Sertão é dentro da gente

Os ventos sopraram tanto desde que nos despedimos em Paraty que ainda não deu tempo de assentar as ideias e silenciar o coração. Enquanto isso, a gente vai pegando emprestado do Rosa, sua poesia. Entre tanta força e delicadeza, desse gigantesco e avassalador presente chamado “Grande Sertões”, talvez esses trechos, sejam os que mais dizem sobre nós. Vale a pena se perder pelos labirintos de seus sertões de palavras. Vale a pena se perder pelos labirintos dos nossos sertões.

A gente principia as coisas, no não saber porque, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, pôr todos remexida e temperada.

Sertão. Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta. a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. Quadrante que assim viemos, pôr esses lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos os cotovelos. Sertão, – se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, pôr si, quando a gente não espera, o sertão vem. O sertão não chama ninguém às claras, mais, porém, se esconde e acena. Mas o sertão de repente se estremece, debaixo da gente…

“Remanso de rio largo. Viola da solidão: Quando vou p’ra dar batalha, Convido meu coração…”. A guerra tem destas coisas, contar que não é plausível. Mas, mente pouco, quem a verdade toda diz. O que o medo é: um produzido dentro da gente; um depositado; e que as horas se mexe, sacoleja, a gente pensa que é pôr causas: pôr isto ou pôr aquilo, coisas que só estão é fornecendo espelho.

A vida é para esse sarro de medo de se destruir. Sertão velho de idades. Porque serra pede serra e dessas, altas, é que o senhor vê bem: como é que o sertão vem e volta. Não adianta se dar as costas. Ele beira aqui, e vai beirar outros lugares, tão distantes. Rumor dele se escuta.

Sertão sendo do sol e os pássaros: urubu, gavião – que sempre voam, às imensidões, pôr sobre … Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e se abaixa. Mas que as curvas dos campos estendem sempre para mais longe. Ali envelhece vento. E os brabos bichos, do fundo dele … O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão, lá acolá é a caatinga. O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, e às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre.

Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre pôr arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala? O senhor deve ficar prevenido: esse povo diverte pôr demais com a baboseira, dum traque de jumento formam tufão de ventania. Pôr gosto de rebuliço. Querem-porque-querem inventar maravilhas glorionhas, depois eles mesmos acabam temendo e crendo. Parece que todo mundo carece disso. Eu acho, que. No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar pôr exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…

A vida é ingrata no macio de si, mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que este mundo é muito misturado… Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado. Êh, bê. Mas, para o escriturado da vida, o julgar não se dispensa; carece? Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo.

Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir, toda hora a gente está num cômpito. Eu penso é assim, na paridade. O demônio na rua… Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é o do sentidor. O que eu quero, é na palma da minha mão. Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso – o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ah, o que eu não entendo, isso é que é capaz de me matar… Carecia de se oferecer a ele de comer, que quem bem-trata gato consegue boa-sorte. E para obra dos malefícios tinham muito governo. Aprendi dos antigos.

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. Sou um homem ignorante. Gosto de ser. Não é só no escuro que a gente percebe a luzinha dividida? Eu quero ver essas águas, a lume de lua…

A qualquer narração dessas depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória. Bobéia.

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, pôr principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério… Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Deus é que me sabe.

Amiga? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amiga, para mim, é diferente. Não é o ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem pôr este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e. os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o pôr quê é que é.

Ah, essas meninas pôr nomes de flores. Ah, a flor do amor tem muitos nomes. Viver perto das pessoas é sempre dificultoso, na face dos olhos. Sou peixe de grotão. Quando gosto, é sem razão descoberta, quando desgosto também.

Eu sei: quem ama é sempre escravo, mas não obedece nunca de verdade… Quieto; muito quieto é que a gente chama o amor: como em quieto as coisas chamam a gente.