Sabrina, a contempladora de carros

Algumas vezes Sabrina tinha a impressão de que viveria para sempre. Escreveria um livro, viajaria pra muito longe e olharia pro céu de algum lugar bem alto. Outras vezes, ela perdia a certeza e seu olhar se fixava em algum objeto imóvel e cotidiano. Nessas horas, para Sabrina, o dia parecia desanimador e adiante tudo era algo como um abismo.

Ela estava sentada na borda do chafariz desativado há pelo menos trinta e cinco minutos. Já tinha lido quatro páginas de um livro e fumado um cigarro também, até que seu olhar paralisou em benefício da grande e pacífica movimentação interior. A vida na cidade a inundava de curiosidades, por isso Sabrina frequentemente estava metida em elucubrações das mais variadas naturezas. Um exercício comum era o de compreender se ela perdia ou se ganhava os dias e na sua aritmética a resposta dependia do céu, dos cometas e das formigas. Era assim que Sabrina articulava as coisas do mundo, atenta à diversidade de seus sinais.

Quando ainda criança colecionava algumas certezas que pareciam advir da sabedorias dos místicos. Por exemplo, para ela as estrelas eram olhos de pessoas que não viviam mais na terra — eram como olhos mágicos desses das portas modernas. As pessoas então ficavam lá de cima olhando os terrestres, pensando nas coisas da terra e nas coisas do céu e andavam com uma roupa branca em um gramado verdinho. Elas faziam buracos no chão, colocavam os olhos lá e conseguiam enxergar quase tudo. Sabrina costumava se sentir menos sozinha assim.

Sabrina, que já não era tão jovem, ainda esperava que as estrelas fossem pessoas. Daquele chafariz desativado, com a visão periférica ocupada por carros, pessoas e coisas urbanas, ela tentava silenciosamente conservar o desejo de olhar o céu mais de perto, assim de um lugar distante e alto. Na selva dos homens, Sabrina se sentia uma formiga preta e pequenina, mas com um coração-cometa arisco e flamejante. Esculpia no mundo uma órbita muito excêntrica como um ponto nebuloso constituído por cabeleiras e rastros luminosos.