Trilha: I’ll Wait And Pray — John Coltrane

Hoje parei pra pensar nos espaços que criei. Você já analisou seus espaços? Há aqueles

que temos por direito e que variam da individualidade de cada um e aqueles que criamos

para nos defender do que não sabemos lidar. Criei tantos espaços que quebrei a tecla do

computador por excesso de uso. Um dia, criando coragem, avaliei meus espaços. Eram

tantos, mas tantos; que não soube por onde começar. Comecei separando os meus por

direito e necessidade dos criados por emoções negativas. No fim, deu no mesmo. Quem

vai dizer o que é um espaço negativo ou positivo? Sendo que cada um serve seu

propósito até que muito bem, no meu caso.

Uma vez deixei de lado meus espaços, e convidei outra pessoa para entrar. Percebi que

não era de todo ruim dividir alguns com alguém. Era até edificante e excitante. E isso

funcionou por muito tempo, até não saber mais o que era meu e o que era dela. Era

nosso. O problema de dividir espaços é esse, se a gente não consegue administrar,

acaba dependendo do espaço do outro pra seguir a vida. E numa dessas eu me peguei

presa a uma dependência parecida com as minhas outras. Ela era parte das minhas

drogas. Ela era um ótimo ansiolítico até se transformar em uma cafeína (estou usando

cafeína porque no meu caso ela causa dor de estômago, tremores, arritmias e paranoias,

quando em excesso). E esse excesso de cafeína também se tornou uma dependência.

Você já passou por uma reabilitação? Não? Eu também não. Mas, sei que existem regras

e passos a seguir para desintoxicar o corpo.

Quando me dei conta de que precisava de reabilitação, tentei seguir os passos;

inutilmente. Porque além de tudo isso, eu descobri alguns porquês dos meus espaços e

que a maioria deles não tinham a mínima ligação a ela, mesmo que ela fizesse parte

deles. Era uma intrusa nos meus espaços. E fui voltando, voltei um ano, dois, dez, mais.

Qualquer outro ser humano um pouco mais equilibrado e racional, dentro do que se pode

ser equilibrado e racional, tomaria algumas atitudes que levassem a extinção dessa

invasão. Mas me perdi tanto nos significados dos espaços que, assim como as drogas

que me apego, preferia ser invadida do que deixada. Não sei se você tem medo de ser

deixada como eu tenho, mas eu tenho. Um paradoxo se for levar em consideração que eu

tenho um apreço imenso por estar sozinha.

Por fim, na marra, chutei a intrusa do meu espaço e tentei lidar com o que sobrou. É como

emagrecer e não caber mais nas calças, o espaço esticou e eu não sabia mais preenchelo.

Não sabia nem com o que preenche-lo. Então comecei a preencher com outros

intrusos. Talvez, um deles me ajudasse a engordar de novo e caber nas calças. Mas a

cada intruso o espaço se alargava mais. E mais. E mais. Foram vários intrusos, e Ainda

são vários intrusos que em momentos de pouca força de vontade, eu atraio para o meu

espaço.

Com o tempo tive outra ideia, ao invés de convidar intrusos, deixei entrar um que estava

batendo na porta, dizendo estar preparado para limpar meus excessos. O problema de

iniciar algo de maneira errada é que depois aquilo não tem volta. Deixei entrar, sentar, se

esticar, absorver, comer, beber; e era bom. Mas nem tudo o que é bom faz bem, e nem

toda decisão é eterna. E muito menos quando diz respeito às emoções. Dessa vez um

sentimento diferente se manifestou, não era uma dependência, não era um medo de ser

deixada, nem um suposto amor pelo intruso. Esse novo intruso era tão instável quanto eu,

se desestabilizava me levando junto e não tinha a intenção de ir embora, nem se eu

pedisse com carinho. Acabei criando um espaço novo, me mudei pra ele e deixei esse

novo intruso no espaço antigo. Ali ele se sentiu sozinho, desamparado, abandonado.

