Steve Jobs por outro ângulo

(sem spoilers significativos)

É interessante perceber como os filmes têm contado histórias cada vez mais recentes. Não digo recentes no sentido de cotidianas, porque essas são fundamentais e necessárias pra que possamos refletir sobre coisas que às vezes estão perto demais do nosso campo de visão crítico. Me refiro aos filmes que narram a vida de pessoas relevantes.

Hoje temos em cartaz Suffragette, sobre a luta das mulheres por direitos no começo do século XX (que infelizmente ainda não assisti). Em 2014, The Imitation Game contava a trajetória de Alan Turing e suas descobertas durante a 2ª Guerra Mundial. Filmes como esses tem a capacidade de colocar seus protagonistas num pedestal, porque suas histórias se tornam tão grandiosas no cinema quanto na vida real. Então é estranho pensar que estamos glorificando Mark Zuckerberg e Steve Jobs de pé.

Aliás, talvez o Aaron Sorkin esteja se especializando em roteiros sobre pessoas ligadas à tecnologia. De fato, o roteiro de The Social Network é melhor que o de Steve Jobs, principalmente por conta da rapidez que ele carrega. Pra contar a história do fundador da Apple, Sorkin deixou um pouco da adrenalina de lado, mas manteve os diálogos complexos. Essa cena é um belo exemplo (e parabéns pro Seth Rogen, que trabalhou bem sem ser irritante!).

O filme segue exatamente a filosofia construída pela Apple de criar expectativas. A trajetória de Jobs é contada apenas nos bastidores, e justamente quando ele vai pro palco, a cena muda e a linha do tempo segue em frente. No começo é meio frustrante, mas depois faz todo sentido, porque essas apresentações são fáceis de encontrar por aí. Já o registro dos bastidores não existe, então dava pra criar bastante nesse ponto.

Além disso, o diretor permite que os espectadores se aproximem do protagonista ao mostrar os bastidores, e assim entendam melhor sua figura arrogante. Porque provavelmente o cara era bem arrogante mesmo, mas também é preciso reconhecer que ele foi brilhante ao plantar a semente da expectativa e do sonho de consumo por um aparelhinho que faz quase tudo.

Não que eu ache isso super legal. Na verdade, acho bastante absurdo que as pessoas fiquem dias na fila pra comprar um produto que, além de não ser um item de primeira necessidade, tem um valor altíssimo. Ter sonhos de consumo é legal, mas eles precisam ser minimamente saudável.

Outro ingrediente cinematográfico essencial é a trilha sonora. Ah a música! Adoro as trilhas orquestradas, mas ultimamente outros artista têm sido convidados a compor para filmes e os resultados são perfeitos. Como não amar a trilha de Her, por exemplo, produzida pelo Arcade Fire? Quer dizer, o filme todo é amor puro! ❤

Mas voltando ao Steve Jobs, gostei muito da ideia do Pemberton de criar mini-trilhas pra cada segmento do filme. As cenas não teriam o mesmo impacto se fosse tudo orquestrado ou tudo eletrônico. Destaques para: The Skylab Plan, Life Out Of Balance e 1998. The New Mac. Posso ouvir essas três em looping o dia todo!

Pra finalizar, achei ótima a ideia da Lisa ser o fio condutor do roteiro. Segundo o próprio Sorkin “Lisa é a heroína do filme”. Logo que ela desenha no MacPaint eu brinquei que ele criaria o iPod pra ela. E foi justamente isso que ele prometeu no final! (mesmo que seja um diálogo fictício rs)

Não sei por que a esposa e os outros filhos dele não aparecem, mas isso só evidencia o que mais gostei: o recorte. Ao contrário de uma biografia comum, em que a história é contada do início ao fim (parece que foi esse foi um dos motivos pro outro filme ter sido ruim), Boyle e Sorkin escolheram um pedaço específico da vida do Jobs e tiraram o máximo das apresentações do CEO da Apple. Apresentações que eram tão icônicas quanto os próprios produtos lançados.

Wozniak questiona Jobs sobre o que ele fez, já que não era programador ou designer ou nada que realmente fizesse com que ele botasse a mão na massa. Justo. Eu já gostava do Steve Jobs, mesmo sabendo que ele era arrogante, e o filme me fez lembrar que a Apple era muito mais. Certamente as ideias dele levaram a empresa a ser o que é, transformando tecnologia em sonhos (e vice-versa), mas todos os outros cérebros envolvidos também merecem destaque.

The Maccabees — Grew Up At Midnight

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Natália Franz’s story.