4 ur entertainment

Media cerca de 16cm, era rosado e macio. Veias sobressalentes cobriam sua superfície. Passei minhas mãos ao redor e toquei toda sua extensão com os meus dedos. Tateando um pouco mais abaixo, fiz movimentos que o fizeram vibrar. Com mais algumas mexidas, chegou no seu ápice. Poderia continuar com essa energia por horas seguidas. Depois, era só lavar com água e sabão e guardá-lo num canto.

Aos 22 anos nunca tinha tocado num vibrador, muito menos entrado em uma sex shop. Decidi fazer disso uma excursão e visitei algumas sex shops na cidade para descobrir o que encontraria. Do alto ao baixo Augusta, passando pela Consolação com a Paulista e pelo Centro.

Like a virgin

Escolhi o sex shop em neon vermelho na esquina da Paulista com a Consolação para começar. Ele é conhecido na paisagem de quem passa por ali. Para quem vai ao Riviera Bar, logo ao lado, para quem pega ônibus na parada em frente ou para quem desce na estação do metrô. Já é tão costumeiro nesse cenário que seu conteúdo não intimida ou chama mais a atenção dos olhares.

A sex shop tem um nome pouco criativo: Vênus, a deusa do amor. Ao entrar, tocava Madonna, símbolo de libertação sexual nos anos 90. Depois de um “boa noite” meio tímido para quatro atendentes, uma me perguntou se procurava algo específico. Respondi que estava apenas olhando.

Sasha perguntou se eu tinha alguma preferência e se tinha namorado. Ao responder que não, disse que não precisava de um para sentir prazer. Vibradores tomam conta disso e são ótimos companheiros, afirmou. Ela me mostrou algumas opções, dando vida a esses brinquedos com uma ou duas pilhas. Explicou a funcionalidade daqueles que eu não conseguia entender como poderiam ser usados.

O espaço é nada glamouroso, com decoração de fotos de atrizes famosas do cinema seminuas, exibindo decotes ricos e bundas avantajadas. Objetos estão espalhados pelas paredes antigas, há uma estante pequena no meio da loja, um cantinho para provar fantasias e uma poltrona grande preta no centro da sala.

Os produtos vendidos provocam a imaginação de quem entra: atrai alguns e choca outros. A variedade de artigos eróticos é imensa e, claro, tem para todos os gostos, que vão do mais simples, como um dado com posições sexuais desafiadoras, a poltronas com formato de pênis. Há brinquedinhos para todo mundo.

Pênis realísticos de silicone com diversas cores e tamanhos ocupavam duas paredes inteiras da loja, do teto ao chão, tentando reproduzir o órgão com fidelidade. A maioria não vibra, servem apenas para penetração. Vêm em várias larguras, grossuras e formatos, com bolas ou não. Tem uma diversidade de tons de pele e cores mais exóticas como amarelo ou verde, e até os que brilham no escuro. A textura é incrível: são bem macios e maleáveis. Alguns vêm com aroma, mas quando não, o cheiro denuncia que os pênis são sintéticos.

Alguns objetos podem ser usados, além da função erótica, como utensílio de cozinha: pênis de borracha em abridor de garrafa, saca rolhas, facas, garfos e velas de aniversário em formato de vaginas. Têm produtos que escondem sua função: batom e delineador vibrador e laranjas para enfiar o pênis dentro. Para quem gosta de chocolate, há o doce em formato de órgãos genitais com frases engraçadas.

Todos os artigos sexuais vêm com indicações de sexo seguro e recomendações quanto ao uso. Alguns vibradores já vêm com nomes próprios: Edgar, Adam. Outros tentam se vender com slogans engraçados: “curtinho e potente”, e um strap-on para encaixar duas próteses se anunciava como “dupla completa”. As fantasias eróticas também tinham tamanhos plus size. Um dos itens que me chocou, confesso, foram os plugs anais. Chegam a desafiar a anatomia humana, e os tail plugs vêm com rabos peludos — imagina.

Outro que se destacou foi um antebraço de silicone. Sim, para quem curte fisting. E como a própria embalagem alerta: “feito para pessoas ousadas”. Ousar é o que Sasha indica. Ela diz ter quase todos os vibradores que vende. Afirma que ajuda a melhorar a pele e que é possível ter vários tipos de orgasmos com os brinquedos. Cada um tem formatos e funções diferentes: alguns servem para estimular o clitóris, outros para penetração, e o “polvo”, que estimula o clitóris, vagina e ânus ao mesmo tempo.

