você não entende, não é? Nunca entendeu! Na sua época era fácil. Era muito fácil. Agora isso aqui tá um INFERNO!”

Lágrimas trêmulas caem no seu vestido branco estilo vovó. Ele larga a garrafa de cachaça na mesa e se aproxima dela.

Um toque no braço esquerdo. Direito. Quando menos vê, estava envolvendo-a em seus braços. Ela deixa se aconchegar.

“Eu não aguento mais. Vou sair. Você não entende, ninguém vai aceitar. NINGUÉM! É demais para eles, Luís!”

“Companheira, eu vou te ajudar. Em tudo, não só no que me cabe. Toca pro pai, que aqui sabe jogar.”

“Eu não estou brincando! E além do mais, pare de me chamar de companheira, sabemos que sua companheira de verdade não sou eu”

“Marisa e eu não nos deitamos há muito tempo. Você sabe. Pelo menos, desde 2010. Mas a gente…”

“…a gente nunca foi. Nunca vai ser. Não pode ser, Lula. De novo não!”

Nisso, ela o encara. Com a certeza de que, numa última tentativa, poderia resistir àquela barba macia.

“Lula, eu…eu sinto sua falta. E você sente a minha. Vamos deixar tudo isso pra traz. Seremos eu e você novamente, como em 2007!”

“Minha linda, nosso amor pode esperar. Nesse momento, nós precisamos do Brasil mais do que ele precisa de nós. Mas juntos, companheira, juntos podemos ser grandes novamente”

O hálito doce da cachaça envelhecida denuncia a proximidade das bocas. Ele não faria nada, ela era quem tinha o poder. Não deveria, mas, nessa altura, nada mais importava.

O pingente vermelho de estrela que caiu no primeiro puxão daquele terno foi a única testemunha do que aconteceu. As roupas caíram rápido. As peles esfregaram-se. As bocas devoraram-se. O cheiro de amor dominava o gabinete no Palácio do Planalto.


Enquanto colocavam as roupas no lugar o peso da realidade voltou a cair sobre os ombros dela. Então, parou por um momento de subir o vestido.

“Se formos fazer assim, será do meu jeito”

“Como quiser, companheira”

Enquanto observa os livros na estante, ele dá mais um gole na cachaça.

“Mas vou querer a Casa Civil”

“Quer me foder, desgraça?”

A esta altura, ela já havia voltado a ser A Presidenta.

“Dilma, tem que ser assim. Eu tenho a articulação política que nóis precisa pra driblar a crise econômica. E, de quebra, eu me livro do FDP do Moro.”

Mais um respiro profundo. Dilma termina de subir o zíper do seu vestido e olha-se num pequeno espelho que guardava ali. A mulher que a encarava de volta tinha um olhar um pouco mais confiante.

Lula aproxima-se novamente e beija suas mãos.

“ Juntos, como nos anos 80, como em 2007, lembra? Juntos?”

“Juntos”

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