Só vai

O barulho da máquina de café soava como música para seus ouvidos.

— Bom dia, Elis! Vê aquele expresso, por favor.
 — É pra já.

Era seu quinto mês no café (Ou seria uma padaria? Um boteco? Uma lanchonete?), e não podia estar mais feliz.

— Você viu a delação do deputado Baiacu? Esse Brasil está perdido mesmo… — Pois é — disse Elis para o cliente, concordando, mas por outros motivos.

Gostava de conversar com Seu Onofre, apesar de não se interessar por nada do que ele dizia. Quase cego, o homem gostava de ir diariamente ao café escutar o noticiário da manhã e comentar cada frase dita pelos repórteres. Mesmo assim, era bom ter conversas triviais.

— Hoje é sexta-feira, heim? Dia de jovens se divertirem!
 — Tô tão cansada, Seu Onofre, vou pra casa mesmo.
 — Ooolha, menina, não se tem 20 anos duas vezes na vida!

Coitado do Seu Onofre, estava ficando cego mesmo. Qualquer um que enxergasse bem daria trinta anos para Elis. Tudo bem, melhor assim.

- Ah seu Onofre, já me diverti bastante na vida, está na hora de me aquietar um pouco.

A ânsia de Elis pela cama quentinha não era sem motivos. Depois de tantos dias trocados pela noite e disfarçados de diversão, aprendera a valorizar cada momento consigo mesma, ainda que não tivesse um espaço só seu.

O celular vibra com uma notificação. Ela corre rapidinho até o banheiro, pois não era permitido celular no balcão. Além dos germes, os clientes poderiam reclamar, disse-lhe o gerente em seu primeiro dia de trabalho.

“querida hj as amigas animaram vou lá no largo dançar um forrozinho, quer ir? se não quiser, tem duas panquecas na geladeira, deixei pra vc. passa no mercado e compra detergente e água sanitária ta bjs”

Ufa, Dona Eunice não vai ficar em casa. Não que não gostasse da presença dela, aliás, Elis lhe devia a vida. Ela alugava um quartinho com preço bem abaixo do mercado, e às vezes fazia comida — e comida da boa! Era justa na divisão das contas e gostava de conversar. Mas era tão bom ter um momento no qual podia se iludir de que aquela casa era só sua, que não se sentia tão culpada por aquele pensamento.

“ta bom, se diverte bastante! brigada pelas panquecas ;)”

Aproveitou a ida ao banheiro para retocar a maquiagem e ajeitar o cabelo. Não eram ordens do chefe, mas preferia estar sempre muito bem apresentável, para evitar mal entendidos. Estava se sentindo muito bem, pois o batom era novo. Só uma mulher sabe a alegria de usar um batom novo.

Não era daquelas de guardar coisas novas para usar em ocasiões especiais. Usava assim que tinha vontade, mas isso já lhe trouxe alguns problemas. Uma vez, quando trabalhava em uma loja de surf no shopping de Lambari, há alguns anos atrás, ganhou uma jaqueta dourada de um amiga que não queria mais, e quis usar logo na segunda-feira. Foi repreendida porque a roupa não fazia o estilo da loja, nem era apropriada para ela nem para o dia.

Era uma grande dificuldade pra Elis distinguir o que era apropriado ou não. Desde que se conhece por gente, nunca foi de se comportar apropriadamente, mas nunca fez de propósito. Apenas sente uma dificuldade enorme para perceber padrões, e segui-los não era seu estado natural.

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— Filho, cadê o carrinho que o pai de deu? Já perdeu é?
 — Não pai, está embaixo da cama. É o estacionamento da Lilian.
 — Quem é Lilian? 
— Deixa isso pra lá, Roberto.
 — Quem é Lilian?
 — Ninguém, deve ser coisa da imaginação dele.
 — QUEM É LILIAN? Quem é Lilian, Gustavo? 
— É a boneca que a dona Eunice me deu.
 — Essa mulherzinha louca vai se ver comigo.

