Machismo, transfobia e desinformação: Por que devemos repensar as críticas à inclusão da jogadora Tiffany na Superliga

“O caso da Tiffany Pereira só mostra como ainda existe um pensamento geral de que as diferenças físicas entre mulheres e homens são imutáveis e, por isso, as primeiras sempre serão mais fracas do que os últimos.”

Primeiro é preciso dizer que este artigo surgiu por dois motivos: da curiosidade de amigos que vieram conversar comigo nos últimos dias sobre o tema de pessoas trans no esporte e da minha incapacidade de falar concisamente sobre o assunto em rodas de bares ou via áudios em aplicativos de comunicação.

Dito isto, o assunto envolvendo atletas trans nos esportes já teve um primeiro debate em 2014 quando o COI mudou as resoluções existentes sobre atletas trans e passou a permitir sua participação em Olimpíadas¹. Recentemente ele tornou-se novamente uma polêmica no país a partir de comentários feitos pela ex-jogadora de vôlei da seleção brasileira Ana Paula sobre a participação da jogadora Tiffany Pereira na Superliga defendendo o time do Bauru. Por isso, pelo meu ativismo político no âmbito esportivo e pelos motivos citados acima decidi colocar a minha opinião em forma de palavras.

Antes de falar sobre o caso específico da atleta no vôlei, é preciso dizer que o assunto é bem mais abrangente, profundo e complexo quando se pensa nos esportes olímpicos ou quando falamos de mulheres no esporte. Apesar de ainda pouco debatido, todo um estudo poderia ser feito sobre as consequências do machismo e da seleção sexual por fatores biossociais no processo de evolução biológico das mulheres. Para que se entenda as diferenças entre mulheres e homens no esporte é fundamental que se estude como o machismo dentro das sociedades impediu o acesso da mulher ao esporte de alto nível e consequentemente enrijeceu o processo de evolução do corpo feminino no que tange a extrapolar seus limites físicos. Apesar de acreditar que a questão do processo evolutivo é parte intrínseca do debate sobre mulheres trans em esportes femininos, divergir sobre ele acabaria nos levando para uma vertente do feminismo esportivo muito mais complexa e maior. Para que os debates não se confundam, agora tentarei ser o mais didática e pontual possível, então focarei somente no caso da Tiffany no vôlei.

Então, vamos lá:

Tudo começou quando, em um comentário em uma rede social, a ex-jogadora Ana Paula questionou a viabilidade do ingresso da jogadora Tiffany na Superliga feminina de vôlei ao alegar que o “corpo foi construído c/testosterona durante tda a vida. Não é preconceito, é fisiologia. Pq não então uma seleção feminina só com trans? Imbatível.”[1]. Segundo o argumento dela, as mulheres trans tiveram seus corpos construídos sob testosterona durante toda a vida. Portanto, atletas trans seriam não apenas fisicamente melhores do que mulheres cis como também seriam invencíveis em competições femininas.

Ok. Dado isso, vou mostrar o porquê, em minha opinião, não acredito que mulheres trans necessariamente venceriam mulheres cis em um jogo; e quando uso a terminologia necessariamente, uso por um motivo importante. Utilizo ela porque acredito que sim, eventualmente mulheres trans podem vencer um jogo de vôlei e isso é da vida esportiva, um dia se ganha e outro se perde.

No esporte nem sempre se vence, acontece, pessoal.

Sem entrar no debate sobre diferenças físicas entre homens e mulheres, vamos partir do pressuposto de que homens tenham vantagens físicas em relação a mulheres no vôlei. De fato, o vôlei de alto rendimento atual tem diferenças para homens e mulheres não só na fisiologia dos atletas como também nas regras do jogo. Na regra oficial da FIVB, por exemplo, a rede tem que estar à 2,43 metros no masculino do chão enquanto que no feminino ela fica à 2,24 metros. Em relação ao rendimento dos atletas, pesquisas mostram que os atletas homens costumam atacar a uma média de 3,65m do chão[2] enquanto mulheres atacam em média 3,10m[3] com um desvio padrão de 12cm. No bloqueio, os homens podem chegar à alturas como 3,35m ou 3,50m enquanto as atletas mulheres têm, em média, bloqueios de 2,97m. Além disso, existe também a diferença na velocidade de ataque e saque entre os gêneros.

Essas diferenças de medidas existem e são resultantes, dentre outros fatores, da quantidade de hormônios no corpo dos atletas, em especial da testosterona.
 
