Não tem problema em mudar de ideia.

Às vezes a gente faz escolhas que não atendem a nossa expectativa e acaba culpando o mundo e os outros pela frustração.

Eu me formei em artes cênicas e mal ouvi um parabéns. Estudei por quatro anos, passei por testes, bancas, nervoso, igual a qualquer outro curso. E vi meus colegas de outros lugares tendo festas de formatura, família emocionada e declarações de orgulho. Eu ganhei umas idas as minhas peças, na qual minha mãe pegou no sono.

A culpa não foi deles, foi da minha expectativa em cima deles.

Eu prestei vestibular e entrei na faculdade porque achava que ter um diploma era mais importante do que primeiro descobrir qual diploma queria ter. Mas, também "não fiz mais do que a minha obrigação". Afinal, a carreira “besta” que eu escolhi não estava dando os frutos de estereótipo (Ué, quando você vai aparecer na globo?) e o curso que eu me apressei a fazer sem ter a mínima certeza do que ser, também não era dos mais promissores (O que faz isso daí?). E no fim eu não podia mais parar porque sentia muita culpa caso o fizesse e vergonha da desistência. Então, cada trabalho não era mais uma satisfação pessoal ou profissional e sim, um alívio de ter conseguido um papel para provar para os outros que os anos de estudos não reconhecidos estavam dando algum resultado financeiro.

E isso acontece com todo mundo mesmo, minha irmã estuda noite e dia e se mata em uma faculdade de medicina para ouvir que é antissocial e não dá importância para a família. Mesmo ela estando no caminho que eles querem (que no caso dela coincidiu com o caminho que ela também quer!). Ou seja, não dá pra ganhar todas.

O tempo passou e eu adquiri auto-conhecimento, me desenvolvi como pessoa e encontrei o meu ponto de equilíbrio. E isso me trouxe uma visão da vida muito diferente da anterior, me deu novos objetivos, novas vontades e um anseio de mudança de posição.

- Besteira, isso é papo de quem tem condições financeiras de viver de sonhos. Já não aprendeu que não é bem assim que a vida caminha?

- Mas isso não são horas de começar de novo, já passou do tempo de se firmar em uma carreira e fazer o seu nome!

- O importante é trabalhar, não importa no que seja, faz algo à distância só pra ter um diploma e se vira.

Poderia continuar com mais afirmações do tipo e várias reviradas de olhos ou indagações (Mas tá difícil de se encontrar no mundo, hein?) sarcásticas que já ouvi. Mas, a conclusão é a seguinte: para criticar, dar opiniões, te colocar pra baixo e te desacreditar, todo mundo está disposto. Porque todo mundo quer impor a sua visão da vida na do próximo sem aceitar que somos seres individuais.

Poucos são aqueles que vão te reforçar positivamente, porque “passar a mão na cabeça cria vagabundos”. Mas existe uma diferença grande entre incentivar e passar vista grossa. Ninguém chega a lugar nenhum sem se esforçar mesmo! Não tem nada de errado em ficar feliz pelas conquistas dos outros e abrir a cabeça para entender suas motivações e desejos. Relaxa, aquela não é a sua vida, você não vai precisar fazer igual!!

Quando o seu filho não souber direito o quê ou como fazer, dê tempo para que ele aprenda e não encha ele de pressão para um resultado que não vai aparecer se ele não estiver pronto para aquilo. Tenta encontrar junto com ele uma solução porque ele é novo nisso e pode estar realmente perdido em saber por onde começar. E mesmo assim pode ser que ele mude de ideia, como eu. Não fique bravo, mudar e falhar não são sinônimos.

A gente anda em tempos diferentes e acredita nele cegamente de forma a menosprezar o tempo do outro. Nada feito com dedicação e honestidade é em vão, seja artesanato ou a direção de uma multinacional. Não existe uma fórmula certa para viver a vida e também não existe um único jeito de ser feliz (mesmo porque felicidade não é um estado contínuo), a única regra é ter bom coração, honestidade e entender que para alcançar nossos objetivos a gente só depende da gente mesmo e ninguém mais pode fazer isso por nós.

Eu acho a empatia uma grande virtude, isso sim. Todo mundo se gaba de ter, mas na hora de se colocar no lugar do outro prefere escolher um lugarzinho superior para se sentir mais seguro em falar com a autoridade de quem tem as respostas do sucesso.

E depois disso tudo fui ali e paguei a minha inscrição para um novo curso de graduação.

- Sério? Mais cinco anos estudando? Você vai aguentar? — Sim.

- E o trabalho como fica? — Fica no período oposto às aulas.

⁃ Mas não era você que dizia que fazia o que amava e tinha paixão? Sim, e ainda amo. Mas agora isso tem sido fruto de ansiedade, estresse e autodepreciação. Eu mudei, e o significado daquela paixão é diferente agora.

- Não faz esse curso, minha mãe fez e ela é louca! — Vou convidar ela para um café.

- Você vai terminar com 30 anos e ter que começar tudo de novo. — Bom, melhor do que passar os próximos 30 anos fazendo qualquer outra coisa e pensando em como seria se eu tivesse feito.

⁃ Que futuro isso vai dar? — Não faço ideia mas estou louca para descobrir.

A sociedade impõe muita coisa, a família mais um pouco e a gente mais ainda se baseando nesse conjunto de regras que criaram para o suposto sucesso. E a gente esquece que sucesso é uma coisa muito relativa e extremamente pessoal.

Ao invés de todas aquelas perguntas, a que deveria ter sido feita era:

⁃ Isso te dá paz? Está feliz com essa escolha?

E no fim, a nossa vida quem vive somos nós e a gente que acaba se envolvendo com os argumentos alheios sem perceber e daqui a pouco está em surto histérico achando que tudo é um grande erro. Não, não e não.

Está autorizado mudar de ideia, começar de novo, se descobrir mais de uma vez. É desumano exigir que alguém decida o que quer fazer para o resto da vida só uma vez e com tanta pouca idade. Assim como os nossos gostos para música, nosso senso de moda, nosso paladar e nossa preferência de cores para toalhas de mesa mudam, nossa visão da vida e aquilo que nos move também pode mudar. E ficar sentado choramingando pelo que poderia ter sido só para provar para os outros que temos total controle e somos estáveis em nossas atitudes não é tão legal assim na prática e é bem menos gostoso do que criar coragem e ir ali explorar um mundo novo e cheio de oportunidades diferentes.

(Fiz esse texto para convencer a mim mesma de que está tudo bem? Fiz. E funcionou.)

Agora vai ali e faz aquilo que você está querendo há tempos e não tem coragem.

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