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O expediente acabou por volta das vinte e uma horas, bem mais tarde do que imaginava para uma sexta-feira na qual já estava atrás do balcão desde às oito da manhã. Mas Osvaldo se atrasou e ela teve que ficar para receber a mercadoria. Em troca, recebeu 20 reais da gerência para pegar um uber. Pelo menos isso! Enquanto esperava, foi abordada por três carros. Não gostava nada deste tipo de approach, mas dispensou a todos com educação e paciência. Nunca se sabe o dia de amanhã, não é mesmo?

Chegando em casa, tomou banho não tão demorado, ao contrário do que gostaria. Não que estivesse com pressa, mas o chuveiro esquentava apenas nos cinco primeiros minutos, depois ficava fraco e gelado. Tinha que ligar para alguém para ver isso.

Saindo do banho, uma notificação no celular.

“migaaaaaa l’amour hoje? vai ser bapho”
“ai miga, tô muito cansada e amanhã tenho que acordar cedo pra abrir o café. não vai rolar, mas brigada por chamar”
“ui agora que arrumou emprego de gente decente tá negando as origens né vaca? kkkk tudo bem a gente se fala, te amo”

Tinha um carinho especial pela L’Amour. Uma casa de festas noturnas na qual se encontravam todo tipo de gente, LGBT em sua maioria. Travestis, transgêneros, lésbicas, gays, prostitutas, dragqueens, performers etc. Todos com um objetivo em comum: se divertir. Fora lá que conhecera pessoas que entenderam suas aflições não como problemas psicológicos, que tinham histórias parecidas e que lhe deram acesso a informações que Elis nem sabia que existiam. E tudo praticamente de graça porque todo mundo ficava na rua, e quase sempre dividiam a bebida.

- — — — -

— Mãe eu preciso te contar uma coisa 
— Não quero saber
 — Eu preciso falar disso com você
 — Você não precisa nada! Já não bastou fazer seu pai sair de casa? Quer o quê?
 — Mas, mãe, você nem sabe o que eu vou falar!
 — Não quero saber, Gustavo, cala essa boca se você não quiser ir pra rua também.

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O problema de trabalhar com carteira assinada era esse. Depois do expediente não se tem mais energia pra nada. Deve ser por isso que tem tanto vagabundo malandro por aí. Trabalhar não é fácil. Chegar em casa e ficar pensando besteira menos ainda. Elis costumava ter um hobby. Nada muito elaborado, mas pelo menos a fazia esquecer que seu principal talento era incomodar, e passava a acreditar que até podia fazer coisas belas.

Virou para um lado. Virou para o outro. Barriga pra cima. Olho no teto. Droga, queria tanto dormir. Como que chama aquele negócio pra diminuir a ansiedade? Mindfulness? Será que tem yoga de graça na prefeitura? Pegou o celular para pesquisar sobre esses assuntos, mas seu pacote de dados havia acabado e estava demorando 10 minutos para carregar cada página. Não tinha paciência.

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— Mãe, acho que tenho dupla personalidade
 — Para de inventar coisa. 
— Verdade mãe, eu sonho que sou outra pessoa quase todas as noites.
 — Menino continua assim que você vai parar no hospício e não sou eu quem vai te tirar de lá. 
— Será que rola pagar um psicólogo ou… 
— Shiu, estou tentando ver a novela.

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Começou então e olhar as fotos antigas do celular. A memória já estava cheia, mas ela se recusava a apagar aquelas selfies das primeiras maquiagens mais complexas. Já trocara de celular algumas vezes, mas sempre tinha o cuidado de transferir as fotos. Tinha quase quinze anos quando teve coragem de comprar o primeiro batom. Aos vinte cinco já era praticamente uma expert. Só que só no próprio banheiro.

