

Aprendi a ser pro outro
Pois é. E não foi culpa da minha mãe que, apesar de ter largado a faculdade pra viver em função minha e do meu pai, sempre esteve na labuta e me disse pra estudar, trabalhar e ter meu dinheiro pra não depender de homem.
Talvez não seja culpa nem mesmo do meu pai que, apesar de ter sido criado numa família machista e passado essa criação pra mim, também sempre me incentivou a ser dona do meu próprio nariz — ele até me deixou jogar futebol, mesmo que tenha sido depois de anos de frustração no vôlei e chegando em casa roxa das peladas com os meninos da escola.
Não sei de quem foi a culpa além de minha, e não é sobre culpa que eu quero escrever, mas a questão é que aprendi a ser pro outro, e me dar conta disso, depois de 23 anos e muitas sessões de terapia, é dolorido.
Com toda a minha personalidade forte e ideias na cabeça, aprendi que fazer o que eu queria era legal e gratificante, mas tinha o custo muito alto de colocar em cheque a minha aceitação pelos outros. E, de alguma maneira, isso foi ficando entranhado em mim, num círculo vicioso onde agradar os outros era sempre mais importante, necessário e urgente do que agradar a mim mesma.
Aprendi a ser pro outro porque sempre levei umas pauladas quando eu tentei ser pra mim. E o mais triste é que criei mecanismos pra me convencer de que não, tudo bem, era mesmo o que eu queria fazer. Olhando pra trás, vejo como isso é um padrão bizarro, e como evoluiu junto comigo — e com a capacidade de blindar essas constatações por tanto tempo.
Começou em casa, quando a gente (meninas) sempre era escalada pras tarefas diárias nas férias na minha avó: lavar vasilha, enxugar, secar, fazer a cama, e só depois brincar — enquanto os primos ficam na farra jogando bola ou sujando mais coisa quando estávamos acabando de guardar a louça que eles nunca lavaram. Ou nas pescarias, o barco dos homens ia antes, e eu, que sempre amei aquilo, tinha que esperar a próxima chance, porque né, prioridades.
Também foi endêmico na escola, quando falar palavrão era cool e eu, na rodinha de amigos (homens, sempre), fazia questão de repetir os impropérios: já era mulher, já era gorda, já era baixinha, imagina se fosse careta?! Daria uma lista sem-fim de atitudes pró-aceitação que começaram na escola, esse antro maravilhoso onde somos educados pra vida e pra cidadania (sic), mas enfim.
Ensino médio, a gente pula, porque apesar de ter sido uma época maravilhosa em relação ao meu ensino fundamental, tem umas memórias que chegam a doer nos ossos.
E aí a faculdade. Esse lugar maravilhoso, fazendo um curso que nunca me interessou, no qual nunca acreditei, onde entrei por “orientação familiar” pra poder ter mais chances de sobreviver no mundo magnífico do mercado. Na faculdade, comecei a beber cerveja sem gostar. A andar com gente que nunca me acrescentou. A transar porque era o que se esperava de uma “mulher” adulta como eu, no auge da vida universitária.
E, de lá pra cá, mantive alguns desses hábitos nocivos, especialmente relacionados à minha sexualidade. Que é a ponte desse texto e dessa discussão com o feminismo. A necessidade de agradar o outro pode ser vista como um mal sem gênero, mas a verdade é que poucas vezes na minha experiência eu vi homens na posição em que eu e diversas amigas nos encontramos ao longo da vida — principalmente falando de sexo.
Meus pais não me criaram diretamente pra ser mãe, mas também não fui criada pra ser eu. Pra ser mulher empoderada e dona do nariz de verdade. Cresci ouvindo que homem e mulher é diferente e sempre vai ser, que tem coisa que não é de mulher, e assim por diante. Por um lado, entendo: meus pais não tinham acesso a isso, e a gente não pode dar aquilo que não tem. Lembro no meu terceiro ano do ensino médio, quando eu beijei três carinhas no mesmo mês, e a reação do meu pai a isso foi a afirmação de que se eu queria ser puta, que pelo menos esperasse meus dezoito anos. Se eu fosse homem, tenho certeza absoluta que o único questionamento a isso seria: e aí, filhão, comeu?
