Onde estão as cores de setembro?

sobre o tal setembro amarelo

Natasha Nicos
Sep 5, 2018 · 5 min read

Então, eu tenho depressão. Nenhuma surpresa para quem lê meus textos por aqui. Mas quase ninguém lê meus textos por aqui. No facebook isso seria uma surpresa e tanto. Posto com frequência pequenas histórias de coisas inusitadas e engraçadas que acontecem no meu dia a dia. E acontecem várias. Uma série de pessoas já me parou nos corredores do hospital para dizer que se divertia muito com as minhas postagens. Acredito que elas se surpreenderiam de saber que elas eram uma tentativa terapêutica de encontrar pelo menos uma coisa boa todos os dias. E não encontro sempre.

Eis que tenho depressão. Hoje em dia várias pessoas sabem. Várias mesmo. Só duas tocaram no assunto suicídio. Sendo uma delas a psiquiatra. A gente não sabe falar sobre isso.

Um amigo ótimo, que todo mundo concorda que é excelente para conversar, veio aleatoriamente falar um dia sobre trabalho e o quanto às vezes ele nos custa. Respondi que o meu estava custando demais. A frase motivacional da minha agenda semana passada foi “qualquer coisa que custe a sua paz é muito cara”. Completei o assunto com “eu tenho medo de estar voltando a ter depressão”. Já escrevi anteriormente aqui que esse era meu maior medo da vida (preciso achar um novo agora?). Ele não respondeu. Acabou a conversa. Fim.

Talvez ele estivesse ocupado. Talvez ele não soubesse o que dizer. Levei meses para sequer tocar no assunto novamente com qualquer outra pessoa.

Expliquei a outra amiga os sentimentos todos, numa tacada só, após horas pensando se era ou não uma boa ideia. Ela disse que responderia depois, era muita coisa. Não respondeu. Não que nós não tenhamos conversado sobre a vida e ela não tenha me ajudado. Ela foi de extrema ajuda em diversos momentos me perguntando se eu estava melhor, se eu estava tratando. Mas demorei uma semana esperando todos os dias a resposta definitiva, com medo de chorar em público ao ouvi-la, até entender que não ia rolar, que talvez já tivesse rolado, sei lá.

Não acho que as pessoas sejam ruins por não saber o que dizer. Uma paciente me contou, durante uma consulta, sobre o tanto que ela estava triste. Era claramente depressão. Eu não sou psiquiatra, não estava esperando por aquele desabafo naquele dia. Identifiquei-me tanto, de forma tão pesada, que não soube o que dizer nem como seguir vivendo aquela manhã que eu sentia desmoronar ao meu redor. Não acho que eu seja ruim por não ter sabido o que dizer.

Depois eu disse. Depois ela foi ajudada. Depois meus amigos conversaram comigo. Só não naquela hora. Talvez aquela hora fosse a mais necessária. Mas não foi a hora que eles puderam me dar. Ou que eu pudesse dar àquela moça.

Setembro amarelo é uma campanha brasileira de prevenção ao suicídio. Muitas pessoas levantam a bandeira se oferecendo para ouvir os desabafos na hora que o colega com depressão precisar. A verdade é que não é bem assim, não pode ser qualquer hora, algumas nem vão saber o que dizer caso alguém decida fazer uso da proposta. E tá tudo bem. Quer dizer: tá ruim, mas tá bom.

Conversar sobre suicídio é importante. Olhar para as pessoas ao seu redor é mais. Eu sei, por experiência própria, veja só, que a gente pede ajuda de forma velada. Não é de propósito não, eu não me acho tão importante a ponto de pensar que todos estão observando todos os meus passos e vão notar cada pequena mudança de comportamento. Aliás, eu me sinto bem desimportante, até de forma excessiva, de acordo com a psicóloga. Eu velo os pedidos de ajuda porque conscientemente não quero admitir que preciso. Nem para mim, muito menos para você. Eu não queria precisar. Mas não estou te julgando por não notar, embora de vez em quando eu precise do sorriso de alguém que notou.

“ Se você expressar o que habita em você, isso irá salvá-lo. Mas se você não expressar o que habita em você, isso irá lhe destruir.” — Evangelho segundo São Tomé

Estou tratando. E junto com o tratamento veio uma insônia adorável. Resultou numa cara de mau humor que eu vinha disfarçando relativamente bem há meses e agora não conseguia esconder. Uma das minhas chefes (quase o hospital inteiro é praticamente meu chefe), perguntou sobre meu sono excessivo durante o dia. Contei do remédio e da insônia. Ela perguntou o motivo de eu estar tomando remédio. Seguiu-se um relato dos motivos todos. Levei uma sutil puxada de orelha por não ter falado antes. A verdade é que estou cansada de só falar dos problemas. E acho que estou cansando as pessoas também. Ninguém é obrigado a aguentar minha depressão, certo?

A resposta dela me marcou. Errado, ela disse. Você não ajudaria uma pessoa que precisasse agora? — Sim, eu ajudaria — Pois então, ela continuou, você está cercada de pessoas que também te ajudariam, mas que precisam saber que é necessário. Não precisa jogar todos os problemas nas costas de um só. Se contar para muita gente, gente o bastante, então cada um precisa fazer só um pouquinho e dar um pedacinho de si para melhorar um pequeno aspecto do seu dia. Os esforços somados podem fazer a diferença e ninguém vai se cansar porque não exigirá muito.

Ela me deu um abraço depois. Chorei em casa pensando nisso. Levarei para a vida.

Agora conto para gente o bastante. Pequenos detalhes por vez. Tudo bem se naquela hora a pessoa não estiver no melhor momento para ouvir. Haverá outra hora e sempre haverá outra pessoa para aquela hora. Não posso esquecer disso (às vezes ainda esqueço).

E dentro da minha própria dor, ainda há espaço para ouvir a dor do outro. Não vai ser o tempo todo, desculpe-me. Mas fale comigo, fale com as outras pessoas ao seu redor também. Sejamos todos parte da “gente o bastante” dos outros. Um pedacinho de cada um de nós é capaz de reconstruir um amigo com o coração em pedaços.

“O tratamento mais curativo que existe é a expressão honesta do que sentimos.” — Ana Claudia Quintana, em A Morte é um dia que vale a pena viver

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