Velozes e Furiosos 8: Quando a ambição não dá certo (SPOILERS)

Velozes e Furiosos 8 é como uma prova de matemática complexa em que tu erra todas as questões na última adição de cada operação: A base tá toda certa, mas o produto final não faz o que devia fazer. F. Gary Gray e Chris Morgan (diretor e roteirista, respectivamente) claramente queriam levar a franquia pra outro nível, mas como diria o ditado, “De boas intenções o inferno está cheio”.

Vou começar pelo que interessa: As cenas de ação. Sabe como em algumas histórias do Batman, ao invés dele lutar usando as inúmeras técnicas que ele conhece, ele acaba usando vários gadgets do seu cinto? É chato e não te mostra uma das coisas que a galera curte no personagem, que é a sua habilidade como lutador. Eu sinto que a mesma coisa acontece nesse filme: Os carros tem armas, arpões e até pulsos eletromagnéticos, mas em poucas situações a habilidade e engenhosidade dos pilotos importa nas cenas. Não é novidade que corridas de rua não são mais o foco dos filmes, mas os protagonistas ainda são bons atrás do volante e isso não foi muito bem explorado. Eu entendo que exista a vontade de evoluir a história e mover as coisas à frente, mas houve uma perda de identidade nesse filme. Não sei quem bolou elas, mas são as mais fracas desde Velozes e Furiosos 4.

Não ajuda também que a direção de F Gary Gray não funcione nas cenas de ação, tendo uma quantidade ridícula de cortes e movimento de câmera. Eu saí tonto do cinema por causa disso. Ah, e esse filme tem bastante cenas de luta. Elas não são boas. Se tu fazer uma lista dos problemas com cenas de luta modernas: Câmeras tremidas, planos fechados, impacto dos golpes sendo escondidos, esse filme checaria todos os quesitos. Não me entendam mal: É possível fazer cenas de ação boas, porém mal dirigidas (estou olhando pra vocês, irmãos Russo), e esse filme está cheio delas. É em momentos assim em que sinto muita falta do Justin Lin e até do James Wan, que dirigiu o sétimo filme.

Como que se edita cenas de ação mesmo?

Quanto à história, já era de se esperar que o Toretto estaria sendo chantageado de alguma forma para lutar contra sua família, e a forma como isso aconteceu é muito boa. Cipher, a vilã, captura Elena, a policial brasileira com quem Dom se envolveu no quinto filme. Da breve união dos dois nasceu um filho, cuja existência era desconhecida para Toretto até então. É um conflito muito convincente e há uma sensação de perigo real por todo o filme. O problema está nos eventos que se desenrolam no filme.

O forte de Velozes e Furiosos nunca foi seus vilões, que quase sempre estão em segundo plano, raramente tendo tempo para monólogos e desenvolvimento das suas personalidades. Isso, porém, nunca foi um grande problema, pois o foco dos filmes sempre foi Brian, Toretto e seus companheiros. Os vilões geralmente são apenas obstáculos que aparecem para tirar a paz dos nossos heróis. Eles tem objetivos e motivações simples que não atrapalham a compreensão do filme. Os criadores tentaram mudar isso com a Cipher.

Não deu muito certo.

Contextualizando, Cipher é uma hacker que muitos acreditavam ser um grupo ou entidade como o Anonymus. Ela é inteligente e fria, tendo vários diálogos com Toretto nos quais ela tenta o desconstruir, fazer ele ver que os laços com sua família e seu sentimentos são apenas instintos, vestígios de um tempo que que éramos selvagens. Ele é cínica e distante de tudo. Seu objetivo no filme é usar Dom para conseguir os equipamentos precisos para ela tomar posse de armas nucleares. Segundo ela, é necessário haver alguém que torne países responsáveis pelas suas ações. Se alguém sair da linha, ela usará as bombas atômicas como punição. Cipher aliás, tentou usar os serviços de Owen Shaw para adquirir esses materiais e o prejudicou ao não conseguir o que queria, o que é motivação para Deckard ajudar Hobbes e o resto dos amigos do Dom a ir atrás dela e descobrir o que está acontecendo (o que me incomoda porque em nenhum momento alguém menciona o Han, que foi assassinado pela Deckard, mas até eu admito que é implicância minha por gostar do personagem). Como eu disse, toda a conta está muito bem feita.

E aí eles erram a última adição.

