O futebol, a depressão e o combustível da minha vida

Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
Eu entendo por que algumas pessoas pensam que jogadores de futebol são egoístas. Mas as pessoas também subestimam o futebol. Quando ele faz o bem, ele é um esporte muito justo. Se você tem o tem talento e dedicação, você pode se sair bem, não importa de onde você veio. Nesse sentido, o futebol é como o boxe. Ele dá esperança a muitas pessoas. É incrível o que o futebol pode fazer para mudar vidas.

Estas aspas de uma entrevista que Juan Mata cedeu ao Guardian em outubro de 2017 me trouxeram a este site e me fizeram abrir este rascunho. Não sei até aonde este texto vai, mas sei bem o que quero transmitir. Para começar, preciso dizer que gosto muito do espanhol e concordo em tudo com ele na declaração supracitada. Principalmente que as pessoas subestimam o futebol. As pessoas muitas vezes inferiorizam o poder que o esporte bretão tem na vida pessoal e profissional de alguém, na sociedade e no mundo.

Gostaria de discorrer sobre o papel social do futebol e como ele atinge todas as camadas e comunidades, além de unificar culturas e encurtar distâncias. Mas vou reservar estas linhas ao que me trouxe aqui assim que terminei de ler a entrevista de Mata e ao que o título entrega. Quero falar sobre o que o futebol representa na minha vida e como ele ajudou a me levantar na pior fase da minha vida, ainda que o que o contexto da fala do jogador do Manchester United não tenha a ver com a minha realidade.

Setembro de 2014. Dois meses depois do fim da melhor Copa do Mundo de todas, na qual fiz inúmeros amigos, conheci gringos de lugares que eu nunca nem tinha visto naquela lista imensa do Orkut e vivi intensamente mesmo sem ter conseguido ir a algum dos jogos. Não foi por falta de tentativa e nem de dinheiro, mas falhei em todas as missões virtuais de conseguir um ingresso para as partidas em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, as cidades-sede que eram mais acessíveis para mim.

Mesmo assim, meu mês de férias da faculdade se resumiu a acordar às 11:59 para ligar a televisão e assistir ao jogo do meio-dia, depois almoçar e já pegar o embalo dos jogos da tarde. Isso quando eu almoçava. Embora a Copa de 2010 tenha sido meu xodó e a primeira que eu de fato prestei atenção a todos os detalhes e acompanhei ferrenhamente todos os duelos, a de 2014 foi completa porque foi aqui, no quintal de casa, e me permitiu viver momentos memoráveis com pessoas inesquecíveis.

Setembro de 2014. Dois meses depois de viver um dos melhores períodos da minha vida, eu entrava na fase mais sombria dos meus então 19 anos. Eu, que sempre fui muito brincalhona e de bem com a vida, acabei entrando em depressão profunda. Comecei a perder o interesse por tudo que eu amava, sobretudo o futebol, que era parte do meu dia a dia e deixou de ser. Abandonei o curso de graduação dos meus sonhos na universidade dos meus sonhos. Perdi o apetite por comidas que eu sentia imenso prazer em comer, mas o pior: perdi o apetite de viver. Eu sempre amei viver, mas isso mudou da água pro vinho nessa época.

Nunca tinha tido contato com a doença antes e nem sequer tinha lido sobre os sintomas. Talvez isso tenha atrasado o diagnóstico e tenha feito com que eu tivesse minha primeira e única tentativa de tirar minha própria vida. Malsucedida, graças a deus. Mas os pensamentos suicidas eram constantes e foi só depois dessa experiência que tive ajuda psicológica e psiquiátrica. Ajuda esta que foi totalmente necessária, imprescindível para que o quadro depressivo fosse revertido, mas que por si só não teria sido capaz de o fazer por completo. Eu, que sempre amei futebol com todas as minhas forças, fiz do futebol a minha maior força. O futebol salvou minha vida, me ajudou a sair do fundo do poço.

Levou um tempo até que eu enfim retomasse minha rotina. Demorei para sair de casa como fazia antes, para me alimentar devidamente, para voltar a ter contato com as pessoas que eu mais amava. Mas voltar para o futebol foi rápido. Não demorou nada. O futebol fez parte da minha recuperação, da minha fase de aceitação que eu estava doente e precisava me tratar e cuidar da minha cabeça. Foi um período difícil, que eu passei bastante tempo sozinha. Quer dizer, não completamente. O futebol era minha companhia.

Pregar os olhos parecia uma tarefa impraticável em algumas madrugadas, então me confortava colocar o notebook sobre as minhas pernas e ficar assistindo alguns jogos memoráveis no YouTube deitada até pegar no sono. Eu evitava usar redes sociais nessa época e até desativei minha conta em algumas delas, mas não poderia ficar sem navegar na internet para pesquisar sobre torcidas extremamente apaixonadas que acabam apaixonando outros torcedores.

Em novembro de 2014 eu já apresentava uma melhora significativa. Neste mês viajei com meu pai pela primeira vez em toda minha vida, algo que eu sempre quis fazer. Fomos a Buenos Aires, onde assistimos aos shows do Arctic Monkeys, do Echo & the Bunnymen e do Calle 13 em um festival do caralho chamado Personal Fest. O melhor evento de música que já fui até hoje, tanto em termos de organização quanto se tratando de entretenimento no geral. Mas o ponto alto da viagem foi mesmo ter tido a oportunidade de conhecer o Monumental de Núñez, o primeiro estádio fora do Brasil em que pisei.

Não me lembrava a última vez que tinha soltado uma risada completamente espontânea e espalhafatosa até o momento que gargalhei alto com a guia do tour pelo estádio colocando as mãos na boca depois de proferir o nome Palermo, ídolo do Boca Juniors, em plena casa de seu maior rival. Contexto: ela estava explicando que antes de jogar no Monumental, o qual curiosamente não fica no bairro de Núñez, e sim em Belgrano, os millonarios jogavam em um campo que ficava entre os bairros de Palermo e da Recoleta. Não falou do jogador Palermo, mas sim do local. Foi divertida a cena e mais divertida ainda a reação dos torcedores que acompanhavam a tour junto comigo. Como me senti bem esse dia. Que sensação dulcificante era a de estar no meu habitat, conhecendo um estádio do esporte que mais gosto.

Os meses que se sucederam foram de altos e baixo na minha recuperação. Dezembro foi uma montanha-russa. O ano virou e em janeiro eu já estava bem melhor, sem pensar em tirar minha própria vida e pensando bem menos naquilo que me fazia mal. Os remédios estavam surtindo efeito e a terapia era complementar. Aliás, não foi só o ano que virou. Uma página da minha história também. Mas uma coisa permaneceu: o futebol. Esse sempre esteve e sempre vai ficar. É o combustível da minha vida, o que me faz feliz. Não poderia ser diferente. E foi assim que eu venci a depressão nesse jogo que eu nunca quis entrar e que eu posso garantir: nenhum adversário é mais fraco do que ela.

[Este foi o meu relato pessoal sobre como o futebol foi meu companheiro e colaborou para a minha recuperação quando eu estava com depressão. Se você está passando pelo que passei, procure ajuda profissional e se abra com pessoas que gosta e confia, elas vão te ajudar. Saiba que você não está sozinho. Se precisar conversar ou simplesmente ser ouvido, ligue para o número 188. É de graça. Você é importante, sua saúde e vida importam e você vai sair dessa.]

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