RESENHA | Pornopopéia (2009)

É difícil um título de livro me pegar de cara. Geralmente, preciso de umas boas folheadas e pesquisadas nos Googles da vida, escarafunchando não só a sinopse e o enredo, mas também a biografia do autor, para só então decidir que é esse o livro que quero ler. Pornopopéia, do Reinaldo de Moraes, fugiu dessa regra maledetta.

Veja bem, tempo de leitura é um dos ativos mais caros hoje em dia. Qual foi a última vez que tu se viu engalfinhado num livrão no alto das suas quatrocentas e caralhadas páginas? Pois é, não é pra todo mundo, amice. O romance beatinique do Reinaldão me pegou. Não só uma, mas duas vezes. E se você se atrever a folhear uma página sequer, ele vai te pegar também.

Então vamos à sinopse, antes que você desista dessa lenga-lenga:

Zeca é um ex-cineasta marginal com só um filme de sucesso, o maldito Holisticofrenia. Hoje, praticamente sustentado pelas pessoas que o circundam — mulher, cunhado, amigos– o cineasta leva sua vidinha produzindo vídeos institucionais. Mas o trabalho sempre é prorrogado por conta do pó, da pinga e da putaria, não necessariamente nessa ordem.

Você não sabe o que te espera a partir daí. Aliás, sabe sim, o título já prenunciou: uma epopeia recheada de pornografia e sarcasmo. O humor reina nesse livro. Me peguei gargalhando alto várias vezes frente aos pensamentos insanos do personagem. Ponto pro autor, que entende que não há nada mais engraçado do que a piada na forma mais crua possível. Porra, qual foi a última vez que você gargalhou lendo um livro?

Saca só:

Lá na reunião, consegui pelo menos manter restrito ao meu gabinete craniano outro slogan genial que me ocorreu: “Embutidos Itaquerambu — um refresco para o seu cu.” Achei tão bom que me pus a rir sozinho, o que não deve ter ajudado muito a melhorar minha imagem no pedaço.

Hehueheuheue.

Ah, mas não pense que tudo é festa e oba-oba. Na real é, mas nas loucuras que Zeca entra, vemos uma vida devassa levada tanto ao extremo que, às vezes, me peguei torcendo pro fiadaputa parar de uma vez, terminar seu trabalho e voltar pra família, ao invés de se entregar a orgias e imbróglios com traficantes e botecos decadentes.

Reinaldo domina cada pedaço de literatura escrita. Nada sobra. Não há gordura nesse texto. Toda vírgula, todo haicai e todo lampejo do personagem ajuda a construir aquela mentalidade insana e deliciosa de se entrar. E perigosa, também.

Enfim, Reinaldão da Massa nos entrega um livro ímpar na literatura contemporânea, em que todo palavrão é celebrado, toda putaria é bem-vinda e todo sarcasmo gargalhado. À medida que a vida de Zeca se complica, mais desgraçado você fica da cabeça. Só que é um desgraçamento bom, vai por mim. E engraçado.

Por trás de toda a galhofa exagerada e sexual, o autor mostra que domina muito bem a literatura, evocando momentos de sinestesia raramente antes vistos em outras obras literárias. Zeca sai do ponto A ao ponto FUDEU muito rápido, de modo que a agonia crescente só é quebrada –graças a Deus!– pela maluquisse dos pensamentos e atitudes dessa figura decadente.

Eu já falei dos haicais? Falar muito estraga, mas vou te dar uma amostra-grátis:

Do banco de trás, eu olhava a mãozinha dela acariciando a bola do câmbio e sentia meu pau se espreguiçar. Um momento lindo que merece uma pequena homenagem poética:
Eureca! Eureca!
tesão
na cueca!

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