O Cuidado de Si e a Aparência

Antes de tudo, eu queria dizer que não estou defendendo nenhuma certeza aqui, nenhuma “prática correta” de qualquer coisa. Estou escrevendo sobre esse processo, para mim. Ainda muito nova, me reconheci feminista. O (s) feminismo (s) nunca mais saiu de mim ou da minha vida. É a partir dele (s) que baseio meu posicionamento no mundo, e portanto, boa parte das minhas decisões pessoais. É partir dele (s) que encontro força para lidar com situações difíceis, a elaboração e acolhimento de algumas dores e vivências. É pelo (s) feminismo (s) que olho pro mundo, e identifico a minha posição — privilegiada, sim. É por isso que eu abro olhos e ouvidos e fico atenta às falas, demandas e vivências alheias. Ou tento, pelo menos. Mas também sei muito bem que minha posição privilegiada me faz cair — sem perceber — em erros cotidianos comumente aceitos pelo “senso comum”, e tá tudo bem também, desde que eu assuma esses meus erros e as consequências deles. É o (s) feminismo (s) também que me apoia — e muito — quando estou frente a frente às contradições do que é ser mulher, jovem, (quase) mãe no Brasil. O papel de (quase) mãe me dá ainda mais vontade de ser e me posicionar como feminista.

Mas como adentrei nesse mundo ainda nova, abracei muitos conceitos e práticas sem ao menos pensar se aquilo faria sentido para mim — bom, isso pode acontecer com tudo na vida né. Abracei também porque combinava com uma certa identidade que me colocaram desde pequena nos círculos familiares. “A Natália não liga para futilidades”, era isso que eu ouvia, tantas e tantas vezes. Ouvia que eu não gostava de maquiagem, e roupas, e “coisas de menina”. Que eu nunca fui feminina, apesar de sempre delicada. Que eu gostava mais de livros do que de arrumar as bonecas — porque afinal a gente tem que escolher mesmo? — Que eu iria ser independente e forte quando crescesse porque eu não ligo pra "coisa de mulher".

E de forma arriscada, encontrei resquícios disso em um feminismo que já não é minha cara hoje. Abracei a ideia de que tudo que é feminino e “fútil” é ruim. Ao mesmo tempo que, no meu dia-a-dia, na verdade, isso era uma grande contradição, porque eu me sentia constantemente insegura com a minha aparência e forma de me apresentar para o mundo. Essa insegurança era tanta que eu nunca usava qualquer coisa que chamasse um pouco mais de atenção — um shorts, um batom forte, acessórios tantos. Claramente, meu posicionamento de “não ligo para futilidades femininas” não estava bem resolvido. Usava essa frase para justificar; para me auto convencer também.

Aos poucos, eu fui me permitindo descobrir todo um mundo de “futilidades”. E percebi que ao adotar no dia-a-dia o que as pessoas chamam de “coisas de mulher”, muita coisa muda. Claro que muda. Mais tarde, com meu curso de antropologia, aprendi que a forma de se apresentar no mundo faz parte do universo social — trocas, rituais e experiências tantas. O (s) feminismo (s) me mostrou que, geralmente, é cobrado da mulher uma estética perfeita, um padrão de beleza inalcançável e que podemos — e devemos — questionar esses ideais. Esse padrão de beleza surreal é a base de muitos distúrbios alimentares e práticas autodestrutivas. No entanto, conservar aquilo que te faz bem só pode trazer benefícios. Mesmo porque a ideia de que coisas ditas femininas são fúteis e, por isso mesmo descartáveis, é extremamente machista.

Aprendi a aceitar esse meu lado vaidoso, digamos. Ao mesmo tempo que tento pensar até onde isso me traz benefícios e até onde me traz prejuízos. Sempre tentando me equilibrar. A preocupação com a minha estética não pode ser uma prisão geradora de culpas. Mas me libertar da ideia de que preocupações estéticas são negativas foi maravilhoso e transformador, para mim. E assumir isso pra mim mesma e pra todos em minha volta, por meio da forma como me apresento, foi incrível também. Percebi que podemos resistir aos padrões de beleza absurdos cobrados das mulheres usando, sim, maquiagem, salto alto, cor e brilho — e tudo mais que temos direito, desde que nos faça bem.

Foto de minha autoria. Tirada em meados de 2016.