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Serenidade e Revolução

Ontem eu assisti Nise — O Coração da Loucura. O filme é arrebatador por muitos motivos, mas o que mais me chamou a atenção foi o papel da serenidade na revolução.

Este texto NÃO É UMA RESENHA, mas pra falar um pouco da história e deixar você com vontade de assistir, Nise foi uma psiquiatra que foi presa por ser considerada comunista na época de Getúlio Vargas. Quando ela saiu da prisão e voltou a trabalhar, a medicina tinha tomado os rumos do choque elétrico, da lobotomia, da superdosagem de remédios, ou seja, da violência — que tanto vemos por aí em pleno 2016.

Vendo tudo aquilo, ela se recusou a trabalhar desta maneira, e como era mulher e considerada contraventora, foi transferida para administrar a esquecida ala de Terapia Ocupacional, que na época nada mais era do que “botar os doido pra fazer umas costuras e limpar umas privadas”, conforme um funcionário a explicou.

Resumindo, a bicha chegou no lugar e fez uma revolução, apenas por tratar os pacientes (ou clientes, como ela gostava de chamar) como gente. Para mais detalhes, favor assistir ao filme. Agora. Já. Levanta dai carai.

Foto de divulgação

Agora voltando ao tema serenidade, quando comprei o ingresso, pensei que ia assistir a uma Glória Pires interpretando uma Nise pé na porta, senhora destruidora mesmo, desbocada, que peitava todo mundo que aparecesse em seu caminho. Aquela “mulher forte” que estamos acostumadas a admirar, porque sabemos que sem falar mais alto que os outros, não somos ouvidas.

Mas me deparei com uma Nise serena. De observação. De toque. Uma Nise que resumia um baita de um discurso em uma frase e sustentava aquilo com silencio e olhar.

Ela não era aquele furacão de mulher a la Beyonce vento no cabelo. Ela era uma brisa suave, profundamente inspiradora. Que ia se tornando mais forte aos poucos. Um caminho sem volta.

Uma das cenas que mais me ficou marcada foi quando os pacientes estavam descobrindo a sala nova e o enfermeiro entrou em pânico porque não conseguia controla-los. Ele gritava e os puxava pelo braço. Ela olhou bem no fundo dos olhos dele e disse “Cala a boca. Cala essa boca e ouça, e observe. Isso é matéria-prima para o nosso trabalho”.

Não estou dizendo isso porque condeno as lutas que trazem um pouco de violência em seu âmago. Aliás, super sou dessas. Apoio o grito. Tenho consciência que alguns direitos não vão vir por meio da calma e da paciência. Estou dizendo que a serenidade me chamou a atenção porque estou sentindo falta deste tipo de serenidade na minha vida. Cansei de gritar, sabe?

É muita opinião para formular e expressar, muito conteúdo pra produzir, muita coisa sendo extraída de mim e transformada em produto. Produtos vazios, que foram feitos “porque sim”.

Cheguei à conclusão de que a serenidade de Nise era altamente transformadora, porque ela tinha uma coisa que poucos têm: CONVICÇÃO. A batalha da Nise era uma só. E ela não aceitaria nada menos que a revolução. É por isso que a serenidade dela nunca foi submissão, pelo contrário. Foi por meio da serenidade que ela transformou gritaria em ações e que travou uma batalha silenciosa. Uma coisa meio “Não se atreva a fazer isso!” — “Oooops, já fiz, hehe”.

As pessoas bradam, brigam, gritam entre si, mas não veem uma mudança real, porque lá no fundo elas não acreditam no que estão fazendo ou dizendo. E aí a luta fica vazia. É só tiro, porrada e bomba. Mas…por que mesmo?