O que eu aprendi vendo o Eike batista ser preso

Vendo além da cela especial

Ilustração de Andrew Fairclough

Na sala de espera de uma consulta médica, uma moça com pouco mais de três primaveras me abordou para uma simpática conversa no intuito de passar o tempo rapidamente. Ela logo falou sobre o assunto do momento: Eike Batista.

- Você viu as pessoas em NY querendo tirar foto com o Eike Batista?

- Não vi.

De fato, ainda não tinha olhado os noticiários naquele dia.

- Pois é, ele não tem ensino superior, vai para o presídio de Água Santa. Estou com pena dele, imagina ele naquela prisão, sem nem conseguir cuidar do cabelo, que parece aplique?

Respirei, e disse:

- É verdade.

Então ela foi chamada para entrar na sala da médica.

Após o acontecido eu fiquei me perguntando o motivo pelo qual as pessoas sentem pena do cara que era um dos dez mais ricos do mundo, com acesso a tudo o que quisesse, que não tem curso superior simplesmente porquê não quis e virou bandido por escolha própria.

Por qual razão as pessoas não se comovem com um bandido pessoa que não tem acesso à informação, aos direitos básicos que um cidadão deveria ter, tendo em vista que isso influencia diretamente no que ele vai se tornar futuramente?!

Nas discussões de Facebook já li “mas dinheiro dá pra devolver, ele não matou ninguém, é diferente. ” Será que é tão diferente assim?

O governo desvia dinheiro dos cofres públicos. Eike foi conivente em parte desses desvios e deu dinheiro para o governador. O Estado do Rio está quebrado, não tem dinheiro para pagar os professores, policiais, merenda escolar, etc. O menino que está na zona norte, brinca de futebol na rua, vai pra escola e não aprende direito (porquê o professor não está recebendo, faz greve, ou apenas não está mais com a mesma paixão ao ensinar, ao ver o quanto é desvalorizado no país). Na escola não tem merenda, e nem na casa dele. A rua onde ele mora, é dominada pela milícia, os policiais corruptos, sabe? Afinal, eles não recebem salário, e essa é uma brecha pra ganhar dinheiro. Lá eles coíbem, extorquem, matam. O menino aprende que estudar não é tanta coisa assim, e que a polícia é má. Então qual caminho é mais fácil para ele seguir? O do bandido dono do morro, que protege todo mundo e cede uma botija de gás pra mãe dele quando precisam, ou o policial que bate e fere a vizinhança?

Sanada (?) essa dúvida, vamos para outra. A reforma do ensino médio.

Dar autonomia para um jovem de quinze anos escolher quais são as prioridades dele para aprendizado na escola realmente é uma boa ideia? Imagine só, o exemplo acima citado, se esse rapaz vai querer estudar história, por exemplo. De acordo com o IBGE (Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2014.), as pessoas com 25 anos ou mais, somam 11,7% sem instrução, ou com apenas 1 ano na escola. 22,3 % passaram de 4 a 7 anos na escola. E apenas 12,4%, 15 anos ou mais de estudo.

Uma sociedade com uma minoria que tem oportunidades e educação, se torna uma sociedade alienada, onde o governo controla uma massa e não indivíduos capazes de pensar e contestar qualquer coisa que seja proposta (vide HORKHEIMER, M., e ADORNO, T. W., Dialética do Esclarecimento e ORWEL, G. 1984).

De acordo com Paulo Freire — primeiro a utilizar a palavra empoderamento, do inglês empowerment, em seu sentido transformador — a pessoa, grupo ou instituição empoderada é aquela que realiza, por si mesma, as mudanças e ações que a levam a evoluir e se fortalecer. No entanto, sem a oportunidade de conhecimento e acesso à informação de que maneira o indivíduo poderá empoderar a si mesmo?

“Implica, essencialmente, a obtenção de informações adequadas, um processo de reflexão e tomada de consciência quanto a sua condição atual, uma clara formulação das mudanças desejadas e da condição a ser construída. A estas variáveis, deve somar-se uma mudança de atitude que impulsione a pessoa, grupo ou instituição para a ação prática, metódica e sistemática, no sentido dos objetivos e metas traçadas, abandonando-se a antiga postura meramente reativa ou receptiva”
Foto: www.researchgate.net
Se é possível obter água cavando o chão,
se é possível enfeitar a casa,
se é possível crer desta ou daquela forma,
se é possível nos defender do frio ou do calor,
se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens,
se é possível mudar o mundo que não fizemos, o da natureza,
por que não mudar o mundo que fazemos, o da cultura, o da história, o da política?
(Paulo Freire)

Fica a reflexão.

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