Atualmente o COI define[4] como mulher apta a competir em um torneio oficial a pessoa que tiver a quantidade de testosterona no nível de menos de 10 nanomol por litro de sangue durante os doze meses anteriores à competição. Essa determinação existe porque o COI e entidades internacionais de estudo sobre saúde creditam ao hormônio a responsabilidade principal na formação da massa muscular, na densidade óssea e, por fim, da força física. Força física essa que está diretamente relacionada com a impulsão de salto e força de ataque no vôlei.
 
 O que acontece no processo de transição de gênero é que geralmente uma pessoa passa por um processo de hormonização para chegar aos níveis comuns presentes nas pessoas do outro gênero. E Tiffany, que não é a primeira atleta trans no vôlei mundial, passou por esse processo em 2012[5]. Esse processo de transição e adequação hormonal aos exigidos pelo COI fez com que ela chegasse a 0,2 ng/L de testosterona e perdesse entre 40% e 60% de sua força. Atualmente a jogadora tem o menor nível de testosterona entre todas as jogadoras da equipe do bauru e ataca a uma altura máxima de 3,25m[6].

Tiffany em ação pelo Golem Palmi da liga A2 italiana.
Paola Egonu em ação pela seleção italiana.

Os dados de salto da Tiffany são compatíveis com o desvio padrão de altura de ataque encontrado no mundial de 2006 da modalidade. Atualmente já se sabe que existem atletas mulheres cisgêneras que atacam até 3,36m do chão. Apesar de não haver encontrado dados de velocidade de ataque da jogadora, os vídeos de seus jogos recentes não me levaram a crer que a força dela fosse desproporcional aos ataques das esportistas cisgêneras considerados fortes. Portanto, a atleta me parece dentro de médias absolutamente razoáveis para a prática do esporte em alto nível.

Bauru 2 x 3 São Caetano pela Superliga 2017/2018.

Dito isto, é preciso pontuar algo importante. Sim, existem diferenças físicas entre pessoas e assim também existem vantagens físicas entre pessoas e elas não são incomuns no esporte internacional de alto nível. Temos alguns exemplos famosos disso como:

1. A condição física do nadador Michael Phelps que tem uma envergadura de braço que é maior do que sua altura, o que proporcionada ele braçadas maiores do que a dos demais atletas

2. O caso das longas pernas do corredor Usain Bolt que são maiores do que a média dos outros velocistas. Por isso, o atleta consegue dar passos 20 cm maiores do que os outros atletas.

3. A condição genética de vários atletas do basquete como o ala Kawhi Leonard que faz com que ele e outros atletas tenham mãos maiores do que as médias dos jogadores e por isso tenham maior facilidade na condução das bolas.

4. No caso do vôlei, existem alguns casos famosos como o poder de salto da cubana Mireya Ruiz que media cerca de 1,75m e conseguia alcançar 3,35m de ataque há 30 anos atrás ou mesmo da russa Gamova que com seus 2,02m e grande capacidade de impulso gerava uma desproporção nos ataques contra adversárias.

Comparativo de mãos feito por jornalista brasileira com o ala Kawhi Leonard

Apesar de vários nomes da elite do esporte terem sido citados, outros atletas de alto rendimento também tem vantagens físicas sobre outros e isso nunca foi questionado anteriormente. No caso de Tiffany, é possível que ela tenha uma memória muscular acostumada com altos níveis de testosterona e por isso seu corpo esteja mais protegido contra lesões. Além disso, ela tem uma altura entre 1,90m e 1,94m que é mais comumente vista em atletas europeias, apesar de não ser raro no Brasil que teve atletas de Superliga como Mari, Andressa, Thaísa, Fabiana, Waleska, Joycinha, Natália Fernandes — todas com mais de 1,90m. Ao que me parece, a atleta dispõe de carascterísticas físicas como massa muscular e altura que outras atletas cis também dispõe e isso jamais foi questionado anteriormente. Além disso, é importante salientar que nenhuma dessas ditas vantagens físicas determina a marcação de um ponto no vôlei. Isso pode ser comprovado abaixo em um lance onde Yoshie Takeshita, levantadora japonesa de 1,59m, consegue bloquear Ekaterina Gamova, oposta de 2,02m da seleção russa.