Criou tanta frustração e mágoa que ele tentou invadir o meu espaço novo. Mas agora, já

mais atenta, tranquei a porta. O que causou Ainda mais rebelião. E a cada rebelião, um

descontrole da minha parte por não saber lidar e por estar frustrada comigo mesma por

ter deixado tudo isso acontecer. Por ter usado alguém por razões erradas e ignorado

qualquer que fosse a individualidade dessa pessoa. E aquilo não me trazia culpa, só

frustração. Porque eu não me importava com a rebelião em si, eu me importava que a

rebelião estava direcionada a mim.

EgoIsta demais? Vai saber.

Durante todo esse tempo de espaços grandes e pequenos e intrusos convidados ou não,

havia uma outra pessoa. Ela não bateu na porta. Ela não foi convidada por mim. Ela

estava fora dos meus espaços. E ao mesmo tempo, ela entendia quase todos eles. Ela

era o que eu achava que estava procurando. E eu achei incrível ela não bater na porta,

achei Ainda mais incrível não querer convida-la. Bom, querer não seria a palavra, no caso,

seria poder. A cada degrau que subíamos no nosso conhecimento eu descobria algo que

me fascinava. E a cada degrau eu me deixava levar pela sensação de ter encontrado o

que eu queria. Que não era ela, na verdade. Mas o que ela representava e o que eu

projetava nela. Ignorei que ela também tinha os próprios espaços, e que eu não tinha e

nunca teria acesso a eles. Porque eu estava muito obstinada a inseri-la nos meus. Criei

então uma nova defesa.

Eu não ia mais precisar de espaços, eu tinha agora a resposta das minhas perguntas. Se

eu não conseguisse lidar com um intruso, era porque esse intruso não se comparava a

ela. Pronto, justificado. No fim das contas, ninguém mais era suficiente.

Continuei convidando pessoas, nos momentos de pouca força de vontade. Mas era pela

dor e não pelo prazer. Continuei justificando minha ações culpando uma fantasia criada

em cima de alguém que nem queria ser fantasia de ninguém. Mas funcionou, então pra

mim estava tudo bem.

Presta atenção, isso tudo foi ao mesmo tempo. O fim da primeira intrusa e a rebelião da

segunda. Eu não sei muito bem o que é amor e também não entendo o objetivo da paixão

senão trazer dor. Mas gosto dos dois e gosto se que eles sejam como avalanches. Talvez,

isso também seja um mecanismo de defesa. Credo, a gente vai se conhecendo e nem

sempre o que conhece é gostoso de se conhecer.

O intruso original do meu primeiro espaço criado foi destruidor. Ele não bateu na porta e

muito menos foi convidado. Na verdade, ele chutou a porta e foi quebrando tudo o que

tinha pelo caminho. Ele invadiu não só o meu espaço criado, mas o meu espaço interior.

Ele invadiu meus sentidos, meu físico, meu emocional, meu psicológico. Tudo o que ele

queria ter acesso, ele dava um jeito de conseguir. E por fim, eu fui dele. Como ele quis.

Bom, não tanto quanto ele quis, mas teoricamente não sei se a gente pode pegar um

abuso e dividi-lo em categorias.

Desde então lido com intrusos. Às vezes convido, às vezes deixo do lado de fora pelo

mero prazer de saber que alguém bate à porta freneticamente para conseguir entrar.

Não contei em ordem cronológica porque não achei necessário, fui anti-horária para me

contextualizar, porque na verdade você não vai ler isso, então não preciso me preocupar

em te contextualizar. Seja lá quem você seja.

E se por acaso esse texto chegou na sua mão, foi porque eu finalmente entendi todo esse

processo que descrevi acima. E me senti confortável em compartilhar com alguém como

você, desconhecido, estranho. Não estou te convidando a entrar, mas pode olhar pelo

buraco da fechadura e se você conseguir enxergar algo que eu ainda não enxerguei,

sinta-se a vontade para passar um bilhete por debaixo da porta

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