COLUNINHA: Amanhã

Milhares de neuroses, sofrimento por antecipação e vontade de tomar uma anestesia geral

Meu dia tá ótimo: fiz uma entrevista que durou só meia hora, voltei pra casa, fiz algumas coisas produtivas, comi direito, não briguei com ninguém, assisti a Champions League e namorei um pouco. Até que as coisas começaram a mudar quando o RH me informou que a resposta da tal entrevista viria até segunda-feira. O que eu vou fazer até segunda? Esperar? Contar com um “sim” ou ir vendo outras opções? Então recebi uma ligação e uma mensagem de empresas diferentes, o que significa que amanhã tenho mais duas entrevistas, confirmei presença nas duas apesar de estar exausta de tanto rodar essa cidade atrás de algum empregador que me queira no seu quadro de funcionários. Terei que acordar cedo, me vestir toda engomadinha no calor de 40 graus, pegar metrô e usar mais passagem sendo que não tô em muitas condições de gastar, pois nem tenho grana pra repor. Fico sofrendo pelas negativas que recebo e cada vez mais nervosa para os processos seletivos seguintes. Tô quase me ajoelhando, chorando em frente aos analistas e implorando pra me encaixarem em alguma vaga.

Preciso relaxar faz tempo. Pena que relaxar também custa dinheiro. Minha casa é o lugar mais hostil do mundo, mas não vou prolongar esse assunto pois só lhes pareceria um imenso melodrama. Só sei que faço de tudo pra relaxar. Pena que comer fora tá caro, meus melhores amigos moram muito longe e meu time joga lá na p.q.p. então decidi gastar o mínimo possível pra me divertir. Entrei no site de comprar ingressos pro jogo do meu time, site esse que entrei a vida toda e nunca deu problema. Até agora. Ingresso a 10 reais, todos os meus dados já salvos, só precisava sair confirmando tudo e digitando o captcha pra comprovar que eu não sou um robô. Na hora de concluir a compra deu erro no site. Me peguei numa raiva e tentando confirmar umas 20, 30 vezes por questão de honra. Não consegui e me senti frustrada. Sim, eu sei que vou a um bloco de carnaval gratuitamente com um amigo muito querido, e que tô convidando outros amigos e fazendo um rolê só meu, não dos amigos dos meus irmãos e eu sendo a acompanhante. Fui à praia com o namorado no fim de semana passado, mas sei que pra ver o namorado nos fins de semama preciso desembolsar pelo menos uns 40 reais.

Às vezes o sofrimento antecipado me deixa com vontade de chorar, me dá um desespero repentino, uma vontade de fugir. Até estou pensando em desistir de uma das entrevistas, a que é mais longe e mais cedo, porque eu já tomei tanta porrada que não sei quantas eu aguento.

“Tudo tem seu tempo. Sua hora vai chegar.”

Vivem me dizendo que eu tenho que ter paciência, esperar e não me comparar. Mas aí vejo minha irmã planejando férias no nordeste depois de ter trabalhado tanto pra merecer, e pensando em quando eu poderei fazer o mesmo. Nem preciso dizer que não se trata de inveja, e sim de refletir sobre o quanto de paciência eu preciso. A exemplo da minha vida amorosa, sei que terei que penar muito pra encontrar a melhor alternativa de todas, e sei que ela virá. Só me dói a espera, e dá uma vontade de me desligar.

Imagens: twitter archillect