Quando o canudo não basta

Desde que estava prestes a terminar a faculdade, em dezembro de 2013, uma ideia me atormenta: “preciso arrumar um emprego”. No último semestre da graduação tudo o que você quer é se livrar da monografia e agarrar o canudo. Ao lado disso, para quem não está estagiando, tem o pânico que cresce mês após mês ao ver que não dá mais tempo de arrumar estágio e é inviável conseguir emprego por ainda não ser formado.

Depois que você conclui o curso a pressão só aumenta. Ainda mais quando se olha para a quantidade de recém-formados na mesma situação que a sua. No caso de jornalismo o cenário é especialmente alarmante: é muita demanda e pouca oferta de emprego. E aí restam algumas opções: estudar para concurso, desistir da profissão e debandar para outra área, panfletar o currículo e cruzar os dedos para ser chamado para alguma vaga, investir em mais estudo ou começar seu próprio projeto na área.

Encontrei, no site da Universia, uma lista com 5 dicas para recém-formados. Não sei quem fez a lista, mas ela não é nada reconfortante. Decidi comentar algumas passagens dessas dicas acordo com a realidade de quem vive essa situação.

Dica 1 — Tenha um perfil online profissional: “(…)é interessante que você invista em redes sociais como LinkedIn e cultive uma rede de contatos profissionais online (…)” Rede de contatos aka network é mesmo tudo na vida de um desempregado. Vale investir nisso. Foi assim que consegui freelas e a maioria dos empregos que tive. Mas agora… quem já arrumou emprego pelo Linkedin? Você conhece alguém que já tenha pelo menos sido chamado para um processo seletivo por causa do perfil nesse site?

Dica 2 — Especialize-se: “Converse com profissionais experientes e experts na sua área de interesse, estude línguas e faça cursos.” Ninguém duvida que investir na própria capacitação é fundamental, mas existe um detalhe nessa história: tirando alguns cursos online gratuitos (para os jornalistas indico os MOOCs do Knight Center), estudar custa dinheiro. E não é pouco. E aí, quando se pode contar com o apoio financeiro da família é ótimo, mas quando não, fazer cursos se torna uma tarefa um tanto quanto complicada.

Dica 3 — Vá a todas as entrevistas — “Mesmo que a vaga não seja do seu interesse, é interessante que você vá a todas as entrevistas que te chamarem. Dessa forma, você irá aprender a controlar a ansiedade, enfrentar vários tipos de recrutadores e saberá lidar com as mais diversas perguntas”. Não sei até que ponto isso é válido. Ir a entrevistas passa a mensagem de que você tem interesse na vaga. Quem vai está arriscado a ser aprovado, e aí, depois de recrutado dizer que não tem interesse na contratação fica muito chato. Por experiência própria: evite mandar currículo para vagas de cargos que não te atraem. Melhor nem concorrer do que ter que dispensar a empresa lá na frente. É difícil fazer isso quando se está desesperado por grana e/ou experiência. Mas se você tiver como segurar a onda, esse é meu conselho.

Dica 4 — Esteja atualizado — “(…)é importante que você esteja sempre pesquisando as novidades e tendências dentro do mercado de trabalho. Conecte-se com pessoas que já estejam dentro da sua área de estudo e fique atento a todas as demandas” É isso. Ocupe os espaços. Vá a conferências, workshops (existem muitos de graça), participe de grupos de discussão no Facebook, acompanhe os sites de referência na sua área.

Dica 5 — Considere empregos fora da sua área — “(…)pode ser interessante trabalhar durante alguns meses em um emprego fora da sua área para adquirir experiência. Independentemente da área, em qualquer emprego você aprende a ter responsabilidade, maturidade e profissionalismo (…)” Conheço muitas pessoas que foram por esse caminho e não julgo quem faz essa escolha, afinal, cada um sabe onde seu calo aperta. Acho válido como última alternativa. Não dá para ficar anos a fio insistindo sem ter resultados, até porque a idade chega e o mercado é cruel em relação a isso. Mas se você é da turma dos cabeça-dura essa opção é extremamente frustrante e pode levar à depressão. Não é nada fácil virar as costas para sua profissão e ver que tanto esforço empreendido na faculdade não teve retorno.

O que me surpreende na última dica e nessa lista em geral, é que não é citado em momento algum a alternativa de a própria pessoa fazer as coisas acontecerem. Dependendo da profissão é realmente complicado, mas nunca impossível. No caso do jornalismo, se o emprego não vem, por que não criar seu próprio site ou blog (gratuito!) para tratar de um tema do seu interesse? Mesmo que não dê retorno financeiro imediato, um projeto independente pode chamar a atenção de um recrutador e, de qualquer forma, irá aprimorar a prática do profissional. É nisso que acredito e espero que dê certo para mim e para quem também estiver nessa luta.

*Publicado também em Coletivismo

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Originally published at acomunicadora.wordpress.com on May 4, 2014.

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