323.


“Vai ser diferente,
essa vez eu não vou fazer poesia,
não vou contar casos de amor, 
ou coisas que aconteceram ao decorrer do dia,
pintado em tons pastéis,
e regado por vezes de cerveja barata e cigarro.
Não fumo e não bebo pra escrever esse,
não estou em lugar estranho ou fora do comum,
não puxo da mochila a caderneta preta e um lápis azul,
não faço,
registro de leve com os dedos passeando assim,
descrevo o cansaço de uma postura encurvada,
sobre uma mesa marcada, 
meu anel eu esqueci, 
e devo dizer que isso desequilibra todo o exercício,
produzido aqui.
Aqui eu penso em formas outras,
de me fazer meu a mim,
numa maneira egoísta, 
cortar quem se prende ao meu corpo,
cortar quem se faz perto,
pra poder fazer de mim o que quiser,
me atirar d’algum lugar,
me enfiar em baixo d’água pra sentir.
Poder me desdobrar em mim, me desfazer no ar,
pra poder incendiar o corpo todo feito vela,
e me desmanchar,
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.
pra poder querer sem medo e sem culpa.

pra poder querer sem medo e sem culpa.
o que eu quiser querer, 
por mais que doa a quem doer,

garanto que a mim dói mais.”