Quando eu voltei a amar São Paulo e nunca mais parei

Rovena Rosa/Agência Brasil

Quem morou a vida inteira em uma grande cidade como São Paulo nem sempre tem a verdadeira noção do quanto de nossas energias é roubado diariamente pelo ritmo alucinante de uma grande metrópole. As filas, o trânsito, o transporte lotado e a insegurança nos fazem sempre ver o outro como um possível inimigo ou alguém que está ali só para atrapalhar, para lotar mais ainda o ambiente e quem sabe te roubar. Nem dá para julgar quem vem de outras cidades mais “calorosas”, como as do Nordeste, e acha o paulista um “povo frio”, “estressado” e “que nem fala bom dia no elevador”. Fomos criados assim, em apartamentos ou cercados de muros e medos, a cidade nos fez objeticar nosso vizinho, nosso colega, a atendente do caixa que não anda logo…

E o tempo então? Parece tão normal simplesmente acordar, passar uma hora no trânsito, trabalhar o dia inteiro, voltar para a casa, tentar assistir um seriado mas dormir de tão cansado. Ponto, seu dia foi isso, a semana também. E quando chega o sábado, temos que dar um jeito de nos divertir desesperadamente para ver se realmente valeu à pena o esforço de tanto trabalho.

Sempre achei que isso fosse o natural da vida desde que entrei na fase estágio-faculdade. Tive a sorte (sorte mesmo) de emendar um estágio no trampo e nunca mais parar. Eu sou jovem, pensava, agora é época de dar duro mesmo. Mas, observando ao redor, percebia que isso parecia nunca ter fim. Amigos, parentes, pessoas de todas as idades, entravam nesse ciclo e não saiam mais.

Foi quando o corpo pediu para parar. Crises de pânico acompanhadas de desmaios no metrô mostraram que não dava mais para mim. Fui mais uma vítima dos ditos 33% da população que sofre de transtornos de ansiedade.

Era hora de mudar, e sem saber direito que caminho seguir, coloquei em prática um sonho que há muito tempo estava me planejando para realizar: uma viagem de intercâmbio. O lugar: San Francisco, na Califórnia.

“Sanfra”, para os íntimos, apesar de não ser uma pequena cidade, é bem menor que São Paulo. Pude vivenciar durante 6 meses um outro ritmo de vida. Pessoas que paravam de trabalhar depois das 18 horas. Gente que ao fim do expediente simplesmente ia para uma praça conversar com os amigos, ver o pôr-do-sol, fazer piquenique no parque em um dia de semana.

Você senta na poltrona do ônibus e as pessoas vêm trocar ideia com você. Oi? Você sabe o que significa isso para um paulistano? No começo estranhei, achei invasivo, mas depois foi uma delícia. As pessoas queriam apenas conversar e sem nada em troca. Cada dia uma história diferente, tudo era tão mais leve.

Arquivo pessoal

Foi difícil voltar. Ter que enfrentar de novo todo trânsito, toda rispidez, toda falta de liberdade que eu tinha aqui. São Paulo, como eu te odiei. Mas foi aos poucos, aos pouquinhos que comecei a me apaixonar de novo por você. Para começar, o que me ajudou foi esse vídeo aqui.

https://www.youtube.com/watch?v=ZrGv5ibeYWghttps://www.youtube.com/watch?v=ZrGv5ibeYWg

Resumindo, a mensagem que a Monja Coen passa é a de que as próprias situações difíceis que a cidade nos deixa é uma oportunidade para o crescimento pessoal. Eu sei que levar isso em consideração na prática é bem difícil e parece um blá blá blá de gente zen, mas começar a pensar assim ajudou sim e muito.

Depois, comecei a reparar que a cidade estava mudando (isso foi no fim de 2014). Ela estava começando a receber movimentos muito massa de ocupação de rua: festas, festivais de gastronomia e música começaram a acontecer de graça, principalmente pelo Centro. A Paulista passou a ficar ocupada por pedestres aos domingos, o Minhocão aos fins de semana, as pessoas passaram a andar mais e mais de bike…

Outra coisa que me animou foi a quantidade de coisas culturais e gratuitas que começaram a se espalhar pela cidade. Basta uma boa curadoria de eventos no Facebook para encontrar uma tonelada de eventos e cursos gratuitos para fazer. Só fica em casa quem quer.

Uma coisa que também comecei a reparar: aqui você encontra sua tribo. Se você gosta de um determinado tipo de som, ou seja lá qual for seu hobby, é fácil encontrar uma turma. É só pesquisar em grupos de redes sociais e começar a participar dos eventos para se engajar no seu tema favorito.

Outra coisa massa: a gastronomia. Se você é viciado em hambúrguer, ou vegano ou quer comer kebab todos os dias, sempre vai ter muitas opções. Parece óbvio para quem sempre teve isso, mas você valoriza quando não tem acesso ou fica muito caro comer o que está a fim no momento.

Enfim, passei a enxergar um monte coisas que antes mesmo de ir embora não via. E hoje, por mais que existam muitas coisas que me desanimem em relação à São Paulo — como uma situação política lamentável, o aumento da violência e o assédio que sofro diariamente por ser mulher, minha vontade é de ficar. Ficar para mudar, nem que seja um pouquinho, porque quanto mais há cinza em uma cidade, qualquer pontinho de cor se destaca. São Paulo precisa de mais amor, e é por isso que que eu fico, São Paulo.

Imagem e arte de Rita Warner

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