Agora tá todo mundo falando de 13 Reasons Why, né?

Ainda bem. Tava na hora, passou da hora.

Clay (Dylan Minnette) segura a fita onde Hannah deixou gravado os treze porquês da sua decisão de se matar. (Foto: Divulgação/Netflix)

Era setembro de 2015 quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) descobriu em pesquisa que o suicídio mata mais jovens do que doenças sexualmente transmissíveis. Ano passado, 2016, descobriram que é a quarta maior causa de morte no mundo todo. Por que é que alguém se mata? Por que alguém tiraria a própria vida? Pode não fazer sentido para você, é por isso que essa série é muito bem-vinda.

Primeiro, antes de continuar, um aviso importante: se você ainda acha que as pessoas se matam para chamar atenção, você não tá pronto para ler esse texto — a menos que se permita tentar abrir o coração e entender. Desculpa ser dura contigo, mas quando você acredita que alguém tira a própria vida porque quer atenção, você é um dos 13 motivos pelos quais Hannah Baker e tantas outras pessoas já fizeram isso.

Eu não sei se você assistiu a série ou está nesse texto para tentar criar coragem para ver — ou porque quer algum resumo ou opinião para absorver tanta informação de uma vez. Se você assistiu e tá se sentindo horrível, calma. Eu aposto que de cada 10 pessoas que viram, 7 também estão. Esse sentimento de “eu já fiz isso, meu deus” ou “eu poderia ter sido um amigo melhor” é triste, mas significa algo muito importante: você entendeu o recado.

Durante a série somos apresentados a 13 situações diferentes, ocasionadas por pessoas diferentes, que tiveram influencia direta na decisão da personagem por tirar sua própria vida. Conforme os episódios vão passando, 13 parece um número grande demais. Caceta, é muita coisa. E só piora.

A série é ambientada num colégio, e a gente já sabe, todo colégio é uma merda. O período de transição para a fase adulta é nojento. Tem gozação, tem zoação, bullying, ofensa, é um campo minado todo dia, o tempo todo. Você tem sorte se consegue encontrar um grupo de amigos bacana — o que não é inexistente — e seguir com eles até o fim, mas isso também não vai te privar de sofrer qualquer uma dessas coisas antes descritas. Adolescência é aquele período que você tem que tirar boas notas e decidir a sua vida. Não quer dizer que você vai tirar boas notas e decidir seu futuro, mas é o que o mundo espera de você.

Não era diferente com a Hannah. Um a um os porquês iam ficando cada vez mais difíceis de lidar, mais cruéis. E você começa a pensar, meu deus do céu, tá só no quinto ainda, o que de pior pode vir? E sempre vem, como um amontoado de roupas sujas, vai juntando e vira uma pilha, vai sobrecarregando.

Sei que você pode estar pensado que “a vida não é um conto de fadas, ela vai te bater mesmo e você vai ter que levantar”, e blá blá blá. Para por ai. Você não tá errado. A vida não é um roteiro da Disney. Mas, deixa eu te dizer uma coisa: não foram as coisas que fizeram para Hannah que a mataram, foram as coisas que não fizeram.

Do quinto episódio em diante, isso vai ficando cada vez mais claro. Pode não ser explicito, mas tá ali, tá muito ali, em todas as entrelinhas. No décimo primeiro, o episódio do Clay, essa verdade vem como um caminhão desgovernado e te atropela. Tem estraçalha. Te destrói.

- Eu matei Hannah Baker?
- Sim.

Você já ouviu alguém que você ama dizer que queria se matar? Geralmente, a pessoa não quer falar sobre isso, diz que não quer estar perto de você, não quer você ali. A maioria de nós não chega até o estágio de escutar coisas horríveis para tentar te afastar porque desiste no primeiro “não é nada”. Acabam deixando para lá ou perdendo a paciência.

Durante toda a série, até o fim dela, a maioria dos “amigos” porquês repete que Hannah tava mentindo e só queria atenção. Eu sei que você já escutou isso de alguém, isso se não foi você quem disse. É assim que as pessoas tendem a lidar com o que não entendem, menosprezam, embora no caso desses adolescentes fosse muito mais culpa do que qualquer outra coisa.

Tem porquê que se faz sem querer, sem intenção, sem perceber. Outros fazem conscientes e se arrependem tarde demais. Também há aqueles porquês que simplesmente são pessoas ruins, mas até eles um dia lidam com as consequências. E ainda há os porquês que não fizeram nada, exatamente, não fizeram nada quando poderiam ter feito.

Você começa a dar razão para a Hannah antes dos dois últimos e piores porquês. Sozinha, humilhada, objetificada, pressionada, sufocada em tanta coisa que ela não tem com quem conversar e se odiando tanto que se afasta da única pessoa que ainda podia fazê-la sorrir. Nem você, telespectador, assistindo uma ficção, tá aguentando mais.

O peso de não se suportar mais é algo que quem nunca sentiu provavelmente (e felizmente) nunca vai entender. E acredite, quem sobreviveu tá sempre muito atento e disposto a dar a mão. Mais apto a entender que a gente pode ajudar com pouco, não custa nada e pode valer muito para alguém.

O suicídio é algo que a gente só discute e conversa quando acontece por perto, e é por isso que as estatísticas não param de crescer. A série não é um incentivo, o recado não é para quem está prestes a se matar, mas para quem está ao redor. As vezes você está tão ocupado com outras coisas que não percebe o que pode estar ali, do teu lado.

Você não é responsável pelo o que as pessoas sentem, mas é pelo teus atos.

Há muito mais pessoas boas do que ruins, o problema é que os bons se calam quando deveriam agir. Não se cale. Tira a vida do piloto automático. Veja as pessoas como pessoas. Ninguém é só mais um. Você nunca sabe o que acontece com o outro então tente apenas não ser um babaca.

Tem uma frase da Audrey Hepburn que eu gosto sempre de lembrar: “Um dia, quando você ficar mais velho, vai perceber que tem duas mãos. Uma para se ajudar e outra para ajudar os outros”.

Então ao invés de “deixar pra lá”, deixa que 13 Reasons Why, esse texto, tantos outros que fizeram e os que ainda vão fazer, mudem algo em você.


Se você se identificou com os sentimentos da Hannah, quero te lembrar de algo que eu ouvi numa série e tatuei no braço para nunca mais esquecer. People don’t tell who you are, you tell them. Stay and fight. As pessoas não dizem quem você é, é você quem diz a elas. Fique e lute.