Encantamentos e as janelas para as (re) leituras possíveis: as imagens são memórias

Nati Almeida
Sep 4, 2018 · 5 min read

“Certas visões não significavam nada, mas eram passeios verbais. A gente sempre queria dar brazão às borboletas. A gente gostava bem das vadiações com as palavras do que das prisões gramaticais. Quando o menino disse que queria passar para as palavras suas peraltagens até os caracóis apoiaram. A gente se encostava na tarde como se a tarde fosse um poste. A gente gostava das palavras quando elas perturbavam os sentidos normais da fala. Esses meninos faziam parte do arrebol como os passarinhos” Manoel de Barros, no delicioso “O Menino do Mato”

Eu tinha uns 13 anos quando li, pela primeira vez, um livro inteiro sem figuras. Achava um absurdo os adultos passarem horas em frente daquelas letras miúdas e sem cor. Para minha sorte, este primeiro contato com livros de mais de 300 páginas sem imagens, foi através de uma ficção cheia de magias e encantamentos. Um mundo inteiro de fantasia que se abria para mim e que inaugura também o prazer pela leitura de livros apenas com imagens vistas pelos olhos da imaginação.

Por algum tempo, tive um certo incomodo ou vergonha de relembrar desse momento, dessa passagem do livro colorido e leve dos livros infantis para a leitura densa e sem traços.

Hoje entendo melhor essa resistência à ausência das imagens nas escritas. O olhar infantil permaneceu em mim sempre a procura dos traços e da luz.

Nunca deixei de me apaixonar pelas capas, tenho a necessidade de passar as mãos pelas texturas das folhas, adoro sorrir sozinha, com o canto de boca, para os projetos gráficos e me encantar por algumas escolhas incríveis de fontes, cores e tons.

Enquanto minhas amigas se movimentavam pelas prateleiras recheadas de páginas importantes das ciências ambientais e sociais, eu passeava sem presa pela seção de poesia, arquitetura e fotografia. Era cada capa incrível, cada imagem, cada ilustração. Cada texto poesia que me levava longe.

Pensar e pescar essas memórias passeando pelos textos de Etienne é como andar por um orquidário, se surpreendendo por cada uma das belezas e profundidades. Segundo ele “as imagens, iguais a borboletas, voavam, passavam. Chegavam e, logo, iam embora. De um lado, um movimento das pálpebras e dos cílios, uma piscadela; de outro, um bater de asas, apenas. Efêmeras, fugazes, sempre de passagem, as imagens, tanto quanto as borboletas, não mudarão tão cedo. (…). Permanecerão inquietantes, intrigantes e insistentes. As imagens pertencem à ordem das coisas vivas, ao mesmo título que os problemas de beleza, os caranguejos do mar, as orquídeas e os seres humanos” (SAMAIAM, 2012).

Hoje, treze beneditos anos após o início da graduação nas ciências ambientais, entendo que esse gosto pelas artes sempre esteve aqui, escondido pelo fascínio pela natureza, suas formas e tons. E, sobretudo, pelo modo do povo lidar com tanta mágica e respeito com ela.

Agora, ao ler “Argonautas” – pelas janelas da fotografia – é quase como se encontrasse uma rede pendurada em uma árvore serena entre um rio e o mar. Como diz Saramago, em seu livro Ensaio sobre a Cegueira, “Afinal, há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte”.

E não é por acaso que mergulho pela primeira vez, com sorriso estampado nos olhos, na leitura de Malinowski a partir de seu registro fotográfico. Há raízes profundas e desejos que transcendem o que consigo verbalizar agora nesse interesse por caminhar e conhecer melhor os movimentos que a fotografia tece entre a ciência e a arte.

Esse jeito meio selvagem de ver o mundo talvez explique parte do desejo de exercitar, sempre que possível, nossos diálogos para além do verbal e do escrito. Tive a oportunidade e ainda tenho essa alegria de participar de processos de construção de propostas de encontros, eventos e congressos, e me pego sempre lutando para que, para além do verbal e da escrita, outras linguagens tenha vez e, em cada experiência, mais e mais espaço.

Ao estudar, no mestrado, os caminhos e modos em que os aprendizados sociais e coletivos circulavam na implementação de políticas públicas tenho a impressão que já havia ali o interesse em navegar pelas rotas cognitivas sempre genialmente encontradas pelas agricultoras e agricultores que não dominavam as artes das palavras escritas, mas se lambuzam com todas as outras.

A complementariedade (SAMAIAM, 1994) e a circularidade entre fotografias e textos traduzem as alianças possíveis entre palavras e luzes. Fotografias com legendas ornamentadas por poesias do cotidiano é mais uma matéria-prima antropológica que nos presenteia Malinowski.

E, ainda muito influenciada pelas mesmas raízes que me trazem até as imagens e suas relações com a caipira, a caiçara, as indígenas, o povo das florestas, das águas e dos sertões, fico durante alguns minutos enfeitiçada pela imagem 59: “um rito da magia agrícola”.

Segundo a legenda “Uma oferenda de alimento cozido para os espíritos fica exposta durante algum tempo no local da plantação. O feiticeiro, com machado cerimonial apoiado no braço, está agachado do lado direito. No primeiro plano, vê-se um grande monte de folhas sobre o qual o feiticeiro vai fazer o encantamento”.

Não é coincidência que a foto escolhida esteja no meio dos escritos do capítulo XVII que vai tratar especificamente do Kula e da magia. A imagem sobre a magia agrícola interage com as descrições que o autor faz sobre os encantamentos. A escolha da imagem se insere em um contexto de encantamento pelas práticas sociais que combinam formas de vida, cultivo de alimentos, magia e espiritualidade. Como aponta Maud (2014): “Portanto, as imagens ganham corpo por meio de práticas sociais, em que sujeitos incorporam as imagens tanto como ideia e representação como objetos, marcas corporais e gestos”;

Ritos distintos marcam processos, tempos e necessidades. No caso dos plantios agrícolas, da pesca e do tempo (ou clima), as oferendas e invocações aos ancestrais são necessárias. Os encantamentos descritos apontam que “a virtude, a força e o princípio estão na fórmula”, onde o rito atua como ação de condução e transferência para o objeto. Por este motivo, as oferendas, as folhas e o dito.

Os trobriandeses, aqui foco de análise, são exemplos dos tantos povos tradicionais que, seguem cantando para preparar a terra, semear, colher e se alimentar.

A leitura dos Argonautas, mediada pelas imagens, me conectou também aos cantos de trabalho. Brão, canto de trabalho dos mutirões rurais em São Luiz do Paraitinga no Vale do Paraíba em São Paulo, o cantar do socar pilão em Santo Antônio dos Olhos D’Água em Goiás, os cantos de trabalho e fuga dos escravos com as congadas, entre as quais as da vila de Airões na Zona da Mata Mineira.

A fotografia foi, nesse movimento de leitura deslocado, uma porta de entrada que se abre para cheiros, vozes, sentidos e conexões. As fotos que tratam dos celeiros, como na figura 38, também trazem a engenhosidade do povo que vive regido pela sabedoria da natureza e caminha com ela.

“Existem também algumas ideias sobre a estratificação da magia, a saber, que certas formas de magia têm que ser aprendidas primeiro, de modo que se fundem, enquanto outras vêm por cima. A força da magia, cristalizada nas fórmulas mágicas, é carregada pelos homens (e mulheres) da geração presente em seus próprios corpos. Eles são o receptáculo do legado mais valioso do passado. A força da magia não reside nas cosias, ela está dentro do homem (e da mulher) e só pode escapar através da voz”. (MALINOWSKI, página 197)

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