abraão, o contemplador de sapatos

Abraão era um contemplador. O que costuma parecer bom, mas para ele, na verdade, sempre acabava meio mal. Era um jovem atípico, como costumava ser todas as outras coisas da sua vida meio solitária. Passava horas admirando sua coleção de cartões postais — eles chegavam todos os dias pelo correio no apartamento 703. Era um contemplador à distância de caligrafias e paisagens. Isso não o deixava esquecer o tamanho do mundo que sempre diminuía quando ele estava no seu quarto… sozinho, contemplando sua bota de cor marrom.

Abraão era um contemplador de coisas grandes, mas das pequenas também. E vivia se confundindo com o tamanho das coisas. Costumava se atrapalhar com a extensão do mundo, com a elasticidade do próprio coração, mas tinha uma quase certeza que sua vida seria curta, seus amigos poucos e sua altura insuficiente. Às vezes acreditava que tinha algum valor, mas isso se perdia entre a bagunça de sua mesa, entre os livros e os sites no computador.

Ele costumava também dar nome às coisas. Não havia sentimento que passasse ileso. Mas ele gostava mesmo era de dar outros nomes a si próprio. Como quem quer ser muitos, menos aquilo que estava fadado a ser; ele mesmo, abraão. Os nomes eram bons, até engraçados. Ele guardava um caderno de capa verde com uma lista imensa e cada um fazia parte de uma história diferente. Eis alguns:

Leviathanus

Dr. Strange

Frankstein

Noyerman

Angel of Music

The Phantom

O Coisa

Maldito

Ateu Comunista

Ele também cultivava uma série de maus hábitos. Como o de pensar à noite, imediatamente a protelada decisão de dormir. Toda vez ele dizia a si próprio: “Ah, chega! Vou dormir. Estou cansado!”. E era verdadeiramente tudo tão automático que ao longo dos anos tornou-se um hábito fazer um pequeno resumo do dia até que enfim ele pegasse no sono. Ele dormia bastante, apesar do sono desregrado.

Ele resolveu muitas vezes aprender coisas novas. Fez aulas de violão, desenho, inglês, russo, pintura, um intensivo de como produzir cervejas e duas míseras aulas de economia doméstica quando tentou aprender a dar ordem, pelo menos, no seu quarto.

Abraão sabe muitas coisas, mas parece desprovido de realidade para aplicá-las. A ânsia continua. Sempre. Ele se cansa, mas persiste — por inércia, claro.