envelhecer 4

para a maior parte das mulheres, envelhecer é um processo de degradação. não é à toa que costumamos começar a sonhar com casamento tão novas. passamos a ser “velhas demais” para casar e nos relacionar a partir do momento que deixamos de ser muito novas, nos ensina Susan Sontag, naquele artigo que mencionei outras vezes (The double standard of aging http://bit.ly/2vN3pYy). mulheres solteiras da minha idade constantemente reafirmam que vão morrer sozinhas, que nunca encontrarão alguém para dividir seus últimos anos de vida, e olha que ainda temos 30 anos. essa mensagem é apreendida ao longo das décadas, desde a primeira infância, quando se inicia o processo de aprendizagem para casar, ter filhos e sermos boas esposas. enquanto vamos perdendo a jovialidade, passamos a ser preteridas. isso nos é dito a todo momento e a indústria de cosméticos e de moda não para de lucrar com o ódio que desenvolvemos do nosso próprio corpo, agora maduro.
mais velhas, tendemos a conhecer melhor nossos desejos — tendo em vista que nossa sexualidade é negada e sequestrada durante a juventude: muitas vezes por um babaca, outras pelo próprio processo de intoxicação do romantismo — e isso também torna o sexo heterossexual desinteressante para a maior parte dos homens: quanto mais novas, mais fácil dominar, moldar, subjulgar. 
é cruel a lógica que determina que, ao passo que tomamos a mínima consciência sobre nossa própria sexualidade, passamos a nos tornar inelegíveis para parceiros sexuais. não é sobre o que fazemos ou sobre como nos comportamos, somos alvos da predatória sexualidade masculina por como nós parecemos, sobre quão jovens aparentamos ser. mulheres velhas, mesmo as que são socialmente consideradas como “bonitas”, passam a ser desprezadas. uma vez, uma grande mulher, referência em muitos aspectos, me disse que pode perceber que tinha “passado do ponto” quando parou de receber olhadas e cantadas na rua, quando passou a escutar silêncio ao passar por um prédio em construção. o assédio na rua, que escutamos e sofremos cotidianamente, passou a ser um termômetro indicando que ela havia chegado na idade do desprezo masculino.
homens, ao contrário, enquanto envelhecem, passam a ser mais atraentes — não são poucas vezes que ouvimos dizer que mulheres envelhecem mais rápido que homens, perdendo sua beleza: assim o é porque, para nós, mulheres, importa como eles se comportam e o que fazem, mais do que como se parecem. percebam: eles têm, sim, medo de envelhecer e perder vigor sexual, potência, mas não deixam, em hipótese nenhuma, de serem eleitos por nós como potenciais parceiros sexuais só pelo fato de terem perdido juventude.
mulheres que ocupam cargos importantes, que têm sucesso em suas carreiras, ou que demonstram ser bem articuladas também são menos interessantes para se relacionar. homens afirmam se sentirem intimidados com mulheres declaradamente “bem resolvidas” — quantas de nós já ouvimos isso? — pois há menos chances de demonstrarmos insubordinação.
a própria maneira como cuidamos dos nossos corpos, mesmo depois de envelhecermos, diz muito sobre a nossa socialização. enquanto meninos praticam exercícios desde novos para desenvolver seus corpos, desenvolver espírito de competitividade, desenvolver inteligência corpórea, nós somos estimuladas a fazermos dietas — nossos braços precisam estar finos — , nossos exercícios são aeróbicos, e precisamos usar protetor solar e outros cosméticos para manter nossos rostos livres de marcas, das nossas marcas, evidências de que vivemos e temos histórias para contar — feminilidade não combina com isso. depois de mais velhos, homens em geral passam a simplesmente “abandonar” seus corpos, não praticam exercícios a não ser por recomendação médica, no máximo jogam bola uma vez ou outra com amigos. enquanto isso, nós passamos a vida inteira fazendo dieta, tentando manter nossos braços magros em fotografias, pescoço e rostos lisos e com o mínimo de marcas possível — “o pescoço entrega a idade”, e envelhecer, para nós, parece ser algo proibido.