Dor.

“Ao passar por um momento de sofrimento, como você se comporta em relação a ele?
Já percebeu que tentamos superar a dor instantaneamente? Fazer o que for preciso pra tentar sanar aquele buraco? Temos um bloqueio quando pensamos em encarar o desconfortável. Mas encarar mesmo, de frente. Seja a dor física, no coração ou aquela que dói na alma, a dor e o que ela significa, assim como a maneira que podemos encará-la, ainda é um tabu gigante em nossa sociedade.

Ninguém discute o outro lado do sofrimento, da dor, sentimentos desagradáveis e desconfortáveis… O que é discutido (principalmente na mídia) são os remédios pra te “curar”, os livros e revistas de autoajuda pra você logo sair da zona de tristeza, os potes de sorvete que podem te ajudar a ganhar prazer momentâneo, ou os infinitos meios de entretenimento pra você parar de se sentir infeliz.

Pois bem, amigos, hoje venho na missão de lhes fazer pensar diferente sobre como enxergar o sofrimento. Peço que leia de coração aberto e honesto e veja, se em algum momento, você se identifica (tenho certeza que sim!).

Todos nós temos nossos momentos de dor. Não vou aqui comparar “dor de primeiro mundo” com “dores do terceiro mundo” porque não quero discutir desigualdade. Pelo contrário, quero discutir uma unidade que todos, cada um do seu jeito, temos: sofrimento. O sofrimento tem várias faces, vários níveis e pode aparecer em qualquer ocasião. Se você sofre, não quer necessariamente dizer que você tenha depressão, ansiedade ou bipolaridade — todos doem de alguma forma. Dor é parte de estar vivo. É natureza humana, nua e crua. Temos tanta mania de achar que tudo deve ser feliz o tempo todo, que negamos a nossa completa natureza de dualidade, de fases, extro, intro, alegrias e tristezas.

Todos os tipos de sofrimentos, todos, vêm da inconsciência em relação a nossa própria natureza divina, da nossa percepção de divisão, de se estar separado de tudo que há. A dor vem dos muros que construímos em nosso coração e personalidade para ficar na defensiva de algo que nem sabemos exatamente o que é, e não buscamos compreender. A dor vem da perda da nossa habilidade nata de se unir, e amar a nós mesmos e ao próximo como nosso igual, todos os seres aqui presentes. O sofrimento surge na tentativa de ignorar tudo que acontece aí dentro de você — conflitos, julgamentos, medos, desequilíbrio. A doença nada mais é que o desequilíbrio de algo.

A dor é inevitável e possui muita beleza em sua profundidade, e mesmo que todos nós estejamos quebrados em algum aspecto, tentamos disfarçar, superar logo, passar por cima e correr como se fosse um mal em nossas vidas.

Por favor, aceite sua dor — a ENCARE, converse com ela. Seu corpo te dá sinais, seu coração está querendo te falar, sua mente buscando te contar — e ao invés de simplesmente prestar atenção em nosso universo interior, que é aonde essa dor está apitando, buscamos por cura lá fora: remédios, baladas, distrações, comidas — e normalmente sem moderação, pois estamos como em um loop inconsciente buscando por cura, aonde não há cura. E depois que todos essas “promessas” de remediação totalmente temporárias acabam e o efeito termina, o sofrimento começa a surgir novamente. Porque? Simples, você o ignorou. Fale com sua dor, cave fundo, pode ser algo do passado, presente, algum conflito mal resolvido — todos os tipos de dor têm sua origem em algum fator sobre o qual não estamos conscientes. Por isso é vital para nosso crescimento e evolução que tragamos luz à escuridão, consciência à dor — esteja a par do que se passa no seu próprio universo. Isso é muito importante, tanto quanto dedicar o tempo necessário para que sua cura aconteça de forma saudável e orgânica. Assim como os momentos felizes, a dor também vem e vai embora, e esse será o ciclo enquanto você estiver nesse corpo! O segredo é estar consciente da causa de suas feridas e aprender com elas, assim sempre em constante evolução na sua jornada.

Fiz esse esquema pra ilustrar exemplos de como, muitas vezes, a mente (que nunca quer estar fora da zona de conforto) busca encontrar uma forma imediata de fugir da dor, ao invés de ir em direção a ela.

