Machado contra flor morta

Ilustração de Martine Johanna

O que mais dói no fim é que ele é de uma vez só enquanto o amor é aos poucos. O fim entra sem pedir licença e quase sempre sem ser convidado e muda tudo. De um dia para o outro você não tem mais aquele ombro, lado da cama e companhia para o jantar que você se acostumou a ter nos últimos anos.

Nem sempre foi assim. Antes era normal ter a cama inteira para você, se alternar em jantares familiares, com amigos, com amantes e solitários. Mas aí vem uma pessoa qualquer (qualquer mesmo, geralmente como quase todas as outras) e você percebe que gosta de jantar com ela. E de dormir ao lado dela. E de se apoiar no ombro dela quando está vendo televisão naquela noite de domingo. E então você janta com ela mais vezes, dorme do lado da cama mais vezes, se aninha no ombro mais vezes. É algo bem sutil; quando você se dá conta, a pessoa está lá tantas vezes que você não sabe mais o que fazia antes de ela chegar. Com quem você jantava? O que fazia nas noites de domingo? Como era dormir sozinho naquela cama enorme? (parece enorme sem você).

E aquela situação/pessoa/sentimento que se instalou devagarinho, com cuidado, com paciência, com amor, acaba de uma vez. E de um dia para o outro você precisa lembrar como é jantar sozinho, fazer supermercado para um, chegar em casa e achar a luz apagada. Veja a diferença: foi aos poucos que você passou do estado “acordando sozinho numa segunda-feira” para o “amor, tem café pronto, toma antes de ir trabalhar”. Mas você precisa voltar para o acordando sozinho — e sem café pronto, possivelmente — em um tempo recorde.

O fim não é sutil e carinhoso, ao passo que o amor cotidiano vem de maneira delicada e paciente. O fim berra enquanto a construção do carinho cotidiano assobiava como passarinho num dia de sol. O fim te coloca num estado de alerta e te obriga a resolver tudo em pouco tempo, tal qual um filhote de pássaro que não sabe voar mas é jogado árvore abaixo. O fim é golpe de machado numa flor qualquer que ostenta pétalas mortas. O fim é brutalidade contra algodão sem uso. O fim é prático; o amor não liga para praticidade.

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