Não ousava contar pra ninguém sobre o hobby. Se seu pai tinha saído de casa porque uma tia havia visto ela com um garoto no terreno baldio a duas quadras de casa, imagina se descobrisse que fazia maquiagens no banheiro. Bom, isso era o que a mãe dizia, mas ela mesma já tinha visto o pai parar na casa de algumas vizinhas, sem descer do carro, e arrancar com velocidade quando elas entravam. Não estava nem aí pra isso, mas sabia que a mãe não ia gostar, então resolveu assumir essa culpa para não fazê-la sofrer mais.

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— O que você tem na cabeça pra aparecer com um rapaz aqui? Ficou louco? Perdeu o respeito? 
— Desculpa, mãe, ficou tarde para ele pegar o ônibus, achei que não tivesse problema, ele é só um amigo…
 — Amigo, sei. Olha aqui, Gustavo, eu não vou aceitar viadagem nessa casa. Da próxima vez, ou sai você ou sai eu.

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Lembra-se até hoje de quando viu a vizinha dona Eunice comentando com sua mãe que tinha algumas roupas, maquiagens e outros itens que sua filha não queria mais. Sua mãe não quis, pois achou que não fosse servir pra ela. Elis juntou coragem e tocou a campainha da vizinha, perguntando se podia olhar as coisas. Ela sorriu e o convidou para entrar. Com a desculpa que era para uma amiga, saiu com as sacolas cheias de vestidos, lenços e bases para o rosto — por sorte, a filha de Dona Eunice tinha a pele cor de caramelo, parecida com a sua. Escondeu tudo no seu quarto e, diariamente, experimentava novas combinações tirava fotos e guardava tudo novamente. Se sua mãe descobrisse que ela ocupava seu tempo com essas coisas em vez de procurar um emprego, sabe-se lá o que poderia acontecer.

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— Filho, tô voltando pra Lambari. 
— Que? Mas mãe eu não posso ir, eu…
 — Não é pra você ir mesmo.
 — Hã? 
— É. Não tem nada pra você lá, as oportunidades são melhores aqui pra gente como você… O aluguel está pago até o final do mês, depois eu não sei. Você já tem vinte e cinco anos…

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Quando sua mãe achou a mala e anunciou que estava indo embora, Elis ficou sem ar. Sabia que a mãe não ia gostar nada de achar os vestidos e maquiagens, mas não achou que isso fosse desencadear em um abandono. Seu pai a abandonara por tão pouco e agora ela o abandonava por muito menos. E como assim “gente como ela”?

Era óbvio que ela não ia conseguir se virar sozinha. Pelo menos não a ponto de bancar o aluguel de uma casa inteira, mais as contas. Viveu quatro meses devendo. No terceiro mês a água e a luz foram cortadas, mas não era tão ruim assim. Dona Eunice ajudava com comida e água, mas Elis ficava com receio de abusar da velhinha, então foi embora.

A esta altura estava se vestindo exclusivamente com as roupas doadas por Dona Eunice e algumas que sua mãe deixou pra trás. Tinha virado uma figura curiosa nas ruas de São Paulo, nem tão feminina para ser mulher, nem tão masculina para ser homem. Meio arrumada, meio desleixada. Um dia, andando pela rua, um carro parou e perguntou se queria carona. Ela não entendeu muito bem e aceitou — melhor, uma condução a menos. Descobriu que o motorista queria sexo oral e estava disposto a pagar por isso. A situação financeira estava tão grave, que ela não achou ruim 20 reais caírem em seu colo de repente. No dia seguinte passou pela mesma rua, na esperança de mais 20 reais.

— Ei fofo, para de se fazer de troxa e sai vazado daqui.
 — Só estou passando… 
— Eu tenho cara de otária? Bichinha inocente não sabe como funciona o esquema, né? Vaza.

Michelle, ariana da cabeça aos pés, resolveu acolher Elis depois do esculacho. Explicou mais ou menos como funcionava e não escondeu o pessimismo quanto aos desejos da nova amiga.

