Entre a luz e a sombra

Eu não sinto o amor em minhas veias. Nunca havia lhe dado devida atenção, mas cobrava quando me faltava. O mundo conspirava contra o meu ser, mas nada fazia, apenas ressalvar a triste e fracassada existência repleta de vitimização. Outro relacionamento, mas o mesmo padrão. Morde e assopra. Aproxima e assombra. Meu iceberg, além de soprar os ventos do norte, escondia a ilusão da frieza. E então, quando a balança tende em minha direção, a presunção vem à tona, mas em movimento contrário, e assim mergulho em um delírio.
Ela, cansada da persona cujo aquele que tanto amava, farta dos olhares frios e furtivos, de quem não queria enfrentar o desafio de amar e ser amado. Frente a uma crise, meu ódio contra minha existência foi apenas o alvorecer de um novo caminho para aquela dócil mulher. E do que me restou? Uma carta, com manchas e borros no papel:
"A brisa da noite é sempre uma armadilha.
De toque suave ela vem fresca e vai me invadindo…
Me remonta a lembranças do que não vivi, pessoas que não conheci…numa sensação estranha de algo por vir, sensação essa que sempre me acompanha. Sentimentos. Gostos. Cheiros. A mente vaga entre passado, futuro…o que existiu e o que não existiu.
Eventualmente sinto aquele aroma que me remonta ao aconchego ímpar daquele abraço. Das curvas dos desenhos daquela pele, de um sorriso preso e olhos mareados de dúvidas.
Aqueles olhos, só eu sabia sua real cor e não imaginava quantas nuances ali cabiam. Variavam entre luz e sombra. Eu as via numa oscilação constante entre o céu e o inferno.
Entre a intempéries desabrochou o mais bonito dos sentimentos. E verde era sua cor. A cor que de mim saía e refletia em seus olhos.
Encontrei o amor. Forte, intenso…impossível.
Era um veneno que me matava lentamente, que trouxe à tona o meu pior e o meu melhor.
E não me arrependo um dia sequer de ter vivido tamanha experiência, por mais que ela hoje seja apenas memória em uma noite de brisa fresca."