6 Lições que aprendi no Camboja

Bayon Angkor Thom | Siem Reap — Camboja

Em meu último post, para não me estender demais, preferi deixar para falar da Ásia separadamente. Agora chegou a hora!

A viagem começou no dia 1º de junho de 2016, quando saí de Guarulhos com destino à Phnom Penh, capital do Camboja. Pensem numa viagem longa! Considerando as 10 horas de diferença de fuso, cheguei em meu destino final apenas no dia 3 de junho. Passamos por Abu Dhabi (Emirados Árabes), Bangkok (Tailândia), onde tive que fazer a imigração e mudar de aeroporto e, enfim, Phnom Penh (Camboja).

Durante o trajeto, ao chegar na Ásia, fui percebendo que os aeroportos, as cidades e os meios de transporte foram ficando mais simples. Ao chegar no aeroporto de Phnom Penh, três palavras traduziam meu sentimento: simplicidade, caos e calor. Muito calor! E muitas pessoas que moram do lado de cá do mundo me perguntaram: e o que é que você foi fazer no Camboja?!

Tuk-tuk — meio de transporte popular | Phnom Pehn — Camboja

Essa história começou a ser contada no meu post anterior, mas agora explico melhor: fui me encontrar com a minha sócia, que mora na Califórnia, para conhecermos melhor o projeto que apoiamos e que tem sede no Camboja. A Eco2Use é um negócio social, que teve início em 2015, quando morei nos Estados Unidos. De forma bem resumida: nós comercializamos as bolsas que são feitas com material reciclável (sacos de cimento), produzidas por mulheres do Camboja (em sua maioria, mães solteiras), e o objetivo deste negócio é empoderar essas mulheres, possibilitando a elas um emprego decente, com salário justo, e a possibilidade de trabalharem junto aos seus filhos. Sem essa flexibilidade, o trabalho fora de casa não seria possível e, consequentemente, sua independência financeira e qualidade de vida ficariam fortemente comprometidas.

Ao conhecer a realidade dessas mulheres e dos cambojanos, aprendi algumas lições que levarei comigo por toda a vida e que aplico no meu dia a dia como empreendedora.

1 — As pessoas fazem toda a diferença

Phnom Penh é a capital do Camboja, com mais de 1,5 milhão de habitantes, e não é uma capital bonita. Possui alguns monumentos e outros pontos turísticos, mas não deixa de ser a capital de um dos países mais pobres da Ásia. Porém, os moradores de Phnom Penh, Siem Reap, Kampong Thom e Kampong Cham, cidades e vilas que visitamos, fazem toda a diferença. Eles não são os melhores garçons, motoristas ou atendentes do mundo, mas são extremamente simpáticos, humildes, solícitos, querem saber sobre você, sobre o que está achando do país deles, gostam de perguntar (e de ouvir a resposta!), e fazem de tudo para te agradar. Por causa das pessoas esse país me marcou. Da mesma forma como deveria acontecer em uma startup, ou em uma pequena, média ou grande empresa: o que tem valor em qualquer um desses empreendimentos não é a empresa em si, mas as pessoas que fazem parte dela.

“Gente boa não é apenas crucial para o negócio. Elas são o negócio.” (Richard Branson)

2 — Sempre existe algo para se sentir grato

Apesar de toda a história de terror e sofrimento que assolou o Camboja na década de 70, os cambojanos são gratos por tudo e fazem questão de manifestar esse sentimento, o tempo todo. São gratos pela refeição de cada dia, pela família que têm, pelo emprego e, principalmente, pela liberdade que possuem hoje. Nós, ocidentais, ‘possuímos’ muito mais do que eles, temos mais oportunidades em todos os sentidos, e raramente nos sentimos gratos por isso. Ainda que enfrentemos adversidades durante a vida e em nossa carreira, após conhecer a realidade no Camboja tudo parece mais fácil, mais leve. Só depende de nós.

