Crônicas de um beberrão II

Eu estava no bar do Raul tomando um pint de Old Speckled e acompanhando um jogo do Manchester United que passava na Sport Tv.

Era dia de Champions, e o Manchester enfrentava o Ajax pela fase de grupos. E o jogo estava bem pegado, do jeito que inglês gosta. O bar estava movimentado e muitos torcedores brindavam os lances brindáveis e entornava cervejas atrás de cervejas.

Raul, como sempre, agradável e conversador com todos, atendia prontamente a cada copo vazio. Eu estava no balcão, sozinho como quase sempre e, apesar de assistir o jogo, não prestava atenção a ele. Apenas via as imagens da tela.

Pensava na minha ex-mulher. Eu sei, eu sei… Isso é uma puta coisa de corno, mas fazer o quê? Acho que faz parte da natureza humana remoer pensamentos e lembranças até exaurir qualquer tipo de suco que essa fruta possa fornecer, seja uma fruta madura ou podre. Somos melindrosos e orgulhosos em excesso. Quando estamos chateados, elevamos isso ao máximo, e somos a maior vítima do universo. Se fizermos algo útil, nos sentimos os melhores do mundo, mais espertos e sagazes do que todos os outros. Mas, no fim, é tudo ego e melindre, e isso mostra o quão decadente é ser um humano civilizado e moderno.

Gol do Manchester. Meu copo vazio foi trocado por outro cheio, e a minha solidão deu lugar pra companhia de uma mulher de uns quarenta anos, com cara de chorosa. A maquiagem estava um pouco borrada, mas nada que um olhar embriagado e distraído pudesse notar. Percebi que estava sóbrio então. E, dentro da minha sobriedade, percebi que ela usava um vestido noturno, mas não vestido noturno de puta. Na verdade, ela estava muito bem vestida, como se estivesse em um jantar chique. Era uma mulher elegante, de presença chamativa, mas não vulgar. Cabelos cacheados e olhar de ébano, com uma boca pecaminosa. Tinha um corpo sólido, com volumes adequados para uma mulher com quarenta (acho que ela devia ter isso mesmo — talvez um pouco menos… sei lá). Ela era atraente, como aquela mãe do seu amigo, quando se tem 20 anos e muitos hormônios pipocando nas suas duas cabeças. Tenho certeza que se o jogo do Manchester não estivesse tão bom, os rapazes a teriam notado.

Eu percebi que ela estava do meu lado quando ouvi uma fungada, meio soluço, meio choro, da tal mulher que se sentou perto de mim (porque era o lugar mais distante possível de todos e mais próximo ao balcão do bar). Apesar de estar descomposta, tentava manter a compostura, e seu vestido verde me chamou a atenção, durante um relance que dei ao ambiente a minha volta. Nossos olhares se cruzaram e, como sempre, fui o primeiro a desviar o olhar. Maldita mania de quem foi casado muito tempo.

Ela pediu um bourbon, e eu dei um riso interno. Virou o copo e pediu mais um. Raul me olhou e levantou uma sobrancelha, mostrando o mesmo tanto de curiosidade que ela começou a despertar em mim.

Ela notou que eu a observei e me perguntou:

- Por que vocês homens são todos assim? — Disse isso enquanto acendia um cigarro e, após sua fala, deu uma longa e demorada tragada, e me fulminava com seus olhos escuros, como uma noite sem lua.

Eu, que já estava no embalo de sentimento ruim que a puta da minha ex-esposa me traz, respondi com a destreza de um aluno que ensaia tabuada todos os dias, e na hora da prova a professora te pergunta quanto é 2x2:

- Assim como? Trabalhadores que passam o dia fora trabalhando, pra pagar a merda do seu cartão de crédito, enquanto vocês fodem com o imbecil que trabalha na porra do mercado próximo a sua casa, que nem terminou o ensino fundamental, mas que tem os dentes no lugar e uma barriga igual àqueles bonecos machos da Barbie? Não, baby… Acredito que só eu seja assim. Um porra de um bastardo corno e infeliz por ser corno. — E a observei, apenas para apreciar a reação dela.

Ela ficou surpresa, e não percebeu quando as cinzas do seu cigarro caíram em cima do belo vestido que trajava. Após alguns instantes de olhares, novamente fui o primeiro a desviar os olhos, abaixando-os para o meu copo de cerveja, pois ele era o único do mundo que retribuía meus olhares de forma amistosa.

- Me desculpa… Não sabia disso. Eu estou um pouco chateada e com tudo que vem acontecendo… — e tive a sensação que ela iria começar a chorar ali mesmo, mas antes que algo pudesse se manifestar, ela entornou seu copo de whisky e engoliu qualquer princípio de choro. Ela era uma mulher forte, apesar de estar ali do meu lado com algo quebrado dentro de si. Eu a admirei por isso, então tentei me retratar com ela também:

- Tudo bem. Você não tem nada a ver comigo ou com o meu “mozão”. Sinto muito… Raul! Encha o copo da dama! E coloque esse na minha conta, por favor.

Ela o agradeceu com um gesto de cabeça, então começou:

— Bem, acho que estamos no mesmo time, sabe. Ontem eu descobri que meu marido me traía com a vaca da vizinha. Mais jovem, mais bonita, menos inteligente e menos seletiva...

