Agora eu faço o quê com esse amor que eu sinto, Carlos? Enfio no cu? Bordo uma capa pro bujão de gás? Abandono na tua porta? Nem pra pagar um boleto essa porra me serve. Não vale um centavo. Fica só me perseguindo. 
No shopping, em fevereiro, dentro da piscina. 
Tô tomando lá um solzão toda arreganhada que nem um jacaré na beira do rio, com a baía de Guanabara aberta à visitação…
E esse trambolho atrapalhando a vista.
Eu queria que você arrebentasse suas pregas anais com aquela edição de capa dura de Orgulho e Preconceito que eu deixei na sua casa. Queria que teu chefe pedisse pra enfiar o punho no teu rabo largo depois. Assim, com essa delicadeza. Completamente desarmada.
Pois Carlos, saiba que fiquei geométrica quando tu contou que ia embora pra Belo Horizonte naquele ônibus horroroso. Meu estômago parecia de porcelanato. A comida estava de patins. Agora estou aqui na rodoviária vendo a vaga vazia da condução que já se foi pensando o que é que eu faço com esse amor todo que eu sinto.
Essa fertilidade de afeto que cê provocou.
Essa saudade tocando bateria na minha cabeça.

Não sei em qual ponto te fiz desistir. Teve aquela vez em que tentei suicídio no meio da Avenida Paralela. Chovia. Eu não queria nada com a hora do Brasil, só assistir mais um programa de decoração procrastinando obrigação da faculdade. Nossa, eu me enganei do tamanho do universo, não foi? Cabe um banco, uma ciranda e um acidente de carro no tamanho do engano que eu cometi. Cê sabe, cê tava lá. Pode falar, não fica com vergonha, não. E eu ficava cantarolando boba sentada no banco carona do teu carro: agora eu era herói, e o meu cavalo só falava inglês. E fazia o barulho do cavalo com a boca. Completamente incoerente. 
Acabei abandonando a direção do carro enquanto chovia na volta pra casa. Sabe Deus o que eu tava pensando, porra, não sei. Enlouqueci. Quis pedir ajuda, mas foi tão legítima a minha dor. Foi tão genuína. Tão precisa. Um susto: afinal, estou viva. Não sei do resto. Dá o maior trabalho permitir uma liberdade nascer. Quando eu era pequena aprendi a caminhar como pequena. E chamava isso de eu. Agora que deixei de caber em mim só me restou perplexidade. E o inferno de não saber o que fazer comigo mesma. Olho pro meu coração faminto e me pergunto como alimentá-lo. Fazer parar de espernear. Fico esperando alguém me dizer o que é que eu faço agora, me dar uma resposta plausível, segurar meus ombros e balançar até eu me encaixar nas vestimentas antigas de novo. Alguém me aparecer com um conforto. Um destino, uma ideia, esfregar meus pés no concreto. Me dar uma tarefa difícil de completar que demore o tempo de uma vida inteira. Alguém que consiga me enganar. Eu tô cansada de inventar uma verdade. E de me queimar manuseando incertezas palpáveis. No fim das contas eu só queria chorar com o rosto enfiado na tua camisa de flanela, encaixar minha cabeça no teu peito pedindo aos céus pra parar de arder, pra ter um pouquinho de paz na vida. Mas me senti desfragmentada. Minha verdade não cabia no mundo. E se eu morresse, meu bem, e daí? Pelo menos ia parecer menos ridícula pro pessoal que me viu — em prantos — recitar aos gritos uma letra inteirinha de Fagner com o celular na mão na festa de ano novo. Aí todo mundo ia dizer aquele “ah, então era por isso”. Aí eu não seria só patética, seria patética e grave. Tem que ser violento pro pessoal acreditar, tem que ter estardalhaço. Verdade vem com sangue. Ninguém lê notícia: Maria ninguém ameaça suicídio. Eu queria mostrar o tamanho da ferida. O desespero. A exaustão de não conseguir abraçar a felicidade porque de algum jeito sempre apareciam desculpas pra desviar dela. Eu tava com fome. Com a garganta seca, muda, esperneando estática. Com tanta dúvida sobre mim mesma que não sobrava mais tempo pra duvidar de nada e eu só ia engolindo qualquer verdade fácil de digerir. Eu tô sozinha, cara. Alguém me largou no mundo e me deu um tapa na cara. Eu não tô entendendo mais porra nenhuma, na verdade. E achar que a culpa do meu engano é tua foi só mais uma forma de culpar alguém pela minha falta de capacidade de encontrar soluções. Eu queria ter dito que tu é lindo, lindo por dentro e por fora, que me dá uma comoção quando você pergunta se eu quero chegar na hora ou se aceito uns minutos de preguiça na cama do seu lado. E despenteia meu cabelo. Queria ter dito pra você acreditar nessa merda aí que tá fazendo da sua vida porque tem horas que não tem jeito, é só você consigo mesmo. Dá um frio na barriga do caralho, mas amor deixa o outro seguir sozinho. Só que eu. Eu tava perdida lá. Dá pra entender? E me saí correndo. Ainda cheia de palavrão fomentando úlcera no estômago. Sei lá, tô só tentando explicar. Até pra ver se eu entendo também.

Mas não precisava ter sido cruel. Dar as costas me lembra do rosto de quem me abandonou. Tu não foi homem, Carlos, tu foi um broxa, aliás, tu foi é homem até demais e me rasgou em náuseas pelas quinas da casa. Fique sabendo que lhe amei demais e quis te fazer gozar todas as vezes. Com sinceridade. Mas tu foi embora crente que eu iria atrás. Não fez questão nem de disfarçar. E eu quase fui, mas estava passando um filme muito bonito na sessão da tarde e quis assistir. Aí então percebi que eu não queria saber o que fazer com você. Você é um traste.

Eu queria é saber o que fazer com o amor.