Fogo
Respirou e foi. Levou consigo uma caixa de fósforos daquela marca que parece um olho bem grande que encara quem acende o cigarro ou o fogão pra esquentar a janta. Levou álcool porque achou que precisasse. O pai costumava fazer churrasco e jogava álcool na brasa e saíam faíscas, achava bonito o fogo e a faísca.
Levou o medo junto. Brincar com fogo é só uma frase velha pra educar crianças, ninguém faz isso, ninguém literalmente brinca com o fogo, só mágicos e churrasqueiros. Não se tratava de brincar com fogo, a questão era acender a brasa tal qual o pai fizera. Não era carne para churrasco, picanha, maminha, essas coisas. Era só quem iria riscar o fósforo.
Olhou de longe o portão de entrada, olhou pra caixa de fósforos amarela que parecia que estava olhando de volta, faltava piscar, mas olhava e julgava. Entrou na sala e pegou o livro de ocorrências da gaveta, não tinha ninguém pra olhar, nenhuma câmera, o único olho era o da caixa de fósforos e esse vigia era cúmplice. O medo foi largado na gaveta, no lugar do livro de ocorrências.
Correu e entrou num terreno baldio bem iluminado pelos postes. Leu o livro todo, viu todos os nomes ali escritos, os nomes dos que seriam julgados e sentiu-se de alma leve ao confessar para a caixa de fósforos que seriam cúmplices de uma brincadeira literal com o fogo. Riu e jogou o álcool e continuou achando graça enquanto riscou o fósforo e colocou a chama bem na ponta da página onde jazia seu nome. Acabaria ali, em fogo e fumaça, o terrível pecado cometido.
Voltou para casa e pensou que os nomes eram como a picanha e a linguiça na brasa, o fogo consumiu as pessoas ali no livro de ocorrências e apagou a culpa delas e alimentou a sua própria. Convivia com a culpa a tanto tempo que mais uma ou duas não seriam demais.
Pegou a caixa de fósforos e jogou no lixo. Tanto faz a culpa e os cúmplices imaginários. Sonhou com as faíscas.
Abriu a gaveta e ele tinha voltado. O medo e outras culpas se aglomeram fácil demais. Não fez drama, quis fazer o mesmo caminho. Lembrou do cúmplice, o ciclope encarnado na caixa que abandonou na noite anterior. Não abandone seus cúmplices com sua culpa.