Alguns vibradores funcionam a pilhas, outros são carregados por cabo USB. Dependendo do uso, podem durar semanas. A maioria permite variar a velocidade, intensidade e tipo de vibração. Minha mão sentia o efeito das vibrações diferentes mesmo após largar o brinquedinho. Entraram outras mulheres na loja. Entraram decididas, uma delas pediu o tamanho G de algo que não vi. Ao ir embora, um dos funcionários se despediu com um “volte sempre”.

Vende-se felicidade

Para a próxima parada, Augusta. Embora a loja de dois andares e janelas grandes na esquina com a Oscar Freire se destaque, a porta de entrada é discreta, só indicando o nome da Lovetoys ao subir um lance de escada. Ela se apresenta com o slogan “a brincadeira começa aqui”, que me arrancou um sorriso de lado ao ler.

Ao subir os degraus senti um cheiro gostoso que vinha do primeiro andar. A loja tem um design bonito e é bem organizada. É discreta, elegante até. Com uma decoração geométrica, nas cores preta e verde-limão, e iluminação que dá destaque a alguns produtos — como as mesas em que ficam expostos os vibradores, carro-chefe de qualquer sex shop.

Assim que entrei, a vendedora me recebeu de forma simpática. A pergunta de praxe era para saber o que procurava ali ou se tinha algo em mente. Fran fez uma apresentação básica de como funciona a loja: de um lado, os produtos de luxo, mais caros e com maior qualidade. No centro, os cosméticos, como óleos para massagem e lubrificantes. Num canto mais discreto, os pênis realísticos de tamanhos exagerados e, num outro, brinquedos voltados para homens. No segundo andar fica a área fetichista, para quem curte couro e S&M.

A área mais gostosa é a dos cosméticos, na qual passei um longo tempo provando de quase todos os produtos à mostra. Tem gel que deixa a pele mais quente ou mais fria, vela beijável, chantilly que borbulha ao toque, perfumes feitos a partir de ferormônios — o hormônio liberado durante a relação sexual — retirado de felinas; todos com cheiros e sensações muito boas.

Os produtos consumíveis usam adoçante na fórmula, e não açúcar — para evitar alergias, inflamações ou até mesmo engordar. A maioria é brasileiro, e existe até mesmo uma linha vegana, feita com flores e raízes afrodisíacas. A maioria dos géis excitantes são voltados para o sexo oral e para ajudar na penetração. Um dos lubrificantes enrijece a musculatura do canal vaginal ou anal e promete a sensação de “ser virgem” novamente.

Fran, que trabalha há poucos meses na loja, disse que gosta de conhecer a intimidade de cada uma para oferecer os produtos que possam atender melhor aos desejos das clientes. É comum aparecerem casais por ali, ela diz. E quando o homem escolhe um brinquedo para a parceira, opta pelos vibradores que têm mais aparência real de um pênis. Já as mulheres preferem os vibradores de cores chamativas e formatos inovadores.

Na área masculina, objetos como anel peniano, que retarda a ejaculação e prolonga a ereção ao prender parte da circulação sanguínea. Capas penianas e bombas que estimulam o músculo a crescer, aumentando a largura do pênis.

A intenção da boutique erótica é o de quebrar tabus e o preconceito de visitar uma sex shop como lugar de quem curte bizarrices no sexo. Muitos produtos são feitos para estimular o prazer de ambos os sexos, e ajudar até mesmo quem tem certas dificuldades com isso. Há um universo de opções criativas para incrementar o momento e tornar a experiência ainda mais orgástica.

Os cosméticos são reutilizáveis e têm preços mais acessíveis, custam em média R$50,00. Os vibradores variam bastante no preço: o mais barato à venda custava R$ 36,00 e o mais caro, R$ 1.800,00. A maioria é feita de silicone cirúrgico, material resistente e confortável, com um toque macio maravilhoso. Alguns itens usam a tecnologia cyber skin, material semelhante ao tecido da nossa pele. Ela é usada nas reproduções de vagina, por exemplo.

Fran ofereceu um tour pela loja, explicando o que cada objeto podia fazer. Ela gosta do seu trabalho e diz que, se ajuda alguém a encontrar mais prazer no sexo — consigo mesma ou com um parceiro –, se sente feliz. Ela acabou de sair de um relacionamento de dois anos e descobriu recentemente o Tinder. Pela localização do trabalho, diz que encontra vários homens que a agradam e se anima com a facilidade e liberdade de conhecer novos caras. Quando lhes perguntam com o que trabalha, ela responde que vende felicidade.

