Afinal não somos tão diferentes

Cansei de ouvir a expressão: "o que seria do azul se todos gostassem o amarelo". Acho que durante um tempo eu realmente acreditei que, o que diferenciava as pessoas era o fato delas escolherem coisas diferentes, terem ambições diferentes. Profissões diferentes, opções sexuais diferentes, religiões diferentes. Tem gente que gosta de sorvete de chocolate, tem gente que gosta de sorvete de morango.

Adorava quando alguém dizia para mim: "mas você é diferente, você faz isso, você gosta daquilo." Achava que isso definia minha existência:
Natascha = pessoa que gosta disso, faz aquilo, etc.

Engraçado por que tudo o que você aprende se desfaz quando se tem filhos. Outro dia estava tentando listar a diferença entre minhas filhas:

Oli, de 7, vive pendurada de cabeça para baixo. Não consegue ficar com o cabelo arrumado por mais de exatos 45 segundos (o tempo entre eu acabar de prender o rabo de cavalo e ela chegar até a porta de casa). Faz ginastica artística, dança aérea, se pendura na grade do prédio todos os dias. É uma moleca. Não gosta de usar vestido, pois atrapaha os movimentos — mãe vai aparecer minha calcinha. Adora andar descalça. É dispersa, não consegue sentar para fazer o dever sem levantar pelo menos 4 vezes para falar sobre qualquer coisa, menos o que estava fazendo. Tem uma personalidade forte, teimosa e as vezes quase impossível de administrar sem perder a paciência. Mas é uma das pessoas mais sensíveis, carinhosas, dengosas com quem já convivi. Adora um beijo, beija todo mundo. Do cachorro ao porteiro. Da vizinha a vendedora de loja. E chora. Chora de felicidade, de tristeza, de saudade, de medo, de excitação. Sempre que alguma coisa mexe com ela, seus olhos enchem de lagrimas.

Be, de 10, é super vaidosa. Vive com o cabelo impecável. Fica tensa quando um fio sai do lugar. Não sai de casa sem combinar sapato com camiseta e tem uma dúzia de vestidos no armário. Mal termina o almoço já está sentada fazendo o dever e não levanta de lá para nada até acabar, ninguém nunca mandou. Ela acha que precisa fazer e faz. Quase não chora. Sou capaz de contar nos dedos quantas vezes ela chorou de verdade. Não chora quando se machuca, não chora quando está triste, não chora quando está feliz. Ela senta e olha. Pensa e depois fala. Faz volei e Muay Thai.
É um pessoa incrivelmente bem resolvida para a idade. Não sofre a toa. Acha que tem coisas que não valem à pena gastar tempo. Então passa por cima e segue. Não gosta de muitos beijos e abraços, mas é absurdamente doce quando quer demonstrar que gosta de você. E dura quando quer mostrar que não gostou de alguma coisa. Não leva desaforo para casa, resolve o que não gostou com quem é de direito e quase não pede ajuda.

Oli gosta de sorvete de chocolate, Be de morango. Oli adora nuggets (fica feliz quando eu libero uma vez ao mês), Be ama comida japonesa (tem sorte que eu libero várias vezes ao mês). Oli diz que gosta de azul, mas tem um monte de roupas rosas, Barbies etc. Nunca curtiu fantasia de princesa. Acha princesa chata.
Be usava fantasia de princesa para ir ao colégio toda sexta-feira até os 5 anos. Gosta de rosa e de maquiagem, mas nunca brincou de Barbie. Preferia skate e bicicleta.

Nunca fez muita diferença o que elas gostavam ou não. Até por que nunca foi possível encontrar um lógica nas suas preferências, algo do tipo: gosta de rosa + tem cabelo arrumado + brinca de Barbie. Suas diferenças não fazem sentido lógico algum.

Daí a gente descobre que as comparações não são exatamente tão simples quando parecem. É como se tudo isso fossem expressões diferentes das mesmas questões.

Apesar de todas as aparentes diferenças, elas são muito parecidas. Me vejo nas duas, o tempo todo. Como se elas estivessem materializando partes diferentes de mim: gosto de sorvete de chocolate, mas não curto nuggets e adoro japonês. Nunca fui muito vaidosa, não gosto de rosa, nem de maquiagem, mas adoro vestido. Hoje faço Muay Thai, mas fiz ginastica artistica durante 8 anos na infancia. Choro de felicidade, mas pouco de tristeza. Muito de raiva, nunca de medo. Sou prática, me irrito quando as coisas se dispersam. Adoro beijo, mas sou extremamente dura ao demonstrar o que não gostei. Sempre adorei ficar de cabeça para baixo, e andar de skate e bicicleta. E acho que tem poucas coisas que valem a pena gastar meu tempo.

Afinal, somos todas muito parecidas.

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