Ferrante, Saramago e a solidão

Li, há pouco tempo, o ótimo “A caverna”, Saramago. Desses livros que a gente sai grifando de um tudo sabe? Frases incríveis, uma história que às vezes parece se perder, mas contade de um jeito fascinante. Não é o melhor do Zé, mas é ótimo.
Agora, comecei “Dias de abandono”, da Elena Ferrante. Já passei da metade do livro. A forma como ela conta a história de uma mulher que de repente se viu separada do marido é emocionante, assustadora, angustiante, perfeita. E acabei me lembrando da caverna de Saramago — inspirada no mito da caverna de Platão. Sará conta a história de uma família (Pai, filha, genro e cachorro) que passam por uma mudança extrema em suas vidas: saem do campo, onde faziam peças artesanais, para viver no Centro (meio “1984”), onde o genro é segurança e conseguiu um apartamento para a família. A relação entre pai e filha é linda. O cachorro, Achado, é um desses personagens geniais e inesquecíveis da vida — como a Baleia, de “Vidas secas”. Mas aqui a história é outra: Cipriano, o pai, teme a solidão. Esconde esse medo, obviamente, mas teme loucamente a solidão, assim como teme a possibilidade da mudança. O que será dele, homem velho, morando numa cidade grande, sem ter o que fazer, sem ter a companhia do seu cão? E volto para a história da Ferrante: Olga, a italiana abandonada pelo marido, com dois filhos pequenos e um cachorro, Otto, que se abandona, como se fosse um corpo morto, entregando-se ao medo da solidão e ao fantasma da incapacidade.
A cidade nos abandona. A sociedade, cega e faminta por novidades, que despreza os antepassados, nos pressiona a ser quem não somos. O amor nos abandona, e você já nem sabe se é amor ou simplesmente a necessidade de ter alguém para ajudar com as crianças, para levar o cachorro pra passear, para reparar no seu corpo, nas suas curvas, na sua maquiagem.
O mundo é feito de lobos solitários. Em cavernas portuguesas ou em apartamentos italianos, entre outros lugares. O mundo é feito de pessoas que precisam de atenção, distração, paixão. De quem encara seus medos — ou se joga neles, como se nada mais importasse.
Precisamos falar sobre esses ligeiros abandonos aos quais estamos sujeitos. Sobre essa solidão que nos invade nos momentos menos apropriados. Sobre a vida, tão cheia de termos, luzes e vantagens, mas tão vazia de sentimentos.
Obrigada, Ferrante e Saramago.