Só não goza quem não quer

Atravessei a Augusta e cheguei ao seu extremo oposto, no número 510. Fiquei surpresa ao perceber que há apenas uma sex shop na parte baixa da rua. Já na minha terceira visita, esperava encontrar alguma novidade, tinha a impressão de ter visto mais do mesmo. Uma vitrine pequena com manequins em roupas de couro e posições sugestivas indicava o Augusta Sex.

Jéssica assistia à novela quando entrei na loja, que recebe muitos visitantes por conta do local estratégico. Uma loja simples, com poucos produtos distribuídos pelas prateleiras e paredes. Uma sala ao fundo revela fantasias sexies e lingeries em promoção. Uma estante exibe DVDs pornográficos. Perguntei se eles costumavam sair bastante, e a vendedora respondeu que foram comprados pouquíssimas vezes, geralmente por caras velhos.

Estavam à venda camisinhas para dedo, calcinhas solúveis, plugs para mamilos, capas de língua para o sexo oral, boneca inflável que geme e óleos com sabor de algodão doce, caipirinha e vinho. Oferecia maior variedade de masturbadores masculinos que as concorrentes, como réplicas de vaginas incorporadas a bundas de silicone em proporções quase reais, com direito a pelos pubianos artificiais.

Pênis em tamanhos, formatos e cores pitorescas já não surpreendiam mais como ao primeiro contato. Um dos produtos me deixou curiosa: um MP3 e vibrador ao mesmo tempo, que se agita de acordo com o ritmo da música. Custa R$ 499,90 e quem escolhe a playlist é você.

Inevitável não pensar o que imaginariam as pessoas ao me ver entrar numa sex shop. Alguns pedestres passavam em grupo em frente ao Augusta Sex e brincavam, desafiavam o amigo a entrar. Um casal de adolescentes entrou apressado e perguntou por um produto. A garota, parecendo meio encabulada, entrou e saiu encarando o chão ao passar por mim.

Jéssica trabalha há um ano na Augusta, onde faz bico a noite, já que em horário comercial é funcionária de outra empresa, maior: uma distribuidora de artigos eróticos que abastece a cidade. Ela trabalha neste mercado há 16 anos. Não se imaginou envolvida com isso, mas hoje conta com orgulho sobre o seu sucesso na carreira. Seu objetivo agora é abrir o próprio negócio em Salvador, onde nasceu. Este mercado é grande e tem movimento intenso, só as pessoas que não veem, diz.

Ela gosta, na verdade, de gastronomia. Adora passar horas na cozinha preparando pratos, e trancou a faculdade de nutrição no último ano, pois precisava trabalhar. Sua rotina é cansativa, diz que chega a trabalhar até 16 horas seguidas. Seu descanso é apenas no domingo, que geralmente prefere passar cuidando da sua casa. Jéssica não gosta de cinema, shopping ou barzinhos.

Foi casada por dez anos, se separou e têm namorado alguns homens. Ela conta que é bem reservada: o atual pretendente quer tentar coisas inusitadas na cama por causa da profissão da namorada. Ela diz que quer esperar mais um tempo para ver no que vai dar. Pela rotina ocupada, quer um homem que não faça joguinhos, porque para isso ela não tem tempo ou paciência.

Jéssica tem 33 anos e é uma mulher vaidosa: se admirava diversas vezes no espelho que ia do chão ao teto enquanto conversávamos. Mostrou os produtos da loja sem pudor, me fez provar géis e óleos para sexo oral. Tinha uma cirurgia para colocar silicone agendada para a semana seguinte, que foi adiada, pois sua mãe ficou doente e precisava dos cuidados da filha.

O trabalho permitiu que ela viajasse pelo Brasil e até mesmo a outros países, diz. Como vendedora, faz a propaganda dos produtos, além de auxiliar algumas lojas a reabastecer seu estoque, arrumar a disposição das prateleiras e oferecer as melhores opções de brinquedos sexuais. Diz que este é um mundo a ser explorado pelas pessoas. Há produtos inovadores que nem imaginamos que existem e o que podem fazer. Com tanta coisa assim, só não goza quem não quer.

Enquanto passava um café aos fundos da loja e colocava alguns biscoitos na boca, Jéssica me contava sobre sua trajetória no mercado erótico, sua vinda para São Paulo, carnaval e amores. Se pudesse, teria ficado horas ouvindo suas histórias. Mas, infelizmente, a loja já estava para fechar.

*os nomes reais das personagens foram alterados.