Desculpe-nos pelo transtorno

Eu não consigo me lembrar quando tudo começou. Talvez eu já tenha nascido assim, porque aos cinco anos eu discutia com uma amiga imaginária que me atormentava dia e noite apontando todos os defeitos da minha lição de casa. Se todas as crianças são assim eu não sei, mas posso dizer que eu já nessa idade não conseguia viver em paz.

Por não conhecer uma outra Nathalia que não essa aqui, que há mais ou menos 27 anos tem compulsões, ansiedade crônica e crises de pânico, começar um tratamento foi tanto animador quanto assustador. Por um lado eu finalmente poderia viver livre de todos os sintomas paralisantes do Transtorno de Ansiedade Generalizada. As coisas ruins da minha cabeça não me dariam mais urticárias nem me fariam vomitar. Eu, muito em breve, não precisaria mais correr para um banheiro ou para a rua, no meio de encontros e conversas, só para tentar puxar o ar para dentro dos pulmões e voltar a respirar. Eu estaria livre de mim mesma e dessa redoma sufocante que eu criei.

Mas, ao mesmo tempo, eu senti um medo imenso do vazio. Porque eu não tinha ideia — e ainda não tenho — do que sobra de mim quando tudo isso sai. Se eu não me preocupar demais, se eu não enlouquecer com tudo isso que me enlouquece, se eu não tiver todos esses medos, então como eu vou ser e o que eu vou ter? Existe alguém lá atrás que todas essas coisas estão escondendo, ou eu sou só tudo isso e mais nada além?

Três coisas me fizeram procurar ajuda: um relacionamento arrastado que eu não conseguia por um fim porque achava que o Universo ia me punir; um boato de corte de funcionários na empresa em que trabalhava; a dificuldade de andar pela rua. Na minha cabeça, todo mundo que passava por mim me olhava e enxergava coisas horríveis. Era como se tudo de pior que eu já fiz na vida estivesse estampado na minha cara pro mundo me julgar. Eu me sentia a Geni do shopping, da padaria, do metrô. E eu não queria sentir isso, mas eu não conseguia evitar. A solução mais óbvia foi não sair mais de casa.

Para quem convive comigo eu sinceramente prefiro não saber como sou. Se eu pareço retraída, se eu furo demais quando tentamos marcar de sair, se eu sou de lua. Melhor não saber como tudo isso parece por fora porque já basta a crítica que vem de dentro.

Ter Transtorno de Ansiedade Generalizada é diferente para cada um, então eu só posso dizer que, para mim, é repassar diálogos banais muitas vezes na hora de dormir, procurando as merdas que você deve ter falado; é se sentir deslocada em todos os grupos mais acolhedores por achar que não merece tanta bondade; é achar que está sempre em débito com todo mundo, e acreditar que a formiga que você matou na cozinha hoje de manhã ia ser usada em um experimento para descobrir a cura da AIDS e você simplesmente arruinou toda a humanidade, porque você é assim mesmo, uma babaca.

Não tem graça nenhuma. É como se uma lupa muito potente ficasse sobre todos os acontecimentos. No fim do dia você fica esgotado como se tivesse corrido uma maratona porque a sua cabeça cansa de verdade.

Já são dois anos e meio de psicanálise. Eu optei por não tomar remédios, mas faço três sessões por semana. De vez em quando tomo florais para segurar a onda. E ainda acho difícil quando volto cinco casas no jogo da vida e tenho homéricas recaídas. Quando passa não consigo me perdoar.

Mas é um trabalho constante de construção, e fica melhor quando você avança e começa a gostar daquela pessoa que habita o seu corpo mas vive escondida atrás desses muros de sintomas de um transtorno. É como estar na Sé às 6 da tarde tentando ouvir um radinho de pilha. Seu eu verdadeiro é esse radinho chiado e baixinho, mas que conforme o tratamento avança, fica mais alto e abafa todo o tumulto ao redor.

Eu realmente não curto expor o Transtorno de Ansiedade Generalizada porque não quero que as pessoas me enxerguem com esse filtro e nem que ele vire uma desculpa para alguma coisa. Mas pode ser que enxergar as angústias alheias ajude quem está sufocando nas próprias.

Se a gente guardar os nossos transtornos escondidinhos com medo do que os outros vão pensar, quem mais tiver um transtorno não vai perceber, e vai viver mal pra sempre. E as pessoas precisam saber que a madrasta dentro da nossa cabeça não precisa ficar aqui pra sempre e não precisa falar mais alto que todo mundo.

É difícil, cansa, dói, te engole e dá vontade de desistir. E também não vai passar sozinho, não adianta tomar remédio pra dormir. Mas tem cura. A gente pode viver em paz.

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