Sobre ser negra

O dia em que eu tomei a consciência de que tudo o que eu vivo é muito próximo daquilo que eu leio. Falar sobre sociedade e racismo hoje em dia se tornou algo bastante comum para as pessoas, apesar de não ser uma questão compreendida por todos, no entanto, hoje foi o dia em que eu me dei conta de que fui a única negra a pegar um canudo do meu curso no dia da formatura. Fora eu, consegui contar mais três. Qual o impacto disso? Quatro mulheres, negras, que conseguem concluir o ensino superior no meio de um mar de brancos, privilegiados ou não por classe social ou tom de pele?

Parando para pensar nisso eu comecei a avaliar a minha volta, meus professores, chefes, as pessoas que eu já trabalhei, e NÃO HÁ MUITOS NEGROS em posição de poder ou classe alta. Isso é um reflexo de toda a história da escravidão? Certamente, mas eu prefiro não pontuar, porque não sou historiadora.

Só que assusta.

Me recordo de uma vez, quando eu tinha uns dezoito anos e fui fazer uma entrevista de emprego. Cheguei, sentei, e o entrevistador — que eu já nem me lembro as feições — me perguntou sobre minha pouca experiência anterior, e comentou que “não me imaginava assim, por conta do meu currículo”. Eu, jovem, inocente, não captei muito bem o que ele quis dizer, mas ao final ele me esclareceu: “para uma negra, eu tinha até bastante estudo”.

O preconceito e os reflexos da sociedade infelizmente ainda caminham até hoje, e isso precisa sim ser modificado através da educação. Conhecimento rompe fronteiras.

Aliás, a história dos negros não começa com a escravidão, mas ensinar a história a partir daí mantém a posição de superior/inferior que se perpetua até os dias de hoje. Então porque não contar a história da humanidade começando pela África, que foi o berço de toda ela?

Eu certamente estou bem longe de ser uma pessoa com muita bagagem, viagens acumuladas, ou muito estudo (eu ainda tenho muito o que caminhar), mas sem dúvidas, acho engraçado quando as pessoas se surpreendem pelo quanto eu sei (por ler bastante sobre tudo), por ter os hábitos de ler livros ou não gostar de pagode, funk e sertanejo — não por preconceito, mas por ter sido acostumada a ouvir rock desde criança. Sendo assim, algumas pessoas ainda se surpreendem e comentam “Nossa, você não samba? Não gosta de pagode? ”, com cara de surpresa.

Nós realmente precisamos mudar essa realidade chocante, e a internet pode e deve ser um meio para viabilizar isso.

Que tal criarmos uma corrente? Participo de grupos de feminismo e feminismo negro, mas gostaria de ter isso mais próximo. Quem aí se interessa?