Star Wars Rogue One: como a arquivologia poderia mudar um filme

Uma análise da gestão documental do Império Galáctico

Nathaly Leite
Jul 21, 2017 · 6 min read

O presente artigo tem o objetivo de analisar o filme Rogue One — Uma História Star Wars mostrando como a arquivologia poderia transformar sua história. Nele apresento alguns dos erros arquivísticos que foram cometidos em cenas da obra e algumas possíveis soluções que possibilitariam a segurança de informações do Império e, consequentemente, atrapalhariam a vida da Aliança Rebelde.

Arquivos e instituições arquivísticas já foram retratados em diversas produções cinematográficas. Muitas dessas produções, inclusive, utilizam as informações registradas em arquivos como ponto crítico para o desenvolvimento de sua trama. Um exemplo de tais produções é o filme Rogue One — Uma História Star Wars , que não por acaso, foi escolhido como tema para análise neste artigo.

Mesmo os arquivos possuindo tamanha importância em um roteiro, não se percebe nos filmes um tratamento adequado aos documentos e às informações contidas nos mesmos. Em alguns casos, a aplicação de conhecimentos arquivísticos com seus princípios, teorias e práticas, poderiam criar cenários que possibilitam o desenvolvimento de um final diferente daquele original apresentado no filme. Para exemplificar tais afirmações, apontarei erros arquivísticos encontrados no filme analisado.

Análise

Em meio a tantas cenas de ação do filme, as cenas que mostram o roubo e a transmissão dos dados levantaram algumas discussões: com a importância que tinham, porque tais informações não receberam o devido tratamento arquivístico? e o que o Império Galáctico poderia ter feito para melhorar seu sistema de arquivos, incluindo sua segurança?

No contexto dessas discussões, uma empresa americana especializada em preservação de arquivos digitais, a Preservica, criou uma lista apontando os principais erros assistidos no filme. A seguir, comento alguns dos erros da lista, mostrando seus impactos na trama e apresentando algumas soluções práticas.

● Falta de backup
O uso de cópia de segurança com o objetivo de prevenir perda de informações é uma prática difundida na Arquivologia. De acordo com o documento “Modelo de Requisitos para Sistemas Informatizados de Gestão Arquivística de Documentos” do Conselho Nacional de Arquivos, os procedimentos de backup devem ser realizados frequentemente, sempre mantendo ao menos uma cópia em lugar seguro off-line. Além dos documentos em si, todas as informações necessárias ao funcionamento do sistema, como metadados por exemplo, devem ser incluídas nos processos de backup.

Se o Império possuísse cópias de segurança de suas informações, poderia acessar o plano da Estrela da Morte e identificar a falha implantada, corrigindo-a para evitar a destruição de sua arma mais poderosa.

Além da falta de backup, um aspecto que merece ser ressaltado é o armazenamento de dados críticos em um HD que poderia ser retirado de forma física tão facilmente. Os HDs do Império deveriam estar em um lugar mais seguro ou estar armazenados de uma forma mais protegida dentro da torre, ao menos.

● Falta de metadados
Jyn e Cassian conseguem acessar o inventário do arquivo Imperial e localizam um arquivo com codinome Stardust, mas como teriam certeza de que esse hd continha mesmo as informações relativas à Estrela da Morte?

Para eliminar essa dúvida e garantir uma recuperação da informação mais precisa e ágil, o Arquivo Imperial deveria utilizar metadados em seu sistema de informações, uma prática simples e que otimiza a busca por informações tão específicas quanto as necessárias para a Aliança.

Conceituando, os metadados são definidos como ‘’dados sobre dados” e se caracterizam como o conjunto de informações anexadas ao documento eletrônico com o objetivo de identificar o documento individualmente e estabelecer a sua relação com os demais documentos de um acervo (Rondinelli, 2002, p. 476).

● A localização e o edifício do arquivo
O
Conselho Nacional de Arquivos descreve em seu documento “Recomendações para Construção de Arquivos” todas as diretrizes referentes ao edifício e a localização de instituições arquivísticas. Descreve que construções compactas e menores são ideais para a manutenção das condições ambientais e que se deve evitar zonas próximas ao mar, entre outras áreas a serem evitadas. O arquivo mostrado no filme tem uma imponente construção em forma de torre localizada em uma ilha tropical, contrariando todas essas recomendações.

A estrutura de torre transforma o prédio em um alvo muito mais fácil de ser atingido no caso de ataques inimigos, além da maresia proveniente do oceano poder danificar rapidamente toda a estrutura tecnológica, já que as substâncias dissolvidas na água do mar evaporam e se espalham causando a corrosão de objetos metálicos.

Torre de Scarif

● Falta de criptografia
Com a quantidade de informações sigilosas contidas nos arquivos, uma grande falha foi não usar um meio de garantir a confidencialidade dos dados, impedindo que fossem codificados e compreendidos por usuários que não aqueles do Império.

A criptografia é uma maneira de se impedir essa situação. Consiste no processo de transformar dados em ilegíveis para transmiti-los, possibilitando sua compreensão em forma legível apenas para o receptor desejado. É uma tecnologia surgida na Segunda Guerra Mundial, onde era feita por transmissão via rádio. Atualmente é basicamente feita com dados de entrada, um algoritmo para leitura dos dados, uma chave que permita o acesso e os dados de saída criptografados.

Se os planos da Estrela da Morte fossem criptografados, o software da Aliança Rebelde não seria capaz de torná-los inteligíveis, o que tornaria inútil o roubo de informações.

● Falta de segurança administrativa refinada
Jyn e Cassian conseguem acessar o sistema Imperial apenas uma vez e conseguem ter acesso à todo o seu conteúdo. Um sistema de arquivos digitais necessita de um controle de acesso, além da identificação e autenticação de usuários. A Câmara Técnica de Documentos Digitais do Conselho Nacional de Arquivos determina que os arquivos com classificação de sigilo, seja por conter dados pessoais ou informações de cunho estratégico para a organização, devem ser restritos aos usuários corretos.

É necessário atribuir graus de acesso aos usuários do sistema, levando em consideração suas necessidades de informação e o seu papel dentro da organização. Se um usuário com grau de acesso apenas à arquivos ostensivos tentar acessar um arquivo sigiloso o sistema deve impedir, escondendo inclusive seus metadados.

Considerações Finais

Com os erros devidamente analisados, percebe-se que a falta de um profissional arquivista e gestão documental contribuíram muito para o sucesso do plano de Jyn. Mesmo no Império Galáctico é preciso pensar no cuidado com as informações produzidas por uma organização para que elas cumpram seu papel administrativo e também histórico.

O investimento usado para a criação e construção da Estrela da Morte foram recursos completamente desperdiçados, já que a Aliança Rebelde teve sucesso em encontrar a falha descrita no projeto roubado e usá-la para destruir a super arma. O Império Galáctico poderia ter evitado a exterminação de seu maior artifício para dominação da galáxia apenas investindo em uma boa gestão documental.

Com o trabalho de um profissional arquivista aplicando conhecimentos para a criação de um sistema de informações eficiente que contemple os arquivos digitais imperiais poderíamos assistir no filme o lado negro da força vencendo ao menos uma vez, além da correta representação de uma instituição arquivística com seu devido funcionamento.


)
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade