Fui ao Museu do Louvre, não fui ao Museu Nacional.

Natalia Panis
Sep 5, 2018 · 2 min read

E ainda sim eu posso lamentar.

Incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, 3 de setembro de 2018.

Tania Rego Agencia Brasil (Carta Capital)

É triste, uma tristeza que se mistura com raiva, desespero e descrença. Não fossem os milhares e milhares de artigos de patrimônio histórico mundial que se foram e não voltarão pois já não existem mais, a tristeza se multiplica ao emergir dessa situação política, pública e tão pertinente, a rivalidade entre pessoas e seus discursos.

Basta uma tragédia, ou qualquer outra polêmica acontecer que lá se vai um país, já todo quebrado em milhões de pedaços, se despedaçar mais um pouquinho. Perdemos história, memória e patrimônio, mas, ao que parece, perdemos também qualquer capacidade de nos identificar enquanto um povo, um coletivo. E isso bem antes,

bem antes do incêndio do Museu Nacional.

ou do Museu de Arte do Rio de Janeiro,

ou do Instituto Butantan,

ou do Museu da Língua Portuguesa.

A tragédia do Museu Nacional soma-se à tantas outras tragédias que temos vivenciado no Brasil, e têm servido de pano de fundo para um espetáculo de ódio, polarizações e egos.

É tão egoísta, num momento destes, levantarmos nossa voz para afirmar quem tem mais ou menos legitimidade ao lamentar uma tragédia, ou quem faz mais ou menos pela nação, num cenário o qual já somos todos fracassados.

Eu, pessoalmente, me senti hipócrita ao me entristecer, após ler uma chamada midíatica comparando estatísticas de brasileiros que foram ao Louvre e nunca sequer foram ao Museu Nacional. Mas não me demorei neste sentimento. Não me demorarei onde houver polarização, ou falta de contextualização.

Nunca fui ao Museu Nacional, nem ao Rio de Janeiro. E isso não me tira o direito de fazer coro a dor, tão pouco me isenta da culpa, que como cidadã, carrego. Circunstâncias e privilégios da vida nos levam a determinados lugares, como o Museu do Louvre, mas há casos em que não nos levam a lugar algum. Nem mesmo no lugar do outro.

Nota mental coletiva: Responsabilizar as instituições e nos reconhecer enquanto povo.

Lamento pessoal: Ter perdido a chance de ver em vida, o Museu.

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