A partir daí, a conversa continuou fluida, porém com um ranço de tristeza quase palpável na atmosfera. Mas, a medida que bebíamos, a coisa parecia ficar mais alegre e leve. Ríamos e conversávamos sobre os idiotas do nosso trabalho, os babacas dos nossos vizinhos, e sobre o saco que é festas de família. Ela trabalhava com auditoria e parecia ser bem de vida. Durante a conversa, descobri que o marido ganhava bem menos do que ela. Segundo Margot (o nome dela), parece que ele era meio cismado com isso e se sentia menos macho. Pra compensar, saia com mulheres estúpidas, pois não se sentia “inferior” com elas. Pelas coisas que me contou, o cara era meio tapado. De fato, estávamos no mesmo time. Senti vontade de criar um grupo de auto ajuda pra pessoas chutadas por pessoas babacas. Expliquei pra ela o quão encucado que eu fico com isso, pois a impressão que tenho que somos uma nota de cem e fomos trocados por uma de 2, e a pessoa que nos trocou acha que fez um bom negócio. NÃO FAZ SENTIDO. Ela apenas riu e me perguntou se eu realmente achava que amor era uma conta matemática.

É claro que não, mas apenas ilustrei com um exemplo ruim. Já estava em um nível de embriaguez onde apenas ri e disse que não sei. E lembrei do meu casamento. Do dia em que a pedi em casamento, do início do nosso relacionamento e tudo mais. Vagabunda. E como tudo pode ser perecível. Falamos os “Eu te amo” que os casais falam, decidíamos juntos o que faríamos aos finais de semana, gostávamos de sexo quando chovia forte, e de pedir comida chinesa quando a preguiça era tão grande quanto a fome. Enquanto eu fazia coco, ela tomava banho, aí eu ia pra o banho e ela ia fazer coco. Entre outras muitas coisas que eu poderia falar, e que apenas gastaria o meu tempo e o de vocês, tentando mostrar que éramos felizes e o cacete todo. Mas, como toda boa cerveja gelada ou todo hambúrguer com mostarda picante, as coisas boas tendem a acabar. A diferença entre um relacionamento e uma cerveja é que a cerveja, ou o hambúrguer, não te sacaneiam.

Meu momento de devaneio acabou quando Margot me cutucou e perguntou se eu queria ir pra casa dela. Eu topei, lógico. No táxi, conversamos pouco. A noite estava bonita e fresca, e a música que o taxista ouvia era ótima.

O apartamento era grande, bonito e bem mobiliado. A julgar pela organização, ou ela pagava alguém para arrumar ou ela era uma maníaca da limpeza. Fiquei com a primeira opção. Ela trouxe algumas cervejas e sentamos no sofá.

O que aconteceu depois é o que acontece nas outras histórias. Bebemos, transamos e caímos sono. Foi muito bom, mas foi sexo embriagado. Logo, foi bom como todo sexo embriagado. No dia seguinte tive a elegância de sair cedo e não acorda-la, mas deixei um cartão de contato.

No dia seguinte, no bar do Raul, estava sozinho e bebendo, após um dia tranquilo no trabalho. O movimento estava baixo, pois ainda era cedo e eu sempre era um dos primeiros a chegar no bar. Raul veio puxar assunto sobre a minha noite. Falei as coisas que os homens falam nesse tipo de conversa, mas não porque eu queria. Foi mais pra cumprir meu papel cívico como homem, numa roda de conversa. Raul se deu por satisfeito e me deu um chope por conta da casa. Eu pude voltar ao meu silêncio meditativo e solitário. Achei que nunca mais fosse ver a Margot, pois é isso que acontece quando duas pessoas quebradas ficam juntas. Aproveitam o momento, se divertem e esquecem o mundo por algumas horas. No dia seguinte, lembramos de nossas próprias merdas e cada um fica na sua.

Passou-se duas semana antes de aparecer de novo, em uma bela noite calorenta, e quando apareceu, Margot estava radiante. Seu rosto erguido e seu olhar atento mostrava que ela era uma fera, e somente homens corajosos poderiam tentar a sorte. Alguns dos homens no bar quase quebraram o pescoço para acompanhar os seus passos até o lugar ao lado do meu, no balcão. Meu deu um sorriso e perguntou como eu estava.

Conversamos por cerca de uma hora. Ela me disse que passou no bar só pra me cumprimentar e que conheceu um cara numa viagem a trabalho, Arthur, e que eles estavam saindo. Me contou sobre como se conheceram, o que ele faz e esse tipo de coisa. Disse que nossa noite foi casual, uma espécie de válvula de escape para nós dois. Ela esperava que eu não esperasse que aquilo fosse se repetir e tudo mais. Apenas levantei meu copo e concordei, porque sentia a mesma coisa. Pra ser sincero, fiquei surpreso ao vê-la entrar novamente no bar, e ainda vir falar comigo. Geralmente isso não acontece. A franqueza com que ela falava tudo isso me deixou à vontade. Ela era direta, prática e sem rodeios. Ao final da hora já mencionada, levantou-se e disse que precisava ir, pois iria encontrar com Arthur.

Antes de ir, ela me deu um beijo na testa e disse:

— Obrigado por me ouvir naquela noite. Precisava desabafar com alguém, sabe…

E um blá blá blá que não me lembro muito bem. Pediu pra o Raul me dar whisky por conta dela e se virou pra ir embora. Deu um passo e virou se de novo:

— Alias, aquela noite foi muito boa!

Piscou pra mim e sorriu. Depois foi embora e nunca mais apareceu no bar do Raul. Fiquei feliz por ela, pois ela foi legal comigo. Ela parece estar se virando bem depois de tudo. Estava se virando melhor do que eu, pelo menos, e olha que a minha derrocada já faz quase um ano. Tomei o whisky (era Jim Beam, lógico), acertei minha conta e fui pra casa.

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