Créditos: http://medicalchemy-images.blogspot.pt/2010/10/medical-innovation-death-counselling-im.html

Como as vagas de emprego em inovação castram a inovação nas empresas

Voltei a procurar emprego, e algo que reparo faz tempo, desde que procurava a minha vaga de trainee, é que só há vagas para a mesma meia dúzia de carreiras tradicionais. Engenheiro e administrador serve pra tudo. Então leio toneladas de artigos e pesquisas sobre inovação e vejo que agora tudo é inovação, é a palavra de ordem, tem de inovar senão morre. E o que isso tem a ver com as carreiras tradicionais? Tudo.

Explico: sou cientista de alimentos e também sou gastrônoma. Não estou me gabando das minhas credenciais, que fique claro, deixo-as aqui apenas para contextualizar a questão. Conclui um mestrado profissional em gestão global da inovação (sim, tem quem estude inovação em um mestrado e não só num workshop). Procuro vagas, obviamente, na área de inovação, na área de alimentos ou em outras, o critério é mais o propósito da vaga do que o título em si. E aí vejo o de sempre, as empresas procuram o mesmo perfil de sempre para preencher as tais vagas em inovação.

Oras, como é que se pode inovar se se começa sendo quadrado e tradicional desde o primeiro passo? Entendo a importância de todas as profissões, inclusive engenharia e administração, mas em vez de restringir logo, por que não começar processos seletivos com a descrição da vaga e abrir para quem preencha os requisitos independente da área de graduação? Se um fisioterapeuta é extremamente inovador e comunicativo e tem a competência para inovar numa empresa varejista, porque eu preciso obrigatoriamente abrir a vaga para um engenheiro? Abro a vaga para quem tiver melhores condições de preenchê-la! Onde estão as tão faladas equipes multidisciplinares?

Por falar nisso, que inovação há nas dinâmicas de grupo (e suas perguntas do tipo: se você fosse um animal, qual seria? E a resposta varia entre tigre, leão ou outro animal feroz) em que todos são treinados para falar o mesmo texto decorado? É o famoso “finge que está falando a verdade e eu finjo que acredito”. Pesquisei recentemente sobre processos seletivos inovadores e vi que cada empresa faz algo que se encaixe no seu cotidiano e nas habilidades que necessitam do candidato. Parece óbvio, mas não é a realidade na maioria dos processos seletivos.

Por coincidência, nas duas empresas por onde passei, o processo era mesmo interessante, em uma delas tive de preparar uma moqueca de peixe com os ingredientes disponíveis lá (vaga em Pesquisa e Desenvolvimento de produtos alimentícios e requeria habilidades culinárias), já na segunda, tinha de ir a uma loja deles, encontrar algo que pudesse ser melhorado e então traçar um pequeno plano para resolver o problema, ou seja, totalmente condizente com o trabalho futuro. E mais, aceitavam para isso qualquer área de formação, pois mais importante que ser formado em algo específico é saber resolver problemas. Sendo assim fui contratada junto a veterinário, economista, profissional de marketing…

Já em uma empresa onde não fui selecionada (vou poupar o nome, mas é uma multinacional que havia acabado de construir um centro de inovação em Food Service) era necessário saber cozinhar e ter experiência em desenvolvimento de produtos e habilidades de cozinha. Qual não foi minha surpresa quando ouço do RH no meio da dinâmica: “para a vaga em Food Service não se acanhe em disputar se você é administrador e não tem experiência em cozinha, o que você aprendeu a cozinhar com a sua avó já está bom”. Poxa vida RH, francamente, para que abrir o processo se no fim você vai contratar o administrador que aprendeu a cozinhar com a avó? Imagino como sua vaga é importante se nem mesmo você dá a ela a devida importância e contrata alguém que não tem as habilidades necessárias porque você faz questão de contratar uma carreira tradicional. Eu devia também me candidatar a uma vaga para ser analista contábil porque minha mãe me ensinou a pagar as contas de casa…

Num projeto do mestrado criamos um processo seletivo de startups usando Tangram (foto abaixo), um quebra-cabeças chinês milenar. É fácil de adquirir (pode-se imprimir e recortar o papel, fazer em outros materiais como EVA, cerâmica, tecido, etc), pode-se colorir como quiser e há milhares de combinações diferentes. O que importa é a criação de uma figura com as sete peças do Tangran, como se relaciona isso com o projeto da startup e porque deveríamos escolher e investir naquele projeto. Acreditamos que isso cria mais engajamento e distinção do que Cover Letters dizendo que o candidato tem habilidade em liderança e foco em resultados.

Crédito: https://matemativerso.wordpress.com/2010/09/17/tangram/

Inovação não é só a criação do novo I QualquerCoisa (substitua por pod, phone, carro). Um bom começo para empresas que queiram inovar é fazer a lição de casa, inovar em suas velhas práticas já mofadas, ouvir as ideias de seus funcionários sem distinção de cargo. A ideia do diretor nem sempre vale mais que a do estagiário. Não olhe torto pra aqueles que saem do escritório as 17h ou os que anseiam por uns dias de home-office (trabalhar até tarde não é sinal de trabalho árduo e sim, há vida fora do trabalho e as pessoas precisam de descanso). Pode não julgar que trabalha mais aquele que trabalha de cara fechada e calado do que o tagarela brincalhão (já ouviu falar na importância do networking?), não cometer greenwashing e outras práticas enganosas com seus clientes externos e internos. Promova um ambiente de trabalho saudável e sem preconceitos às minorias. Uma atmosfera de trabalho saudável, em que seus colaboradores se sintam à vontade é o melhor início para o fomento de ideias. Para mudar o mundo, que tal começar arrumando o próprio escritório?



Compartilhe sua lista, suas idéias e seus feedbacks comigo. Deixe seu comentário e, por favor, clique para recomendar (no💚).

Siga-me no Medium, Instagram e Facebook. E para me contratar ou me indicar a uma vaga, me escreva no Linkedin.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.