O vôlei é um esporte coletivo. Uma de suas regras obriga que nenhuma atleta possa toque duas vezes seguidas na bola, a não ser no caso do primeiro toque ser um bloqueio. Portanto, ele é um esporte que não se vence e nem se joga com uma só pessoa em nenhuma hipótese. Além disso, o esporte é conhecido pelas suas condicionalidades táticas e técnicas que são extremamente complexas e exigem não só inteligência como também habilidades que só o treinamento diário pode proporcionar. Força e altura não são determinantes para o esporte feminino que tem algumas das suas maiores escolas inteiramente baseadas na tática, habilidade e fundamentos de defesa. Esse é o caso de seleções asiáticas como o Japão, mas também do Brasil e Itália que sempre tiveram times considerados menores do que outras seleções europeias e sempre formaram equipes explorando outras características que não a força ou tamanho.

Casos como o da jogadora Takeshita, com 1,59m, de jogadoras como as irmãs italianas Lucia e Caterina Bosseti assim como o da Gabi são amostras de carreiras de sucesso de jogadoras que não tinham como vantagem física força ou altura. Esses exemplos não são raros dentro de um esporte que é complexo, com muitas variações táticas. Uma prova disso é a capacidade da levantadora takeshita de obedecer posicionamentos táticos e assim bloquear jogadoras até 43 centímetros mais altas como visto acima.

Entendendo o esporte, torna-se possível perceber que é naturalTiffany seja uma das maiores pontuadoras de seus clubes já que ela atua como oposta em seus clubes, que no vôlei é a posição na qual o jogador é considerado o melhor atacante da equipe ou algo como um centroavante para o futebol. Porém, analisando o desempenho de seus clubes, fica claro que a característica do vôlei como esporte coletivo se impõe e assim como vitórias, os clubes também colecionaram algumas derrotas em jogos oficiais como é o caso do Bauru que em 3 atuações de Tiffany, perdeu dois jogos.

Por fim, é importante dizer que parte da argumentação de que um time de mulheres trans seria imbatível advém não só de uma transfobia mascarada pelo discurso genético como também de muito machismo. Machismo porque o caso da Tiffany Pereira só mostra como ainda existe um pensamento geral de que as diferenças de resultados físico-esportivos entre mulheres e homens são imutáveis e, por isso, as primeiras sempre serão mais fracas do que os últimos. Aceitar esse pensamento sem analisar como o histórico de recorte de direitos das mulheres durante séculos possa ter influenciado no processo evolutivo físico-esportivo feminino e acreditar nessas diferenças como dadas e imutáveis é analisar de forma simples a evolução humana.

Além do machismo, a transfobia se dá pela negação em entender a mulher trans como uma mulher, mas sim como um homem que, apesar da transição, sempre terá um quê de homem. Quando transportado para o caso da jogadora Tiffany, isso significa que as pessoas que criticam a inclusão das mulheres trans nos esportes femininos, mesmo após a transição de gênero, se recusam a aceitar essas atletas como mulheres e também acreditam que as essas esportistas sempre serão fisicamente superiores a qualquer mulher cis. É uma escolha minha não participar de nenhuma dessas duas crenças. Por fim, é essencial perceber que o esporte PRECISA assumir o seu caráter social de inclusão e que se ele também for um meio de separação, jamais seremos uma sociedade completamente justa e igualitária.

Fontes:

[1] https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/ana-paula-critica-liberacao-de-trans-na-superliga-nao-e-preconceito-e-fisiologia.ghtml

[2] https://saidaderede.blogosfera.uol.com.br/2017/03/27/novo-astro-do-volei-alcanca-mais-de-80cm-acima-do-aro-de-basquete/ ->

[3] Dados retirados do mundial de 2006 e cedidos pela FIVB. http://www.editorafontoura.com.br/periodico/vol-5/Vol5n1-2007/Vol5n1-2007-pag-383a388/Vol5n1-2007-pag-383a388.pdf

[4] http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,coi-muda-regra-e-permite-atletas-transgeneros-nas-olimpiadas,10000053822

[5] https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/na-italia-transexual-brasileira-quebra-barreiras-e-joga-entre-as-mulheres.ghtml

https://globoesporte.globo.com/volei/noticia/ana-paula-critica-liberacao-de-trans-na-superliga-nao-e-preconceito-e-fisiologia.ghtml

[6] https://saidaderede.blogosfera.uol.com.br/2017/02/21/estudos-e-norma-do-coi-garantem-transexual-brasileira-no-volei-feminino/