3 — Não deixe nada te deter

Kearun, um rapaz de 30 e poucos anos, responsável pelo projeto com as mulheres que produzem as bolsas para a Eco2USe, compartilhou sua história de superação com a gente. Com 5 meses de vida ele perdeu o pai, e a mãe passou a cuidar de toda a família sozinha. Desde criança sua mãe sempre o orientou a estudar bastante, dizendo que somente a educação poderia mudar a sua vida. Quando adolescente, seus amigos começaram a trabalhar nas fábricas em Phnom Penh, mas sua mãe o manteve na escola e não o deixou trabalhar. Mais do que Kearun, sua mãe nunca desistiu. Mesmo escolhendo o caminho mais difícil, já que passavam fome em casa com a falta de dinheiro. Hoje Kearun é formado, possui mestrado, trabalha para o governo, possui uma loja e criou o projeto social na casa de sua mãe, que ensina as mulheres produzirem as bolsas. Então, se você acredita, siga em frente, não deixe nada te deter. É com persistência, foco e fé que atingimos nossos objetivos de vida.

Mulheres que produzem as bolsas para a Eco2Use com seus filhos em seu local de trabalho | Kampong Thom — Camboja

4 — Viva por uma causa

Em Siem Reap tivemos a oportunidade de conhecer um monge budista, chamado San Van. Fomos até a vila onde vive, conversamos, recebemos suas orações e fomos conhecer os projetos sociais que ele administra e/ou apóia. Desde o colégio infantil aos poços de água limpa que são construídos em pequenas propriedades da parte rural do Camboja, San Van dedica sua vida (assim como outros monges) a fazer pelo próximo. Uma vida sem vícios, sem luxo, sem bens materiais, mas uma vida cheia de significado, plena. A felicidade e a tranquilidade de San Van são aparentes, e isso me fez refletir ainda mais sobre nossas escolhas de vida. Eu dei o primeiro passo com a Eco2Use, mas meu objetivo é conseguir atingir cada vez mais pessoas que necessitam de ajuda através de negócios sociais em áreas de atuação e locais distintos. Se esse é um assunto que te interessa, pesquise mais sobre isso e veja como é possível fazer pelo próximo e ainda ter lucro com a sua empresa. Afinal, nem todo mundo é monge budista, certo?

Monge San Van | Poço doado pela Eco2Use | Siem Reap — Camboja

5 — Você sempre possui o suficiente para dividir

Voltando para a história do Kearun e de sua mãe, ao visitarmos a ‘empresa’, que funciona na própria casa deles, fomos convidados para almoçar. Não vou negar, passei muita fome no Camboja, em especial na parte rural do país, onde acontece o projeto. Lá não havia um Seven Eleven sequer, ou qualquer outra loja de conveniência que vendesse algo que soubéssemos o que era. Resultado: muita fome! Anyway, na hora do almoço foram servidas pequenas cumbuquinhas com arroz, talo picadinho cozido (de alguma verdura que eu não soube identificar), e um caldo que continha uma coxa (magrinha) de frango em meio a poucos pedaços de batata. Poucos pedaços de batata, pouca verdura, quase nada de carne. Isso durante o almoço. Depois do almoço, fomos convidadas para jantar (praticamente o mesmo cardápio). Mais uma prova de que, quase sempre, quem menos tem é que mais divide. Ou seja, você sempre possui o suficiente para dividir. Seja comida, tempo ou conhecimento: você possui o suficiente para dividir.

6 — Sorria, sempre!

A lição mais simples e mais nobre de todas. Independentemente de toda a tragédia que essas pessoas já passaram em suas vidas, da pobreza em que vivem, da baixa expectativa de vida, do trabalho duro, da falta de lazer, etc, etc, etc, elas estão sempre sorrindo. É uma forma sábia de levar a vida. O sorriso deixa tudo mais leve, e não nos deixa esquecer que a vida vale a pena. No empreendedorismo nada é fácil, os obstáculos são muitos e os erros acontecem o tempo todo. Aprenda com seus erros, seja persistente e carregue um sorriso com você durante sua trajetória. Ao final, tudo vai valer a pena.

Eu aprendi que:

Se você tem a oportunidade de viajar pelo mundo e conhecer novas culturas, faça isso imediatamente e com frequência. Se você não tem essa oportunidade, comece a criá-la agora.

Confira meu último post “Great Times are Coming — O início da minha jornada empreendedora”: aqui.