Boa parte do filme é gasta com Cipher explicando seu ponto de vista, ameaçando Dom, permitindo que ele troque algumas palavras com Elena e veja o bebê só para separá-los de novo. Claramente há a intenção de elevar a vilã a um novo patamar, afinal de contas a Charlize Teron não deve ser barata, então bora fazer valer nosso dinheiro. O problema é que não há exatamente um unidade nas ações e discursos dela. Em um momento ela está querendo dar a Dom a oportunidade de estar sempre vivendo coisas excitante, em outro momento ela quer fazer ele enxergar que seus sentimentos são inúteis, depois ela fala sobre escolhas e sobre como apenas impactamos as pessoas transmitindo informações pra elas e meu deus do céu, como isso tá confuso. Eu tenho a impressão de que o Chris Morgan queria escrever uma psicopata inteligente mas não tinha a mínima noção de como uma psicopata inteligente se comporta. Tu nunca entende “qual é a dela”, e isso é ruim porque boa parte do filme é dedicada à ela. A gente vê muito pouco do time interagindo com Toretto enquanto ele está do lado dos vilões e muito menos de como eles estão lidando com a falta dele, então as cenas com Cipher deveriam compensar por isso, mas não é o que acontece.

Ah, e tem um detalhezinho importante que falta pra gente entender a motivação da nossa vilã: Em nenhum momento fica explícito que país ela quer atacar. Todo o esforço, todo o (falho) desenvolvimento, todas as cenas sacrificadas pra dar atenção à Cipher se tornam inúteis se a gente não sabe o que ela está fazendo. Que país ela precisa punir? O que esse país fez? Não há contextualização nenhuma que permita responder essas questões.

Eu não tenho emoções. Temam a minha bitch face!

Para encerrar, existe um último problema que eu acho que muitas pessoas previram que ia acontecer: Sem o Paul Walker e, consequentemente, o Brian, não há ninguém pra segurar o ego do Vin Diesel e evitar que ele seja um fodão absoluto. Ninguém chega aos pés do Toretto. Ele se mete numa enrascada quando começa a ser chantageado e ele sai dela praticamente sozinho. Foram Deckard e Owen que salvaram o filho do Dom? Sim, mas só porque ele entregou a localização a eles. O plano foi todo do Dominic. A única coisa que os amigos dele fazem é atrasar um pouco os planos da Cipher. Isso é muito chato, principalmente numa franquia com tanto personagens e que fez questão de manter Deckard como personagem de importância, além de adicionar mais um: O aprendiz do Senhor Ninguém, Eric Reisner. Essa era a oportunidade de mostrar o que a equipe podia fazer sem seu líder, e a resposta é “porra nenhuma”.

Concluindo, eu sinto que o oitavo Velozes comete o erro de se levar a sério demais sem saber como fazer isso. A Cipher é interessante no papel e fazer o líder da equipe se voltar contra ela também é uma boa direção para mover a história, mas ambos não são bem feitos. Porém, eu ainda acho que vale a pena assistir o filme, já que existem bons momentos. O Eric, aprendiz do Sr. Ninguém que foi apelidado de Ninguémzinho pelo Roman, é interessante e dá um humor extra pra filme (apesar de não impactar nem um pouco a história), sem falar que ele ganha um mini arco interessante. Ele e Ronan, aliás, são muito engraçados interagindo, um sendo sério e certinho, enquanto o outro é um bobalhão que não leva nada a sério. As cenas de ação, apesar de fugir da temática da franquia e não serem muito bem dirigidas, ainda possuem momentos legais e o conflito de Dom é convincente pra fazer ele trair sua família.

Sério, o Roman e o Eric salvaram esse filme.

Acho que faltou para os criadores entenderem o que torna a saga Velozes algo de sucesso para não darem o passo maior que as pernas que foi Velozes e Furiosos 8 ( ̶E̶ ̶C̶O̶L̶O̶Q̶U̶E̶M̶ ̶O̶ ̶V̶I̶N̶ ̶D̶I̶E̶S̶E̶L̶ ̶N̶U̶M̶A̶ ̶C̶A̶M̶I̶S̶A̶ ̶D̶E̶ ̶F̶O̶R̶Ç̶A̶ ̶O̶U̶ ̶C̶O̶I̶S̶A̶ ̶P̶A̶R̶E̶C̶I̶D̶A̶.̶ ̶E̶U̶ ̶N̶Ã̶O̶ ̶A̶G̶U̶E̶N̶T̶O̶ ̶M̶A̶I̶S̶ ̶S̶Ó̶ ̶V̶E̶R̶ ̶O̶ ̶T̶O̶R̶E̶T̶T̶O̶ ̶S̶E̶N̶D̶O̶ ̶Ú̶T̶I̶L̶). O filme traz pequenas mudanças no status quo que podem ser interessantes, mas elas certamente não foram feitas de maneira correta.