Clarice,

Eu não leio biografias

Natasha Nicos
Jul 24, 2017 · 5 min read

Nunca entendi exatamente essa história de biografias. De certa forma sempre achei desestimulador pensar que a vida de uma pessoa possa render um bom livro enquanto a minha é rodeada de vários nada acontecendo. Minha saída, então, era não acreditar que isso fosse possível e pensar que toda vida era chata, que não valeria a pena lê-las, pois certamente não haveria dragões, viagens intergaláticas ou magia.

Eu claramente tenho expectativas irreais sobre a vida.

Vez ou outra encontrava alguém lendo uma biografia e falava “sabe, eu nunca li uma biografia”. Até que um amigo replicou “você não leu ‘Sobre a escrita’?”. Li. “E Persépolis?”. Li. “E a biografia em quadrinhos do Stan Lee?”. Então aparentemente eu leio, sim, biografias, gosto, mas nunca registrei isso no meu subconsciente e mantive o mantra de que não leio biografias. Foi aí que decidi me entregar de vez ao gênero. Comprei a biografia de Clarice Lispector por motivos de: 1.estava em promoção; 2. tinha acabado de ler Contos Completos e estava intrigada; 3. por que não?

Acabei de terminar o livro e fiquei perturbada; as próprias palavras da autora explicam porque estou aqui agora:

“Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu próprio espírito.”

Clarice, que primeiramente foi batizada como Chaya e teve o nome mudado ao chegar, ainda criança, ao Brasil, foi concebida de forma bastante planejada.

“Fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei.”

Nesse momento já se abriu um buraco dentro de mim que até agora não fechei. Como é ser criada para uma missão e falhar? Como é saber qual a sua missão? Talvez eu esteja falhando na minha missão e apenas não saiba. Saber é melhor? Ou a ignorância realmente é uma benção? Será que existe, de fato, uma missão nessa vida?

Tudo que me perguntei durante a leitura permanece sem resposta. Daria um ano de terapia. Talvez eu precise de terapia.

A sensação que o livro passa é que Clarice não se encaixava; que passou toda a vida se sentindo inadequada, sem pertencer a lugar nenhum. Eu gostaria de pertencer.

“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém”.

Terminei a leitura assustada, pois me enxerguei em várias descrições que Clarice fez de si mesma. E esse é justamente o problema: Clarice era triste. A imagem que a biografia passa é essa, de uma pessoa profundamente triste, em constante busca de si mesma, perdida, solitária e, novamente, inadequada, tentando desesperadamente se encaixar

“Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. […] Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias.”

Várias vezes sinto que estou me dando aos outros e desistindo de mim. Lendo isso passei a me perguntar: até quando? Qual é o ponto? Ela não parece ter achado o ponto, será que eu vou achar? “A solidão de que sempre precisei é ao mesmo tempo inteiramente insuportável.”

A sensação de despersonalização é pungente. “Será que Ângela [personagem de “Um sopro de vida”] sente que é um personagem? Porque, quanto a mim, sinto de vez em quando que sou o personagem de alguém. É incômodo ser dois: eu para mim e eu para os outros.” É incômodo notar que esse pensamento também é meu, mas só reconheci quando escrito por outras pessoa.

O maior incômodo, porém, vem de eu não querer me identificar com tanta tristeza e solidão. A minha não chega perto da dela, mas começa a assustar a hipótese de um dia chegar. E a cada frase que me tocava, mais crescia o medo.

“Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu.”

Clarice estava perdida e se procurava em seus próprios textos. “Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.” Ver esse caminho levando-a ao abuso de medicamentos, para lidar com a insônia (ou com os pensamentos?), é desesperador. A vontade que dá é colocá-la no colo e explicar que vai passar. A vontade é me colocar no colo e me convencer também de que vai passar. Mas talvez não vá. No caso dela, aparentemente, passou apenas com a morte. Uma morte precoce, mas não solitária.

Clarice tinha muitos amigos. Ela faz parte da história do Brasil de um jeito que eu nem imaginava. Parece que todo mundo que era importante naquela época se conhecia, de artistas a políticos. Ela foi escritora, jornalista, um pouco ativista, deu conselhos de moda e de independência feminina, desvendou almas várias que não se desvendavam por si só. Talvez tenha encontrado seu Deus e sua mãe no final de tudo.

Fica uma das poucas mensagens mais esperançosas que grifei:

“Quem é capaz de sofrer intensamente também pode ser capaz de intensa alegria.”

Acho que em minha próxima leitura de Clarice me aventurarei pelos seus livros infantis. É preciso um pouco de leveza na vida. E muita terapia.

“Respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você — respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você — pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita — não copie uma pessoa ideal, copie você mesma — é esse o único meio de viver”


“Eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar.” — Clarice Lispector

*PS: todas as frases em itálico são de autoria da dita cuja: Clarice,

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade