Das minhas coisas

Natália Sousa
Jul 10, 2017 · 2 min read

Sentei no sofá com pantufas, moletom e uma xícara de café com leite — e senti minha meia calça rasgar num rombo enorme contornando o joelho. Coloquei uma playslit para tocar e abri um livro. E o livro, com mais de cem crônicas, falava justamente do tempo em que as crianças usavam elástico para segurar o caderno e colavam figurinhas no fichário. Aí lembrei de lancheira, de recreio, de papel higiênico molhado no teto da classe, do giz que não pegava direito na lousa e que a professora usava, vez ou outra, para jogar na minha cabeça que só ria e não sabia fazer equação.

Lembro que, em compensação, era boa com as palavras, que corria bem no pega pega e salvava o mundo como ninguém.Era boa também de calçada, de chão, de chuva, de barranco, de areia. De fazer castelo enormes, de levantar e dizer: minha bunda tá suja, amiga? E minha amiga batia com tanta força na minha calça, que eu rapidinho dizia: tá bom, tá bom! Mas não era porque tava limpo agora, era porque o tapa dela doía para burro! Lembro que quando saía de casa, usando tênis e shorts de cotton, minha mãe dizia: “Filha, não sobe em todas as árvores do condomínio só hoje?” E minha resposta era uma risada, que sempre se misturava com a dela. Lembro que quando eu voltava e tocava a campainha, da cozinha ela gritava: tira tudo aí do lado de fora e entra correndo para o banho. E eu corria, molhando tudo de chuva.

Lembro de muita coisa, Carpinejar. E lembrar dá saudade. Mas não uma saudade apertada, uma saudade sem a dor, sabe? Uma saudade que é na verdade certeza: tá bem vivido até aqui.

Às vezes, é isso, a gente lê e quer contar da gente também.

Natália Sousa

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Escrevo para costurar o que em mim é solto. E só. Autora do livro “Tua Vida em Mim”.