A ideia de transar por transar com uma pessoa qualquer é uma heresia sem tamanho na minha família onde, felizmente, continuo sendo a ovelha negra. MEUDEUSCOMOASSIMNATHÁLIA, você fala “dar”!!!1! Enfim. Não é minha intenção apontar o dedo pra ninguém, mas essas coisas são sistêmicas e aos poucos fazem a gente perceber que isso vem sim de algum lugar.
A culpa, aquela que eu deixei de lado no começo do texto, tem nome e sobrenome: CULTURA MACHISTA, em evidência como os pintos e rolas que aparentemente são os objetos em torno do qual gravita nossa vida e que evidentemente nos faltam quando questionamos alguma coisa.
Se tenho um amigo que é virgem, e ele se sente mal com isso porque os amigos dele não dão paz e o fazem se sentir menor e menos homem que os outros, isso é sim culpa do machismo, que evidencia a ideia de que o sexo e só o sexo te valida como pessoa e indivíduo passível de ser ouvido em um meio.
Se eu já transei com mais pessoas do que realmente quis pra provar “pra mim” que sou adulta, moderna e liberta, isso é resquício de uma cultura onde eu preciso de autoafirmação o tempo todo. Se nessas tantas vezes eu nunca gozei (sic²³), tem alguma coisa muito errada na forma com que eu (e imagino que tantas outras mulheres) encaro meu corpo e a necessidade eterna de agradar o outro (homem) acima de tudo.
Se converso com amigas sobre a genial invenção do copinho menstrual e minha curiosidade de usar essa maravilhosa tecnologia, e a primeira reação que tenho por parte delas é de nojo com a ideia de lidar com a própria vagina e menstruação (???????????), tem alguma coisa muito errada.
Se falar de punheta é normal mas numa roda as pessoas nem sabem o que siririca significa, e se a gente aprende a bater punheta prum cara antes de saber o que é e como funciona o mundo mágico do clítoris, tem alguma coisa muito, muito, muito errada.
Se um cara é babaca e a primeira coisa que eu penso é que a culpa é minha porque (insira aqui um motivo) sou gorda, tá errado. Se consigo transar com uma pessoa mas não consigo me olhar no espelho pelada, tá errado. Se consigo falar de sexo mas não consigo falar com minhas amigas sobre meu peso, meus problemas e minhas dúvidas, tá tudo fora de lugar!
Se eu fui criada ouvindo homem falar de sexo mas eu não posso falar, não posso ter dúvida, não posso fazer, não posso discutir ou escrever sobre isso — só posso se for falando putaria numa roda de amigos, estando ou não confortável com isso, mas questionar não pode nunca— estamos vivendo num ritmo que não faz mais sentido pra mim. E graças a Deus, porque se eu penso que um dia já fez, é bizarro!
Eu aprendi a ser pro outro porque é isso que a gente aprende todo dia, em um sem fim de esferas dessa vida. E estou reaprendendo a ser pra mim, o que não é fácil depois de ser criada pra servir, pra dar, pra criar filho, pra lavar vasilha e pra achar que é normal ser considerado menor e menos capaz por ter nascido com uma vagina no meio das pernas.
Vendo todas as mulheres que tem se levantado pelos direitos e pela liberdade de vida daquelas que não conseguem compreender a necessidade disso, eu agradeço todos os dias pelo estudo, pelo empoderamento e pela desconstrução que o feminismo me traz.
São muitas as lutas que eu ainda desconheço, e muitos preconceitos que preciso quebrar em mim, mas apesar de dolorida, tem sido uma escola gratificante. Apaixonada pelo conceito da empatia como eu sou, ter a oportunidade de praticá-la comigo e com muitas pessoas que eu nunca imaginei que precisassem dela tem sido uma dádiva enorme. E é por todas as pessoas que não tem a possibilidade de entrar em contato com isso que eu espero que a gente não se cale.
No #AgoraÉQueSãoElas, homens cedem seus espaços em plataformas de mídia para mulheres escreverem sobre elas, sobre nós, sobre uma luta que é muito maior que a gente. Inspirada por muita coisa que eu li, resolvi abrir pra mim mesma um espaço pra poder repensar meu próprio corpo, minha vida sexual e tudo que engloba esse universo esquisito. Que continue.