— Lindinho, por aqui não é fácil não e você nem vai poder ficar nessa rua. Vai ter que ir pro lado das travestis. Mas antes vai ter que se arrumar melhorzinho, né amor, colocar uns peitinhos, dar um jeito nesses pelos…

Nem Michelle, nem ninguém ali tinha muita paciência pra quem estava começando e Elis não sabia muito bem se queria colocar seios e tirar os pelos. Não tinha nem dinheiro pra isso. Começou a fazer programa assim mesmo, do jeito que dava. Por não conseguir se arrumar muito nem fazer tratamentos estéticos ganhava muito menos que a media. Além disso, muitos clientes a tratavam mal, pagavam a mais para não usar preservativo, pagavam em drogas ou nem pagavam.

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— Oi, meu filho, quanto tempo
 — Oi, Dona Eunice, nossa, devo estar com uma cara horrível, hehe, a noite foi longa.
 — Tô com uns pães aqui, quer me fazer companhia no café da manhã? Quem sabe não tem umas roupas da minha filha lá em casa e você pode tomar um banho quente.

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Sempre teve uma simpatia especial por Dona Eunice, mas nunca foram muito de conversar. Sua mãe era meio fechada, tinha vergonha dos vizinhos depois da partida do pai. Até desconfiava que este era o motivo real de ter ido embora, e não por causa da mala de roupas doadas por Dona Eunice.

Neste dia do café da manhã, Eunice comentou que tinha um quarto vago, que não fazia nada com ele e que estava disposta a alugar por um preço simbólico. Sentia falta de companhia e não queria colocar qualquer um dentro de casa.

— Pelo menos conheço você desde criança.
 — Não sou mais aquele garotinho, Dona Eunice, agora eu sou a Elis. 
— Acho que você sempre foi Elis, Gustavo, mas de qualquer forma, muito prazer Elis!

Elis nunca mais saiu daquela casa, mas se preocupava muito em não conseguir honrar com o aluguel. Era tão pouco e Dona Eunice nunca cobrava. Mesmo assim, havia mês que não conseguia completar o valor total nem fazer sua parte no mercado. Dona Eunice era uma alma boa, mas a aposentadoria dela uma hora não ia aguentar.

Foi então que, por indicação de Eunice, conseguiu o emprego no café. O dono estava sempre de olho nela, pois já tinha visto ela nas ruas, mas como era muito amigo de Dona Eunice, permitiu que Elis trabalhasse lá e até ensinou ela a tirar aqueles cafés com desenho na espuma. Tinha certeza que, com este conhecimento a mais, se saísse de lá conseguiria emprego em outro café.

Ainda faz alguns bicos nas ruas, pois está guardando dinheiro para fazer uma cirurgia, só não sabe qual. Como a economia ainda vai levar uns bons anos e a fila do SUS é longa, procura não pensar muito nisso, mas todo o dinheiro que ganha fora do expediente vai para a poupança. Pelo menos hoje em dia já se sente mais Elis do que Gustavo, e isso já é um ótimo começo.

“migaaaa, to achando que eu vou hoje heim”
“essa é a Elis que eu conheço! melhor fogo no rabo que você respeita, já estamos aqui gata só vem!”

Só vai, Elis.

Nota da autora: Talvez seja digno de crítica eu escrever sobre uma vivência que eu não tive e tenho pouco contato. Mas antes eu queria dizer que tenho feito exercícios internos para criar empatia e povoar meu imaginário inconsciente com diversidade. Afinal sou uma pessoa branca, hétero, cis e magra e não é natural e espontâneo pra mim imaginar de primeira uma bailarina negra, um príncipe gordo, um médico transgênero. Infelizmente. Por isso diariamente faço exercícios de empatia. E ainda assim, não passo em todos os testes. Imaginar personagens com alma e história é parte destes exercícios. Pois todo autor coloca um pouco de si em cada personagem e foi isso que tentei fazer neste texto.

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