  • Estímulos momentâneos: Não me entendam mal, não estou dizendo que quando você vai numa festa, ou muito menos quando faz sexo, é porque está sofrendo de alguma maneira. Eu mesma amo sair com meus amigos! Mas esses são estímulos de satisfação imediata, que nos fazem sentir bem e confiante, então muitas vezes são escapatórias fáceis de um conflito que pode estar enraizado e incompreendido. Coloco nessa lista até mesmo o excesso de fotos e exposição nas redes sociais como uma forma de se sentir imediatamente querido(a) e “liked”. Já parou pra refletir que, se você abusa demais de festas, baladas e ainda mais de sexo com parceiros diferentes, é porque pode ter algum desequilíbrio de afeto, carência ou insegurança aí dentro esperando pra ser escutado? Todo abuso de algum estímulo, é sintoma de uma falta.
  • Vingança: A vingança imediata a alguém que te causou uma ferida pode parecer, no primeiro momento, uma ótima maneira de sanar essa dor e parecer que foi “olho por olho” e está justo. Acontece que, quando você devolve uma ação má intencionada a quem te machucou, não apenas você não deu tempo de curar e perdoar o episódio, como ainda causou mais angústia a você mesmo — porque tudo que sai de você, volta pra você, seja a vingança ou o amor. Por isso, deixe que a lei da ação e reação perfeita do Universo ensine àquele que não te fez bem, e tenha o controle das suas ações: Perdoe! E entenda que só machuca o outro quem está machucado por dentro.
  • Silêncio/Retração: Como eu amo o silêncio! Mesmo! Uma das melhores coisas na minha vida. Mas, o relacionando à dor, muitas vezes o silêncio, a retração e a introspecção vêm como maneiras de se fechar e fugir de um conflito. Para não ter que encará-lo, simplesmente fingimos que ele não existe, mesmo que ele esteja ali esperando pra te ensinar uma lição importante. Ficar em silêncio e na defensiva quanto a um sofrimento, normalmente acontece com dores mais profundas e intensas, e requer maturidade e coragem da pessoa pra voltar àquele conflito e o encarar, compreender. Atenção: quando digo “ficar em silêncio” pra fugir da dor, não é pra solucionar gritando pro mundo seus problemas, mas é pôr para fora, conversar com alguém querido, ou até com você mesmo… é simplesmente trazer luz, à tona, enfrentar.
  • Alucinógenos e Remédios: Exatamente como os estímulos, as substâncias que tomamos para que a dor termine nos servem apenas como escapatórias momentâneas. Seja dor física ou emocional, quem gosta de ficar ali sofrendo? Porque não tomar um monte de Tylenol, ou anti-depressivo, ou beber de montão, usar drogas? Porque, por mais “divertido” que pareça ser, entenda que você está buscando solução fora de algo que está dentro. E os sintomas voltarão a aparecer até que o real problema seja sanado.
  • Comida: Muitas pessoas sofrem de distúrbios alimentares e inúmeras doenças relacionadas à alimentação por alguma descompensação emocional. Comer é realmente bom, óbvio! E isso pode até soar cômico pra quem não sofre disso, mas você sempre se volta à comida como uma solução de prazer momentâneo? Já pensou que esse excesso está tentando tapar um buraco mais fundo? Inseguranças, falta de direcionamento, insatisfação com algum aspecto da sua vida… Podem ser inúmeros fatores, e só quem pode saber é você: se olhar pra dentro.

Quando sentir dor, foca nessa dor, entrega sua presença e atenção pra ela, encara e diz: E aí? Eu sei que dói, mas fica ali um tempinho, nutre esse sentimento, entende o que ele está buscando te dizer. Às vezes, a dor física entrega um sintoma mais fácil de entender, como por exemplo: exaustão, cansaço, fadiga. Já a dor do coração, da alma, costumam dar as caras na nossa relação com nós mesmos e com os outros. A dor emocional é mais profunda e requer mais atenção da nossa parte, requer construir um relacionamento com aquela parte de nós que ignoramos por um tempo sem coragem de encarar. Volta, encara, cresce com isso. Você vai quebrar mais algumas vezes na vida, por diversos motivos, mas pelo menos essa pequena ponte que você encarou (e não evitou) você aprendeu, e reconstruiu. E nas outras dores, será igual. Quebrando e reconstruindo — se você se dedicar a olhar e entender esse sofrimento dentro, e não fora de você. É um processo. E esse processo tem um resultado lindo: resiliência.

Nessa jornada de aprendizado, quanto mais experiência você tiver, depois de pouco a pouco se dedicar a reconstruir seus pedacinhos, mais e mais beleza ganha sua alma. Porque? Porque com cada sofrimento, você foi ganhando mais conhecimento de si mesmo, foi ganhando mais profundidade de seu ser. E quanto mais profundo você se permite ser, mais luz entra. Faz sentido? Quanto maior o buraco, mais espaço pra luz preencher.

Por isso que a verdadeira beleza vem daí, de dentro. De dentro pra fora. A cura necessariamente acontece do indivíduo pra sociedade, do microcosmos pro macro. Enquanto ignorarmos as causas de nossos conflitos, estaremos continuamente machucando a nós mesmos e consequentemente ao próximo. Por isso você, que consegue compreender esse fator, tenha compaixão por aquela pessoa que ainda está trabalhando seu processo de cura. Perdoe, respeite, ajude. Aprenda que nada é pra sempre. Nessa dança cósmica da vida, tudo vem e tudo vai, tudo passa!”

Por: Giulia Alencar

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