Célebre (boa) vontade

Pensei estar dentro de uma película qualquer, dessas que se repetem nos simulacros da vida
Mas não, era real: Ali estava a enfrentar um tráfego rotineiro nesta tímida e intransigente vaidade contida na boa vontade de cada um
À medida que o fluxo aumentava, o rebanho se aproximava, submetendo-me ao peso da responsabilidade e da dificuldade de entender a tal boa vontade, tão planejada, tão ensaiada, tão simulada
E eu sei o que todos sabem que, ainda que seguíssemos um rebanho e seu afável pastor, não haveria sequer um desdobramento a fim de compreender a nós mesmos, quiçá o próximo. E, uma vez insatisfeitos com os resultados da pastoral, diríamos: "absolva-me"
É é dessa forma que atestamos nossa pureza, aptos a amparar o próximo e, quem sabe, praticar a boa vontade. Mas a manada é indolente, frente a possibilidade de mudança e, custosa como ela é, retorna à sua configuração padrão. E então surge o seu ímpar eterno retorno, fabricado na medida: correr atrás do próprio rabo e, ao dar errado, recorrer ao pastor para solucionar questões de caráter individual
É por essas e outras que ninguém anseia desgarrar-se do rebanho, custará caro, uma vez que o caminho só é possível em duas vias: o self e o próximo
E esse tal bicho da compreensão? Não é tão simples como adotar e compreender um animal de estimação. Provavelmente seja o amor ou, quem sabe, um novo pacote de atualização do velho hábito de jogar moedas aos leprosos. Medo, culpa, vaidade, vai que a solidariedade evolua para um novo tipo de amor, o amorismo: a mistura de amor com egoísmo
Com a cabeça cheia e bem no fim da minha perambulação, vejo o rebanho outra vez, resmungando às escondidas por aqui e acolá, mas cada um com sua bela simpatia denotada em um sorriso que, no âmago, é apenas o óbito da sua suposta alegria
Um dia, quem sabe um dia, descobriremos que a tal boa vontade é apenas a má vontade de viver de verdade