O primeiro a gente nunca esquece.

O amor é uma coisa engraçada, não acha? É uma certeza cheia de incerteza, uma entrega cheia de insegurança, é quando nós nos permitimos ser cegos e ignorantes, até certo ponto. Não sei, só sei que naquela época tudo para mim parecia certo. O momento, o sentimento, os planos, e claro, ele.

Tudo começou do jeito que eu mais gosto, no maior estilo clichê da vida que a gente não consegue se livrar. Eu estava subindo a rua com a minha irmã para visitarmos uma amiga, após um término de namoro, estava ameaçando se matar e o vi descendo a mesma rua dirigindo uma moto. Sim, que ironia eu encontrar o amor quando uma das minhas melhores amigas tinha acabado de perder o dela. Mas, é a vida não é? Cheia de inícios e fins. Ela não para, é como uma roda gigante sem aquele instrutor que decide quando ela deve parar ou não. É uma roda vida, que insiste em altos e baixos. Afinal, ela precisa deles, senão não seria uma roda gigante. Senão, não seria a vida.

Tá, vamos direto ao ponto. Eu nunca tinha me relacionado com alguém mais velho, nunca tinha nem cogitado a possibilidade de namorar um cara que tivesse cinco anos a mais do que eu, que dirá dez anos! A gente vive repetindo aquela frase de que idade não é documento, o que importa é o sentimento e a felicidade, e ela é real. É real quando estamos apaixonados, como eu estava. Só que não é tão real quando se tem apenas dezesseis anos, como eu tinha. Mas eu não estava preocupada com isso, e ele também parecia não estar.

Como eu disse antes, sou apaixonada por clichês. E em relação a isso tudo, eu tenho mais um para me apegar: o primeiro amor a gente nunca esquece. E olha, não esquece mesmo. Já estou com 22 anos e por mais relacionamentos que eu vá a ter, nenhum nunca vai ter aquela sensação sufocante, excitante e agoniante do primeiro. Porque a gente aprende né? A gente começa a entender como o jogo funciona, e no fim tudo perde a graça. Fica mecânico, e cada vez mais difícil encontrar algo que nos faça sentir novo e inocente, me atrevo a dizer até infantil.

É claro que eu tive meu coração partido por aquele homem de vinte e cinco anos que só se encantou por mim, porque eu era mais nova, e modéstia à parte, também não era de se jogar fora. Mas, eu acredito que ele tenha gostado de mim, um pouco, verdadeiramente. Não da maneira como eu me apaixonei, mas ele me correspondia. E eu me contentava com qualquer migalha que ele jogasse. Um meio sorriso já me fazia ganhar o dia. Como adolescentes são idiotas.

Bom, para resumo de conversa, nós estávamos indo muito bem com o nosso pseudo relacionamento até ele conhecer a Érica. Sabe aquela amiga do coração partido que eu citei no início? Então, ela mesma. Acontece que eu tive a infelicidade de leva-la à uma festa de um dos amigos do Miguel (ah, aliás, esse era o nome dele, esqueci de contar). E como toda pessoa de coração partido, quando se encontra em meio a tanta bebida free, passa dos limites. Eu não tenho paciência para cuidar de gente bêbada, para ser sincera, e aquela cena toda da Érica estava estragando a minha noite com o Miguel. Eu não queria que ele pensasse que eu era imatura e inconsequente como ela. Eu era ainda pior, mas isso não vem ao caso.

No fim, quem se ofereceu para cuidar da Érica, foi o próprio Miguel. o que me deixou bastante surpresa e confesso que mesmo tendo um certo ciúme da atenção que ele estava dando a ela, fiquei aliviada por ele estar lidando com a situação como se nós fizéssemos parte do grupo dele. Sinal de que não tinha estragado tudo. Ele se ofereceu para levar a Érica para casa e me disse que depois voltava para me encontrar. E eu, inocentemente, achei aquilo heroico e incrível e concordei em espera-lo.

Bom, eu não quero tomar muito o seu tempo, então já vou logo para o final da história. Sabe quando eu disse que a vida é uma roda gigante cheia de altos e baixos, de inícios e fins? Pois é. O meu fim foi exatamente ali, no momento em que eu ignorantemente achei que tinha o melhor namorado do mundo. Duas horas depois de ter saído para levar a minha amiga embora, ele me mandou uma mensagem dizendo que aconteceu um imprevisto e não poderia voltar e me levar para casa, mas que tinha pedido ao Bruno (um amigo, pervertido e nojento dele) para me dar uma carona. Uma mensagem? O bruno? Duas horas? Sem nem um mísero pedido de desculpas? Exatamente. E o que eu fiz? Achei que estava tudo bem e aceitei a carona do Bruno, que me rendeu mais de dez minutos tentando sair do carro na porta de casa porque ele insistia em tentar me convencer de que eu não era certa para o Miguel, mas sim, para ele. Credo. Hoje eu teria resolvido aquele imprevisto de forma mais prática. Mas, tudo bem.

Por fim, o Miguel sumiu por uns bons cinco dias e quando tive noticias dele novamente, foi por mensagem de texto, onde ele me contava que tinha se apaixonado, e me pedia perdão por ter demorado a me contar. Disse que estava envergonhado e não queria me decepcionar mas que sabia que eu o entenderia, como sempre entendi. E que eu era madura o suficiente para deixar ele ser feliz.

Ao lado da Érica, aquela vaca. Se eu soubesse antes tinha deixado ela cortar os pulsos naquele primeiro coração partido.

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