Juventude

O ônibus estava quase vazio mas aquele senhor de mais de 80 anos decidiu sentar ao meu lado. Eu, ranzinza nesta quarta-feira de sol e me sentindo muito mais velha que os meus 25, lamentei. Ele (o nome é Moacir) me fez parar de ouvir música para responder a uma pergunta boba sobre o itinerário da linha — que, desconfio agora, foi só para puxar papo.

Em pouco tempo Moacir me contou histórias de sua vida, falou das músicas que gosta e da felicidade em não ter pressa para chegar a lugar nenhum. Falava devagar, os olhos azuis me encarando, os gestos da mão manchada pelo tempo acompanhando as palavras. Meu fone, esquecido no colo, tocava uma música qualquer que já não me interessava.

Ele me perguntou se podia narrar um fato inusitado: havia se consultado com um médico raríssimo que o prometera rejuvenescer 40 anos — e, garantiu, “até o dito-cujo voltaria a ser jovem”. A frase foi seguida por uma sonora gargalhada, que ele cobriu com as mãos, pouco antes de dizer: “Me aguarde! Posso ter esperança?”.

Quando meu ponto se aproximou e ele me viu dar sinal, lamentou minha ida. Disse que eu era “bacana pra chuchu” e que não precisava ficar tão cabisbaixa. Me pegou pelo braço e disse: “menina, felicidade não existe. O que existe são momentos felizes. Não esquece disso.”

E eu, que acordara com 50 anos, fui tocada pela juventude de Moacir e saltei do ônibus me sentindo uma recém-nascida.

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